NIETZSCHE, FRIEDRICH (1844-1900)
Jean Granier. Universalis.
Toda grande obra é sempre incompreendida em algum grau, mas a de Nietzsche provoca equívocos mais do que as outras — seja pela tentação de neutralizar as terríveis questões que levanta, seja pela de projetar sobre seus escritos preconceitos doutrinários e fantasmas pessoais.
Negou-se longamente a Nietzsche a qualidade de filósofo, alegando-se suas contradições, seu estilo poético e aforístico, sua doença e seu colapso final — e a obra nietzschiana foi ainda desfigurada pela propaganda nazista e acusada de propagar um irracionalismo a serviço do capitalismo em sua fase imperialista.
A obra nietzschiana é um canteiro de ideias mais do que um sistema, e a beleza e clareza do estilo dissimulam, na ausência de um vocabulário tecnicamente rigoroso, a profundidade temível do pensamento.
Uma vez dissipadas as contradições artificiais, as dificuldades se concentram em torno de algumas questões centrais relativas à interpretação da obra.
Enquanto Nietzsche se afirma o iniciador de um começo realmente novo em filosofia, Heidegger vê nele, ao contrário, o acabamento grandioso e inquietante da metafísica ocidental.
Um comentário axado sobre o tema da interpretação e da verdade seria talvez o mais apto a proteger o dinamismo construtor do pensamento nietzschiano — especialmente contra as tentativas repetidas de anexá-lo a formalismos dogmáticos que ele mesmo, por antecipação, já havia magistralmente refutado.