NIETZSCHE, Friedrich. Menschliches, Allzumenschliches: Ein Buch für freie Geister. Chemnitz: Ernst Schmeitzner, 1878 (Com os suplementos Vermischte Meinungen und Sprüche, 1879, e Der Wanderer und sein Schatten, 1880). / Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
1. Todos esses escritos, do Nascimento da tragédia ao Prelúdio a uma filosofia do futuro, constituem uma escola da suspeita que arma laços para pássaros incautos e incita à inversão das valorações habituais, olhar tão profundamente desconfiado que condena ao isolamento e obriga a buscar abrigo em adorações, inimizades ou ciências e, quando estas faltam, a forjá-las por artifício e criação poética, sobretudo a crença numa afinidade de olhar e na confiança da amizade, de modo que os autoenganos sobre Schopenhauer, Wagner, os gregos e os alemães foram astúcias de autoconservação e falsidades necessárias ao luxo da veracidade, pois a vida não é invenção da moral, mas quer e vive da ilusão.
2. Os espíritos livres a quem se dedica Humano, demasiado humano foram inventados como companhia fantasmagórica para manter a alma alegre em meio à doença, à solidão, ao exílio e à inatividade, compensando a falta de amigos, embora um dia possam existir de fato na Europa futura, cuja vinda talvez se apresse ao descrever os fados sob os quais nascem e os caminhos por que aparecem.
3. O espírito livre amadurece a partir de uma grande liberação, que irrompe como terremoto numa alma jovem antes presa pelos deveres da reverência, da gratidão e da veneração, arrancando-a de tudo o que amava com horror, desprezo, anseio de exílio e o prazer culpado de uma primeira vitória, liberação que é também uma doença perigosa, expressa nos experimentos selvagens com que o desprendido revira o proibido e se pergunta se não é possível inverter todos os valores, enquanto a solidão, selvagem mãe das paixões, o cerca de modo cada vez mais opressivo.
4. Do isolamento doentio dos anos de experimento ao excesso de forças plásticas e curativas da grande saúde, madura liberdade do espírito que é também autodisciplina do coração e privilégio de viver por experiência, estende-se uma longa convalescença, na qual surge um estado intermediário de pálida felicidade luminosa e liberdade de pássaro, em que curiosidade e suave desprezo se unem e se vive sem os grilhões de amor e ódio, voluntariamente próximo ou distante, ocupado apenas com coisas que já não preocupam.
5. Num passo adiante da convalescença, o espírito livre reaproxima-se lenta e desconfiadamente da vida, descobre com gratidão o que é próximo como se o visse pela primeira vez, agradece a suas andanças e à alienação de si e encontra felicidade até no cansaço e nas recaídas, pois adoecer à maneira dos espíritos livres e tornar-se lentamente mais sadio, receitando a si a saúde em pequenas doses, é cura radical para todo pessimismo.
6. À luz de uma saúde ainda impetuosa desvela-se o enigma da grande liberação, cuja resposta é a exigência de tornar-se senhor de si e das próprias virtudes, convertidas em instrumentos, de dominar o pró e o contra, de perceber o perspectivismo de toda valoração e a injustiça necessária inseparável da vida, sobretudo onde a vida mais estreita se toma por medida de todas as coisas, e de enxergar o problema da hierarquia, em que poder, direito e amplitude de perspectiva crescem juntos.
7. Generalizando seu caso, o espírito livre reconhece que em todo aquele em que uma tarefa quer vir ao mundo sua força secreta atua como gravidez inconsciente por trás de todas as vicissitudes, pois o destino e o futuro ditam as regras do presente, e somente no meio-dia da vida se compreende que os preparativos, desvios, disfarces e estados contraditórios de indigência e felicidade eram necessários para que surgisse, como problema próprio dos espíritos livres, a longa escada da hierarquia.
8. Qualquer psicólogo perceberia o lugar desse livro no desenvolvimento descrito, mas psicólogos existem na França e talvez na Rússia, não na Alemanha, onde, embora lido em muitos países por quase dez anos, foi o menos ouvido por exigir sentidos delicados, superfluidade de tempo, clareza de coração e ócio temerário, coisas que os alemães de hoje não podem ter nem dar, resposta diante da qual convém calar, pois às vezes só se permanece filósofo mantendo silêncio.