Jacob Needleman concebe um romance em que o protagonista, Eliot Appleman, psiquiatra de cinquenta anos em crise, é enviado magicamente ao passado para encontrar sua versão de dezesseis anos.
O autor se identifica com o herói: assim como Eliot, Needleman vivia uma crise pessoal quando o projeto nasceu.
A questão do tempo é posta como mistério fundamental: se estamos errados sobre tantas coisas menores, não há razão para supor que compreendemos o tempo.
O jovem Jacob era chamado de Jerry.
Eliot Appleman é psiquiatra treinado para enxergar padrões ocultos da psique, enquanto Needleman, filósofo, concebe o mundo como tecido de aparências regido por leis discerníveis apenas pela sabedoria.
O percurso ficcional de Eliot exige que ele abra a mente a uma realidade que o “Dr. Appleman” científico tenderia a rejeitar como fantasia mística.
O percurso real de Needleman seguiu caminho inverso: as grandes questões metafísicas exigiram o confronto com o próprio vazio interior.
A cena de abertura do romance se passa em Filadélfia, em 1952, num restaurante chamado Turin Grotto, onde o jovem Eliot está com Elaine, uma jovem um ano mais velha por quem se apaixona pela primeira vez.
É a última tarde de sábado do verão.
O restaurante está movimentado, com garçons de paletó preto circulando apressados.
O Eliot mais velho se senta a uma mesa próxima e observa os dois sem ser notado.
O professor que enviou Eliot ao passado não lhe deu instruções sobre as leis da viagem no tempo, e Eliot, atordoado com a oferta, não fez perguntas.
A ausência de advertências sobre intervenção no passado é justificada pela própria natureza dos eventos: os acontecimentos de uma vida são tão interligados que ninguém consegue identificar os verdadeiros pontos de virada.
Qualquer pressão exercida sobre a própria vida produz apenas perturbação passageira, como ferimento superficial que o tecido logo fecha.
O momento em que os dois Eliots se olham nos olhos pela primeira vez é tratado como o centro dramático mais importante da cena.
O jovem Eliot se afasta instintivamente, como se tivesse tocado fogo.
O Eliot mais velho sente tristeza terna e um amor sem nome.
Esse encontro de olhares ilustra o que ocorre internamente quando qualquer pessoa rompe, mesmo que fugazmente, o sentido ordinário do tempo.
A memória superficial mantém os seres humanos prisioneiros do tempo; em suas profundezas, ela abrigaria a única esperança real para o indivíduo e para a humanidade.
O Eliot mais velho, ao ouvir as acusações lacrimosas de Elaine, reconhece os efeitos que elas terão sobre o jovem, mas esse reconhecimento é inerte.
A cena revela que a memória do Eliot mais velho era falsa: ele não se lembrava realmente do que foi dito nem de como Elaine se comportou.
Sem pensar, o Eliot mais velho estende o isqueiro para Elaine acender o cigarro; uma corrente poderosa passa entre os dois quando as mãos se roçam.
A paixão que irrompe no peito do Eliot mais velho demonstra que as emoções essenciais não mudam com o tempo, pois o grande sentimento não pertence à dimensão temporal.
A pergunta filosófica que se abre é sobre o que realmente percebe a passagem do tempo, se não é o sentimento.
O tempo é apresentado como possível construção do pensamento desconectado do sentimento.
O impulso de viver, de viver mais e de não desaparecer na infinidade do tempo é colocado em relação com a escassez de paixão real na vida humana.
Elaine sai correndo do restaurante e o jovem Eliot, depois de um momento de paralisia, joga dinheiro sobre a mesa e corre atrás dela, deixando o Eliot mais velho sozinho a tentar beber sua água fria e recompor o propósito que o trouxe ao passado.
A afirmação antiga de que o tempo não existe em si mesmo serve de ponto de partida para a tese de que o que chamamos de tempo é abstração filosófica e instrumento científico, nunca algo diretamente perceptível.
Salomão, o Pregador, é citado como fonte da verdade de que tudo possui seu próprio tipo de tempo.
Universo, galáxia, Terra e o próprio corpo são descritos como entidades que vivem, sentem e pensam, todas infundidas de tempo.
Os versos do Eclesiastes são transcritos: tempo de nascer e de morrer, de plantar e de arrancar, de matar e de curar, de chorar e de rir, de lamentar e de dançar.
O Eliot mais velho conduz um carro e sabe, pela memória, onde encontrar o jovem Eliot, que caminha deprimido ao longo de uma via arborizada sob o calor opressivo da tarde.
Antes de se aproximar, o Eliot mais velho pensa no que deixou para trás: a fachada de entendimento compartilhado com a esposa que encobria ausência de conexão real, o amor pelos filhos travado por ideias preconcebidas sobre paternidade, e o exercício da psiquiatria reduzido a técnicas que simulavam atenção.
A questão que o atormenta é se o jovem médico cheio de anseio pela verdade ainda existe em algum lugar nele, em algum ponto do tempo.
A visão dos ombros cabisbaixos do jovem Eliot revela ao psiquiatra mais velho a essência de uma emoção característica sua, demonstrando que as memórias de pacientes e a sua própria nunca foram tão reais ou profundas quanto precisariam ser.
O que os seres humanos chamam de lembrar é descrito como trabalho de uma pequena parte da mente, que mistura pensamentos e sentimentos acidentais a fragmentos dispersos do passado.
Ninguém jamais voltou realmente ao passado nem viu as raízes do próprio ser com a totalidade da mente.
O jovem Eliot, ao perceber o carro verde-escuro que desacelera ao seu lado com a porta aberta, aceita a carona sem hesitar, o que ele mesmo estranha, por nunca ter feito isso antes.
A hipótese que o jovem formula é que a preocupação com Elaine não deixava espaço para o medo ou para a cautela habitual.
Uma outra hipótese, não formulada conscientemente por ele, é deixada em aberto.
A pergunta do Eliot mais velho sobre o destino do jovem serve de pretexto para explorar o que ocorre quando alguém faz contato pela primeira vez com o próprio destino.
O destino é apresentado não como superstição, mas como corrente profunda que carrega algo essencial do ser humano em direção a um futuro predeterminado, abaixo da superfície agitada do cotidiano.
Há algo no interior humano que quer emergir à consciência e crescer, algo que chama a pessoa não só do passado mas do futuro.
A pergunta central é o que acontece quando esse chamado mais fundo começa a se fazer ouvir no meio dos minutos e horas carregados do dia a dia.
O jovem Eliot é tentado a responder “qualquer lugar, não importa” à pergunta sobre o destino, mas diz simplesmente “para casa”.
Eliot nota vagamente que o estranho parece saber qual caminho tomar sem precisar de instruções.
Os pensamentos de Eliot estão dominados por Elaine: por que ela o empurrava para longe e por que esse afastamento o prendia ainda mais a ela, levando-o a fazer promessas insensatas.
O Eliot mais velho é descrito pelo jovem como homem de cinquenta anos, atarracado, de ombros largos, mãos pequenas e nervosas no volante, cabelo comprido e barba rala de castanho-acinzentado.
O jovem sente calor e relaxamento ao começar a responder à conversa trivial sobre o início das aulas.
Os pensamentos sobre Elaine voltam a dominar a atenção do jovem, que se deixa engolir novamente pelo medo e pela imaginação.
A intenção narrativa é explorar a patologia geral da relação humana com o futuro: sob a superfície da preocupação constante, existe um conhecimento mais profundo que às vezes aflora, simbolizado pelo salmão que nada contra a correnteza e cujo nome deriva de Salomão, o Sábio.
A sabedoria interior que conhece e intenciona de modo invisível ao indivíduo em curso de vida é comparada a um grande peixe sábio que habita as profundezas abaixo da superfície das águas.
Toda agitação, planejamento e manipulação humanos nunca conduzem ao futuro tal como ele realmente se forma.
A incapacidade de imaginar o futuro verdadeiro não decorre da natureza do tempo, mas do estado de ser do ser humano.
O primeiro olhar frontal entre os dois Eliots ocorre quando o carro para num sinal de trânsito e o estranho se vira para perguntar o destino.
O jovem Eliot abre a boca, mas não consegue falar; vira a cabeça bruscamente e começa a respirar com dificuldade.
Os olhos castanhos com reflexos verdes e amarelos do estranho são descritos como quentes e radiantes; as feições poderiam ser infantis se não estivessem comprimidas com tal intensidade; o sorriso é luminoso, mas a testa está profundamente sulcada.
Ao olhar o perfil do estranho, o jovem Eliot percebe na têmpora a cicatriz em forma de asa e, ao tocar o próprio rosto, confirma que possui a mesma marca.
O jovem Eliot treme violentamente, respira em arrancos e considera abrir a porta e saltar do carro em movimento, mas não o faz.
Os motivos são três: o risco de morte, a paralisia física pelo medo e a suposição de que tudo não passa de um sonho.
O estranho repete “não tenha medo” e, ao lado do terror, o jovem percebe novamente algo quente e agradável no peito, embora olhar para o estranho o engula de volta no medo.
Ver o futuro significaria ver a si mesmo, ver as consequências reais de todas as escolhas e perceber o que foi desperdiçado, o que introduz o terror no ato de olhar para o próprio futuro.
A personalidade humana é descrita como formação fabricada pelo mundo para afastar a verdade objetiva.
A sociedade cessou de enviar mensagens de verdade objetiva que convocariam o indivíduo a lutar pelo próprio ser.
A mensagem do cosmos ao ser humano, segundo as tradições antigas, é que, embora mortal e finito, ele carrega em si algo capaz de transcender o tempo; essa mensagem é constantemente enviada do centro do universo.
O jovem Eliot sente o terror de ser visitado por uma força infinitamente além de sua compreensão e de ser visto pelos seus próprios olhos; a questão hindu de que a realidade última é a consciência do Eu é colocada não como conceito metafísico mas como verdade concreta e pessoal.
O mundo cultural e social envia ao ser humano uma mensagem oposta à do cosmos: o tempo é finito e o ser humano é finito, destruído pela existência.
Essa mensagem é transmitida não por conceitos, mas pelo comportamento ansioso e pela descrença profunda dos mais velhos.
A personalidade se forma para proteger o indivíduo da dor metafísica, e o faz bem demais.
No mundo falso, o tempo é inimigo, mas sua potência profunda permanece oculta sob a agitação das ondas superficiais.
No mundo real, há um vento que vem do centro do universo, um mensageiro que é sempre enviado.
A intenção da cena é evocar o primeiro contato real com esse outro medo, o bom medo que ameaça tudo o que se conformou à mentira, e que às vezes se manifesta como a experiência do estranho-inquietante.
O jovem Eliot fecha os olhos, luta contra o terror que o faz tremer e empurra as palavras pela garganta cerrada: “Quem é você?”
O estranho responde com uma pergunta: “Quem você acha que sou?”
O jovem se recusa a dizer o que pensa, recusando-se inclusive a pensar.
O estranho sussurra que não quer nada do jovem e pede que ele não tenha medo; o motor é desligado.
O jovem Eliot olha novamente para o estranho e não suporta o olhar por mais de um segundo: os olhos castanhos simplesmente o contemplam com atenção plena, sem exigência, sem desvio, sem rigidez feroz, sem julgamento, sem desejo, sem distração.
Para o jovem Eliot, esse olhar é como tocar fogo; é insuportável.
Eliot fecha os olhos e começa a chorar; abre a porta e coloca uma perna para fora como se fosse embora, mas não vai.
O Eliot mais velho também fechou os olhos e também treme, pois ele próprio não consegue sustentar esse olhar livre de julgamento e parcialidade.
Com o ver, entra na vida um novo tipo de medo e uma pergunta completamente nova sobre o tempo.