Edgar Morin (Método3) – O desconhecido do conhecimento

A noção de conhecimento parece-nos Una e evidente. Mas, assim que a interrogamos, ela rebenta, diversifica-se, multiplica-se em inúmeras noções, cada uma das quais põe uma nova interrogação.

Assim, desde um primeiro olhar superficial, a noção de conhecimento voa em estilhaços. Se antes quisermos tentar considerá-la em profundidade, torna-se cada vez mais enigmática. É um reflexo das coisas? Uma construção do espirito? Uma revelação? Uma tradução? Que tradução? Qual é a natureza daquilo que traduzimos em representações, noções, ideias, teorias? Captamos nós o real ou somente a sua sombra?

Nós compreendemos, mas compreendemos nós o que quer dizer compreender? Captamos ou damos significados, mas qual é o significado da palavra «significado»? Pensamos, mas acaso sabemos pensar o que quer dizer pensar? Existe um impensável no pensamento, um incompreensível na compreensão, um inconhecível no conhecimento?

Ignorância, desconhecido, sombra, eis aqui o que encontramos na ideia de conhecimento. O nosso conhecimento, todavia tão intimo e familiar em nós mesmos, torna-se-nos estrangeiro e estranho quando o queremos conhecer. Eis-nos colocados logo à partida diante desse paradoxo de um conhecimento que não só se desfaz em migalhas à primeira interrogação mas que também descobre o desconhecido em si mesmo, e ignora até o que é conhecer.