McLuhan

Marshall McLuhan (1911-1980)

Umberto Eco. Cogito Interruptos.

Há livros cujo comentário se revela mais fácil do que a simples leitura — como a Metafísica de Aristóteles ou a Crítica da razão pura —, e há livros agradáveis de ler mas impossíveis de comentar, pois recusam entrar na proposição “este livro diz que.”

O cogito interruptus é típico de quem vê o mundo povoado de símbolos ou de sintomas.

A Perda do Centro de Sedlmayr é uma obra-prima do pensamento apocalíptico, e Understanding Media de McLuhan é talvez o texto mais agradável e bem-sucedido da escola parousíaca — e quem os confronta esperando uma quermesse dialética de contradições descobre que os dois raciocinam exatamente da mesma maneira.

A tese de McLuhan — que todos os aportes da tecnologia, da roda à eletricidade, devem ser considerados como meios de comunicação, extensões da corporalidade humana que transformaram nossa sensibilidade ao longo da história — é apresentada com uma técnica de argumentação que paradoxalmente invalida seu próprio alcance.

Esse colagem de citações sintetiza as posições de McLuhan e ao mesmo tempo fornece um exemplo de suas técnicas de argumentação — que são tão coerentes com sua tese que invalidam seu próprio alcance.

Se se assiste ao advento de uma nova dimensão do pensamento e da vida, ou ela já está totalmente ganha — e nesse caso não se pode mais escrever livros para demonstrar o advento de algo que tornou todo livro incoerente —, ou o problema da época é integrar as novas dimensões do entendimento às que ainda fundam todas as formas de comunicação.

A crítica mais grave a McLuhan não é de ordem estilística, mas de definição equívoca dos termos — o que os escolásticos, que McLuhan como antigo comentador de santo Tomás deveria conhecer, chamavam de equívoco sobre a suppositio dos termos.

Propõe-se então uma alternativa: o meio não é a mensagem — a mensagem se torna o que o receptor faz dela ao adaptá-la a seus próprios códigos, que não são nem os do emissor nem os do pesquisador de comunicação.

Understanding Media pode ser lido — sim — porque, apesar de parecer uma enxurrada enorme de dados (Arbasino supôs magnificamente que o livro foi escrito por Bouvard e Pécuchet), ele não oferece senão uma única informação central: o meio é a mensagem, repetida com obstinação exemplar e fidelidade absoluta ao ideal de discurso das sociedades orais e tribais.