É possível e pertinente suspeitar da relação entre Bultmann e a ideia heideggeriana, presente em Fenomenologia e Teologia, acerca do caráter corretivo da filosofia em sua relação com a ciência ôntica teológica, por diversas razões.
A compreensão bultmanniana de filosofia é evidentemente encurtada: Bultmann entende por filosofia o que chamou, em O problema da teologia natural, de “ontologia filosófica como análise existencial”, reduzindo o problema do ser investigado por
Heidegger à estrutura existencial do ser humano.
Tal compreensão é reducionista e desfiguradora do próprio problema ontológico orientador da analítica existencial de Ser e tempo.
Bultmann entende essa filosofia como a filosofia da “atualidade”, reconhecendo nela uma corrente historicamente condicionada pertinente para servir a seus propósitos teológicos.
A filosofia aparece para Bultmann à luz da questão da conquista de si: quando descaracteriza o caráter existencial do ser humano, é assinalada como inadequada; quando o esclarece, é reconhecida como pertinente para entender o que está em jogo na teologia.
Em Novo Testamento e Mitologia, Bultmann pergunta pela possibilidade de pensar a compreensão cristã do ser sem Cristo, questão que, caso respondida afirmativamente, reduziria o Novo Testamento a uma precursora obscura da filosofia – esta sim capaz de dizer conceitualmente e de modo mais correto o que aquele diz com roupagem mitológica.
Tal redução parece ocorrer na relação da analítica existencial heideggeriana de Ser e tempo com a obra de
Kierkegaard: o ser cristão existencialmente considerado por
Kierkegaard teria ganhado em
Heidegger uma tematização profana.
Em Ser e tempo,
Heidegger mostra que o ser-aí existe, de início e na maioria das vezes, alienado de seu ser mais próprio, decaído no impessoal, devendo assumir sua finitude pela decisão antecipadora da morte para vir-a-ser ele mesmo, orientado por um sentido indisponível.
Bultmann reconhece a proximidade entre
Heidegger e o Novo Testamento, afirmando: “Penso que deveríamos, antes, assustar-nos com o fato de que a filosofia já divisa a partir de si o que o Novo Testamento diz”.
Nem sequer haveria a filosofia moderna sem o Novo Testamento, sem Lutero, sem
Kierkegaard – sendo que, no contexto analisado, Bultmann compreende o pensamento moderno como o pensamento existencial em geral, sobretudo
Jaspers e
Heidegger.
O elemento de conexão entre filosofia e teologia é, para Bultmann, a relação entre existência e conquista de si: a filosofia sempre pressupôs que o ser humano se perdeu ou está em perigo de se perder, conclamando-o a vir a ser ele mesmo, mas pretendendo que ele pode, por si mesmo, “desentulhar” sua verdadeira naturalidade.
O Novo Testamento, ao contrário, não favorece qualquer autossalvação: a ação libertadora de Deus em Cristo é o que fornece ao crente o si mesmo do qual ele não pode dispor por si mesmo.
Bultmann assume a ideia kierkegaardiana de que sem Deus o homem é dilacerado pelo desespero –
Kierkegaard define o eu como síntese de infinito e finito, temporal e eterno, liberdade e necessidade: “Uma relação de dois termos”.
Para
Kierkegaard, a saída do desespero ocorre quando, “orientando-se para si próprio, querendo ser ele próprio, o eu mergulha, através da sua transparência, até ao poder que o criou”.
Conclusão de Bultmann: “O Novo Testamento diz, portanto, que sem essa ação salvífica de Deus a situação do ser humano é desesperadora, enquanto que a filosofia não encara nem pode encarar a situação do ser humano como desesperadora em si”.
A fé em Cristo é, para Bultmann, o único âmbito em que o homem vem a ser ele mesmo, pois somente nela Deus age salvificamente – e somente na fé aparece a impossibilidade daquilo que a filosofia afirma acerca da conquista do si mesmo humano poder ser realizado pelo próprio ser humano.
A filosofia “opina que o saber a respeito de sua autenticidade já toma o ser humano capaz de atingi-la. Sua autenticidade é aquilo que ele, embora não realize permanentemente, pode a qualquer momento realizar: tu podes, pois tu deves!”.
Frente à compreensão cristã do ser, o ser humano “perdeu a possibilidade de fato; e também o seu saber a respeito de sua autenticidade é falsificado pelo fato de estar vinculado à opinião de ser capaz de atingi-la”.
O Novo Testamento luta contra a autossuficiência humana – o termo neotestamentário para autossuficiência é pecado – e Paulo afirma na primeira epístola aos Coríntios: “E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não tiveras recebido?”.
Bultmann assume a filosofia existencialista – identificada com diversos conceitos da analítica existencial de Ser e tempo – como “filosofia justa” capaz de sustentar o procedimento da desmitologização e da exegese bíblica, escolha motivada pela fé e pelo caráter existencial que lhe é próprio.
A filosofia “existencialista” foi privilegiada porque nela é a existência mesma que está em jogo, e os elementos constitutivos da existência não são eliminados pela fé, mas rearticulados existenciariamente.
Os conceitos da filosofia existencialista possuem caráter formal e indiciam aquilo que só aparece para o ser humano crente, impedindo a teologia de se desenraizar do caráter existencial da fé e de produzir discursos genéricos de caráter metafísico.
A teologia assim orientada explicita conceitualmente e formalmente o acontecimento da fé, cujo conteúdo só aparece na decisão singular hic et nunc do ser humano crente.
Para compreender como Bultmann se apropria da relação corretiva da filosofia com a teologia pensada por
Heidegger, é necessário sintetizar o modo como
Heidegger a pensou em Fenomenologia e Teologia: a teologia é ciência ôntica, pois não investiga o sentido do ser, mas um campo específico do ente, cuja abertura depende de um processo compreensivo pré-predicativo identificado com a fé.
A fé, positum da teologia, é um tipo de autocompreensão existencial do ser-aí que descerra um campo intencional correlato – não anuência a doutrinas, mas modulação existenciária da estrutura existencial do ser-aí.
A filosofia, enquanto ontologia fundamental, relaciona-se corretivamente com a teologia acompanhando suas investigações e acenando para o caráter existencial da fé, preservando o caráter de indicativo formal dos conceitos teológicos – conceitos que não descrevem hipóstases ontológicas, mas cuja significatividade só aparece na existência concreta do ser-aí crente.
A filosofia “existencialista” aparece para Bultmann como auxiliadora da explicitação da dinâmica existencial da fé em Cristo, sendo a fé que assinala a plausibilidade ou implausibilidade de determinados conceitos filosóficos.
Há identidade e diferença em relação ao que
Heidegger pensou em Fenomenologia e Teologia:
Heidegger não prescreveu que a teologia usasse a filosofia existencial como recurso, mas disse apenas que a filosofia acompanha a investigação teológica e acena para a região ôntica de onde a teologia haure suas forças.
Bultmann, ao usar conceitos filosóficos como autenticidade e si mesmo no labor teológico, parece funcionalizar a filosofia de modo não pensado por
Heidegger – mas o faz já em meio ao horizonte da fé, retorcendo o caráter filosófico desses conceitos e não fazendo filosofia, mas teologia.
Ao teologizar os conceitos da filosofia existencialista em sua desmitologização, Bultmann transformou a teologia em autocompreensão conceitual da existência crente, fornecendo aos conceitos teológicos o caráter de indicativo formal – realizando, assim, como teólogo, o que
Heidegger chamou de relação corretiva da filosofia com a teologia.