John Locke (1632-1704)
O empirismo assume em Locke sua primeira formulação paradigmática metodológica e criticamente consciente, superando as versões parciais e condicionadas que apareciam em Bacon e em Hobbes.
Em
Bacon, o empirismo estava circunscrito sobretudo à temática do experimento científico.
Em Hobbes, era pesadamente condicionado pela teoria materialista e corporeísta.
Em Locke, o empirismo se desdobra como orientação filosófica geral, autônoma e metodicamente elaborada.
John Locke nasceu em Wrington, nos arredores de Bristol, em 1632 — o mesmo ano do nascimento de Spinoza —, e formou-se na Universidade de Oxford, onde obteve o título de Mestre em Artes em 1658 e lecionou como tutor de grego e retórica, atuando também como censor de filosofia moral.
Do ensino filosófico recebido em Oxford, que julgou ser “um peripatetismo empachado de palavras obscuras e de inúteis investigações”, Locke ficou profundamente insatisfeito.
Esse peripatetismo escolástico não fazia mais do que brincar com sutis distinções e multiplicá-las ao inverossímil.
Para satisfazer as exigências concretas de seu espírito, Locke se voltou para a medicina, a anatomia, a fisiologia e a física — sofrendo notável influência do físico Robert Boyle —, bem como para a teologia.
Embora não tenha obtido títulos acadêmicos em medicina, era chamado de “doutor Locke” pelas competências precisas que adquiriu na área.
Em 1668 foi nomeado membro da prestigiosa Royal Society de Londres — instituição que não havia acolhido Hobbes, em razão das polêmicas e dos fortes dissensos suscitados por suas teses fundamentais.
O ano de 1672 marca uma virada importante na vida de Locke, com seu ingresso na esfera política como secretário de Lord Ashley Cooper, chanceler da Inglaterra e conde de Shaftesbury.
Entre 1674 e 1689, a vida de Locke foi arrastada por uma série vertiginosa de eventos decorrentes de suas escolhas políticas, destinados a deixar nele marcas indeléveis.
Em 1675, após a queda de Lord Shaftesbury, Locke foi à França, onde teve a oportunidade de conhecer o cartesianismo.
De 1679 a 1682, voltou ao lado de Lord Shaftesbury, que havia conseguido recuperar as posições políticas perdidas.
Em 1682, Lord Shaftesbury foi envolvido na conspiração do duque de Monmouth contra Carlos II e precisou se refugiar na Holanda, onde morreu.
No ano seguinte, o próprio Locke teve de deixar a Inglaterra e se refugiar na Holanda, onde trabalhou ativamente nos preparativos da expedição de Guilherme de Orange.
A vitória da monarquia parlamentar em 1689 representou o coroamento das convicções políticas de Locke, que retornou a Londres colhendo reconhecimento e fama por toda a Europa.
Guilherme de Orange e sua esposa Maria Stuart foram chamados ao trono pelo Parlamento em 1689.
Locke recusou as ofertas mais exigentes de cargos e honrarias, preferindo concentrar-se em sua atividade literária.
Em 1691 transferiu-se para o castelo de Oates, no Essex, como hóspede de Sir Francis Masham e de sua esposa Damaris Cudworth — filha do filósofo Ralph Cudworth —, onde faleceu em 1704.
A obra-prima de Locke é o monumental Ensaio sobre o Intelecto Humano, publicado em 1690 após uma gestação de cerca de vinte anos, ao qual se somam escritos de caráter ético-político, religioso e pedagógico.
Em 1689 havia sido publicada a Epístola sobre a Tolerância.
No mesmo ano do Ensaio foram publicados os Dois Tratados sobre o Governo.
Em 1693 saíram os Pensamentos sobre a Educação, e em 1695 A Razoabilidade do Cristianismo.
Entre os escritos póstumos destacam-se as Paráfrases e notas das Epístolas de São Paulo aos Gálatas, aos Coríntios, aos Romanos e aos Efésios, além do Ensaio para a Compreensão das Epístolas de São Paulo.
Três grandes interesses orientaram a obra de Locke, sendo o gnoseológico de longe o mais importante, seguido pelo ético-político e pelo religioso.
O interesse gnoseológico originou o Ensaio sobre o Intelecto Humano.
O interesse ético-político encontrou expressão tanto no engajamento prático quanto nos escritos dedicados a esse tema.
O interesse religioso concentrou a atenção de Locke sobretudo nos últimos anos de sua vida.
A esses três pontos poderia ser acrescentado um quarto, de caráter pedagógico e menor alcance, expresso nos Pensamentos sobre a Educação.
Locke herda o programa baconiano de aperfeiçoar o uso do intelecto, mas o radicaliza ao deslocar o exame dos objetos do conhecimento para o próprio sujeito cognoscente — suas capacidades, funções e limites.
Bacon havia estabelecido como necessidade imprescindível “introduir um uso melhor e mais perfeito do intelecto.”
Para Locke, não se trata de examinar setores ou âmbitos particulares do conhecimento, mas o intelecto humano em si mesmo.
Esse deslocamento do objeto para o sujeito vai delineando cada vez mais nitidamente o caminho que terá como meta final o criticismo kantiano.
O objetivo é estabelecer a gênese, a natureza e o valor do conhecimento humano, definindo os limites dentro dos quais o intelecto pode e deve mover-se — e os domínios que lhe permanecem estruturalmente vedados.
Como nasceu o Ensaio lockiano
A origem do Ensaio sobre o Intelecto Humano foi casual — uma reunião entre cinco ou seis amigos que, ao discutir um tema distante, depararam com dificuldades intransponíveis e reconheceram a necessidade de examinar previamente as próprias faculdades.
Locke relata que os amigos se viram num ponto morto, sem progredir na solução das dúvidas que os embaraçavam.
Locke percebeu que tinham tomado o caminho errado: antes de avançar naquelas investigações, era preciso compreender quais objetos estavam ou não ao alcance da inteligência humana.
A companhia concordou prontamente com a proposta, e assim o tema das faculdades humanas tornou-se o objeto da primeira investigação do grupo.
Os primeiros pensamentos de Locke sobre o assunto foram anotados para o encontro seguinte — introdução a um discurso que, depois de iniciado acidentalmente, foi escrito em fragmentos separados, interrompido por longos períodos de inatividade, e concluído durante um período solitário de repouso para cuidar da saúde.
Uma página em que Locke resume seu projeto
A Introdução do Ensaio expõe, com plena consciência crítica, o intento geral da nova filosofia lockiana: conhecer a extensão e os limites do intelecto humano para orientar o pensamento com proveito e evitar tanto o ceticismo paralisante quanto as disputas infindáveis.
Locke argumenta que conhecer a própria força permite saber em que direção empenhar-se com esperança de êxito — sem imobilidade desesperançada nem repúdio de todo conhecimento.
A metáfora central é a do marinheiro e sua corda de sondagem: “É de grande utilidade ao marinheiro conhecer o comprimento de sua corda, ainda que com ela não possa sondar toda a profundidade do oceano.”
O que importa não é conhecer tudo, mas o que diz respeito à conduta humana — descobrir as medidas pelas quais uma criatura racional, na condição do homem neste mundo, pode e deve regular suas opiniões e ações.
Locke afirma que, sem esse exame prévio do intelecto, os pensamentos vagam pelo “vasto oceano do ser” como se toda aquela extensão sem limites fosse o domínio natural e indubitável da mente humana.
Os homens que estendem suas investigações muito além de suas capacidades suscitam disputas e multiplicam controvérsias que, por nunca chegarem a uma solução clara, servem apenas para incrementar as dúvidas e, por fim, instalar um ceticismo completo.
Somente após considerar adequadamente as capacidades do intelecto, descoberta a extensão do conhecimento e encontrado o horizonte entre as partes iluminadas e as obscuras das coisas, os homens consentirão com menos hesitação em reconhecer sua própria ignorância — e dirigirão seus pensamentos e discursos com maior proveito e satisfação.