Henri Lefebvre (1901-1991)
LEFEBVRE, Henri. Key writings. Bloomsbury Revelations edition ed. London, England: Bloomsbury Academic, an imprint of Bloomsbury Publishing Plc, 2020.
1. Compreender um pensador implica situar a interrelação de suas obras, as influências sobre seu pensamento e a validade e aplicabilidade de suas ideias, bem como reapropriá-lo em outro tempo, espaço e língua, questões particularmente pertinentes no caso de Lefebvre, autor ainda a ser descoberto, e não redescoberto, no mundo de língua inglesa, ao contrário de outros pensadores contemplados em coleções como “O Novo Nietzsche” ou “O Novo Spinoza”.
2. A vida de Henri Lefebvre, nascido em 1901 e falecido pouco depois de completar noventa anos, atravessou quase todo o século XX, sendo por isso ao mesmo tempo próxima e distante, com aspectos conhecidos, outros pouco familiares e muitos ainda ocultos.
3. Apenas uma pequena parte dos escritos de Lefebvre está disponível em tradução inglesa, tendo havido um breve interesse no final dos anos 1960 e início dos 1970, quando quatro livros foram traduzidos, seguido pela publicação truncada de “The Survival of Capitalism” em 1976, última obra a aparecer por quinze anos.
4. Em 1995 foi traduzido “Introduction to Modernity”, seguido no ano seguinte por “Writings on Cities”, coletânea instrumental para ampliar o alcance de suas preocupações junto ao público de língua inglesa, incluindo o texto integral de “Le Droit à la ville” e excertos de outras obras.
5. “Key Writings” busca contribuir para a compreensão de Lefebvre ao mostrar a amplitude de sua obra tanto quanto ao tema quanto à data de publicação, sendo problemático enquadrá-lo em qualquer disciplina, já que a única categoria que ele próprio aceitaria seria a de marxista, o que implica ser filósofo, sociólogo, historiador e, sobretudo, engajado politicamente, tendo produzido cerca de setenta livros e numerosos artigos que atravessam amplamente as ciências sociais e humanas.
Presença e ausência
6. Ao buscar preencher as lacunas na recepção inglesa da obra de Lefebvre, esta coletânea tende antes a revelá-las, procurando demonstrar tanto a amplitude de suas preocupações quanto as diferentes formas em que as expressou, com ênfase especial em mostrar como ele deve ser levado a sério enquanto pensador, e particularmente enquanto filósofo marxista.
7. Outro objetivo central é mostrar a dimensão política do pensamento de Lefebvre, que, como membro do Partido Comunista Francês por quase trinta anos e de certo modo ainda mais marxista após sua saída, permaneceu sempre politicamente ativo e atento.
8. Apesar do esforço de demonstrar a amplitude das preocupações de Lefebvre, houve ausências inevitáveis, sobretudo a exclusão de seus trabalhos das décadas de 1940 e 1950 sobre figuras da tradição intelectual francesa, de Rabelais a Descartes, período em que o Partido Comunista Francês o impedia de escrever sobre temas mais explicitamente políticos ou filosóficos.
9. Não seria correto afirmar que Lefebvre nada escreveu sobre política ou filosofia entre 1947 e 1958, mas sim que o fez de modo disfarçado, sendo seus livros sobre figuras literárias como Diderot ou Rabelais extremamente políticos e, se ordenados cronologicamente, capazes de compor uma ampla história intelectual da França entre os séculos XV e XVIII.
Recebendo Lefebvre
10. Avaliar a extensão da renovação de interesse pelo pensamento de Lefebvre na França, no mundo de língua inglesa e alhures, assim como a relevância dessa recepção, constitui uma consideração importante, dado que as traduções inglesas do final dos anos 1960 e início dos 1970 ocorreram sob condições bem diferentes das atuais, mais politizadas e ainda não influenciadas pelo pensamento pós-moderno.
11. No período inicial de interesse anglófono, Lefebvre ainda estava vivo e mantinha controle sobre a avaliação da relevância de seu próprio pensamento, ideia integral à sua noção de metafilosofia, como ilustra seu extraordinário texto “La Somme et le reste”, publicado logo após sua saída do partido em 1958, do qual dois excertos integram esta coletânea.
12. A mitificação de sua figura se intensificou após sua morte, podendo-se argumentar que sua vitalidade, mais até que seu marxismo, é o que tem atraído a geração atual de acadêmicos majoritariamente anglófonos e masculinos, não estando ele mais vivo para desafiar e ser desafiado, situação talvez agravada pela dependência excessiva da biografia um tanto romantizada de Rémi Hess.
13. Esta coletânea busca redirecionar o leitor para uma leitura mais crítica e heterodoxa da obra de Lefebvre, o que é apropriado visto que desmontar mitos foi um de seus primeiros projetos intelectuais, sugerindo-se, sobretudo na seção sobre a crítica da vida cotidiana, que para ele as mulheres não eram apenas objeto de amor e luta, mas sujeitos da revolução, sendo o futuro, para Lefebvre, feminino.
14. Nos últimos anos Lefebvre passou por um renascimento na França, em grande parte graças a Rémi Hess, responsável pela recente republicação de diversas obras antes fora de catálogo pelas editoras Anthropos e Syllepse, incluindo “Métaphilosophie”, “La Production de l'espace” e “La Survie du capitalisme”, entre outras.
15. Nota-se que, na França, ao lado do interesse por seus escritos sobre o urbano, a vida cotidiana e o espaço, maior atenção é dada a seus trabalhos sobre cidadania, mundialização, capitalismo e Estado, áreas em que a produção de língua inglesa tem sido mais escassa, permanecendo “La Somme et le reste” praticamente desconhecida apesar de seus insights sobre política, filosofia e a própria vida do autor.
O presente trabalho
16. Esta coletânea difere de “Writings on Cities” sobretudo pela equipe editorial, sendo Elizabeth Lebas o elo comum entre os dois projetos, à qual se juntou, para o presente volume, Stuart Elden, autor de um livro sobre Heidegger, Foucault e a relação entre espaço e história, atualmente redigindo um livro sobre Lefebvre.
17. Traduzir Lefebvre é sempre difícil, tendo os editores procurado preservar seu estilo muito pessoal, marcado por neologismos, rigor semântico e jogos de palavras, escrito de forma desconexa, com comentários elípticos e digressões, optando por deixá-lo falar em inglês tal como poderia ter falado, e não por suavizar essas arestas como fizeram algumas traduções anteriores.
18. Notas editoriais foram acrescentadas com frequência para explicar alusões, fornecer referências em inglês para citações ou dar informações biográficas sobre figuras mencionadas, já que Lefebvre era, como muitos escritores de sua geração, um tanto descuidado em suas referências.
Mode d'emploi — modos de usar este livro
19. Ao organizar este livro, optou-se por apresentar primeiro o trabalho de Lefebvre sobre marxismo e filosofia antes de passar às preocupações mais concretas pelas quais é mais conhecido no mundo anglófono, sem que essa seja a única forma possível de leitura, havendo diversos caminhos possíveis de acesso ao material, longe de esgotados pelos que se seguem.
20. O caminho mais evidente é começar pelo trabalho teórico explícito do início do volume e depois avançar para áreas de interesse particular, o que permite mostrar como conceitos como alienação, consciência, ausência e presença atravessam o tempo no pensamento de Lefebvre, sendo os temas do tempo, do estilo e da idade adulta como mito exemplos de sua recorrente reciclagem de trabalhos anteriores.
21. Alternativamente, o leitor pode começar por textos em uma área já familiar, encontrando por exemplo, para quem conhece o primeiro volume de “Critique of Everyday Life”, um texto inicial sobre “Mistificação” que antecipa muitas ideias posteriores, ou, para quem se interessa por “The Production of Space”, a primeira tradução inglesa de um prefácio autocrítico complementado por textos sobre o rural e o urbano.
22. As diversas seções do livro reúnem textos que se complementam entre si, podendo o leitor partir do prefácio a “The Production of Space” para os trabalhos sobre história do mesmo período, seguir para o urbano e o rural, retornar à vida cotidiana e finalmente à filosofia e ao marxismo, havendo numerosas outras possibilidades de percurso.
23. A intenção não é que este seja simplesmente um livro a ser lido do início ao fim, mas antes um conjunto de livros em um só, que complementa, e não substitui, “Writings on Cities” e outras traduções existentes, constituindo, dada a impossibilidade de abranger toda a extensão da obra de Lefebvre, antes um esboço, um mapa, um conjunto de direções.