Em todo caso, devemos chegar ao texto, devemos repeti-lo, não sem correr o risco de sermos incapazes de “exceder” o discurso dialético.
Pois se é verdade que não há e nunca houve algo como a literatura exceto para a filosofia, se é verdade que a filosofia se ergueu contra essa “outra” linguagem que assim constituiu ao mesmo tempo que a degradava, ao ponto em que a literatura nunca pôde falar de si mesma exceto tomando emprestada, mais ou menos vergonhosamente, a linguagem da filosofia.
Se, em suma, a relação que une e divide filosofia e literatura é uma relação de mestre e escravo, e um deles de fato temeu a morte, que discurso se pode empregar sobre a filosofia que não seja já o discurso da própria filosofia, aquele que sempre impede de antemão a possibilidade de ser voltado contra si mesmo e de ser questionado sobre aquilo contra o que se constituiu?
Devemos portanto experimentar uma certa impotência que é o efeito paradoxal de um excesso de poder: o Logos é domínio absoluto e não há nada fora dele, nem mesmo a literatura, à qual deu um “significado”.
A menos que, não escrevendo exatamente o que queríamos escrever, experimentemos uma fraqueza, uma impotência que já não é o efeito de um excesso de poder, mas antes como o trabalho obscuro de uma força estranha ao que dizemos, à consciência que temos disso, à vontade de dizê-lo, uma resistência oculta e incessante absolutamente impossível de controlar e sobre a qual mal podemos ganhar terreno ao preço de grandes esforços.
Escrevemos: somos despossuídos, algo está constantemente fugindo, fora de nós, deteriorando-se lentamente; poderia muito bem ser que, dirigindo nossa atenção para isso, para essa estranha dificuldade prática, fôssemos gradualmente obrigados a suspeitar de uma falha onde pensávamos ter encontrado a própria infalibilidade.
Pode ter a ver, por exemplo, com uma certa confusão no pensamento, com uma insuficiência turva da consciência, uma espécie de letargia; poder-se-ia também falar de fadiga, de cansaço, ou de uma resistência, uma recusa tanto da linguagem quanto do corpo.
É certamente uma experiência, por mais duvidoso que seja o poder conotativo dessa palavra, e mesmo que fosse uma experiência em última análise paralisada e congelada, o próprio fracasso da experiência.
Se a escrita tem esse privilégio, a escrita, o ato e o tormento de escrever, no qual algo mais também está em jogo, não é porque, como se diz um pouco apressadamente hoje em dia, simplesmente revertendo ou não revertendo oposições metafísicas, estaríamos finalmente libertados do mundo, da presença e da representação.
É antes porque a escrita é primeiro de tudo aquela reflexão da experiência na qual a reflexão, e portanto a experiência, está constantemente se desfazendo, porque é o mais doloroso dos fracassos e porque nela a alteridade radical da força se “revela” mais dolorosamente.
Sabemos que não há linguagem exceto a dos fenômenos, daquilo que apareceu, nunca do próprio aparecer, que linguagem e aletheia estão ligadas, ou, para empregar outro vocabulário, que o próprio Dionísio nunca aparece, que ele está sempre já morto, disperso, e que só é “visível” quando no palco atrás da máscara de Apolo, como Apolo, invisível portanto, não sendo, e levando assim à loucura.
Se a linguagem carece de força, se a linguagem é essa falta de força, é em vão que buscaríamos nela a força necessária para nos “libertar” dela, isto é, no caso, para voltá-la contra si mesma, mesmo que ela seja suficientemente reflexiva para sempre ter tido nostalgia da força, ou ao menos para deplorar não ter nenhuma.
Como tal, a linguagem “manifesta” a decadência da força: a linguagem, a escrita, uma degradação da força que ainda é, no extremo, uma força.
Pode-se pensar isso sem recorrer à dialética, se a dialética é a ilusão da força e do domínio da força na linguagem? Pode-se pensar uma força da fraqueza, uma força nascida de seu próprio esgotamento, de sua própria diferença? Uma força que é em virtude de não ter força?