Há, no comentário heideggeriano, uma recusa em considerar o processo literário no discurso nietzschiano e, mais precisamente, uma recusa claramente marcada em confirmar a oposição entre o teórico e o poético na qual o comentário clássico sobre
Nietzsche opera espontaneamente.
Tudo gira em torno da conexão entre os dois primeiros cursos dedicados a
Nietzsche, onde, no modo de uma troca complexa de seus temas principais, a vontade de poder e o eterno retorno, a questão da forma poética de Zaratustra e da relação que essa forma mantém com o ensino e a doutrina do eterno retorno emerge ou reemerge ao menos duas vezes.
Heidegger afirma que se deve libertar imediatamente de uma visão preconcebida, segundo a qual duas intenções diferentes correm paralelamente, uma visando uma apresentação teórica da doutrina e outra um tratamento poético dela, e que a distinção entre teórico e poético resulta de um pensamento confuso.
No pensar de
Nietzsche seu pensamento fundamental, o poético é tanto quanto o teórico, e o teórico é inerentemente poético, pois todo pensar filosófico, e precisamente o mais rigoroso e prosaico, é em si mesmo poético, embora nunca brote da arte poética.
Uma obra poética, como os hinos de Hölderlin, pode ser pensante no mais alto grau, mas nunca é filosofia, e Assim Falou Zaratustra é poético no mais alto grau e no entanto não é uma obra de arte, mas filosofia, de modo que a distinção entre teórico e poético não pode ser aplicada a textos filosóficos.
A operação tentada é particularmente contorcida, e para não distorcer sua lógica nem perder seus resultados, é preciso decompô-la rapidamente, pois o que está em questão é a Darstellung de Zaratustra, que não é sua forma, mas seu modo de apresentação, e, quanto a essa Darstellung, a oposição convencional entre o poético e o teórico é estritamente irrelevante.
A Darstellung de Zaratustra, e a Darstellung filosófica em geral, pode ser caracterizada por uma palavra radicalmente intraduzível, dichterisch, que não significa que a filosofia, incluindo Zaratustra, seja Dichtkunst ou Poiesis, pois a relação da filosofia com a Poiesis não é simétrica.
Assim como a filosofia, por pouco que seja pensante, é sempre poética, a Poiesis, precisamente porque é pensante, nunca é filosófica, havendo portanto um privilégio absoluto da Poiesis sobre a filosofia, e se vê claramente que, se a Poiesis nunca deixa de ser pensante, o mesmo não se pode dizer da filosofia.
O resultado é simples: como filosofia, como filosofia pensante, Zaratustra é poético, e, mesmo que fosse escrito de outro modo, menos poeticamente, as coisas permaneceriam as mesmas, mas é um livro de filosofia e portanto nada tem em comum com uma obra de arte, isto é, com uma obra de Poiesis.
Isso significa, se se souber calcular e deduzir, que ele simplesmente nada tem em comum com uma obra, e é o que
Heidegger implica algumas páginas antes, quando aborda pela primeira vez a questão da Darstellung de Zaratustra, dizendo que o difícil de apreender nessa obra não é apenas seu conteúdo, se tem algum, mas também seu próprio caráter de obra.
A observação prudente quanto ao ser-obra de Zaratustra e a operação que ela assume só são compreensíveis se se referir ao menos às três conferências sobre arte contemporânea incluídas no curso e reunidas sob o título A Origem da Obra de Arte, onde se determina, no estudo minucioso do ser-obra da obra, o que essencialmente liga a arte à verdade, ou mais precisamente, Dichtung, que é a essência da arte, ao próprio Ser.
Se se lembra também que A Origem da Obra de Arte assume a destruição da estética realizada no primeiro curso sobre
Nietzsche, A Vontade de Poder como Arte, em referência à posição nietzschiana sobre a questão da arte, vê-se por quais detours infinitos se teria de viajar para tentar essa desconstrução da interpretação heideggeriana que é aqui o horizonte.
Na visão de
Heidegger, o pensamento de
Nietzsche é fundamentalmente determinado como um antiplatonismo, uma reversão ou inversão do platonismo, o que também quer dizer que é determinado como a aplicação mais extrema e mais radical da ontoteologia pós-kantiana da vontade contra o niilismo metafísico.
Essa reversão, que procede do platonismo e consequentemente o cumpre, é realizada no tema da arte, isto é, dentro e no limite do campo platônico da estética tal como foi retrabalhado pela metafísica dos tempos modernos de Baumgarten ou
Kant a Wagner, e por mais que
Nietzsche se distancie dessa tradição, nada é perturbado na ontologia fisiológica da estética moderna ou na mimetologia constitutiva do platonismo.
Embora seja de natureza filosófica, essa reversão é pensada e, como tal, afeta a questão decisiva da relação entre arte e verdade, mas se toca nessa relação, fá-lo segundo a determinação platônica dos dois conceitos de arte e verdade, de modo que mesmo que a discórdia entre arte e verdade seja deslocada nessa reversão, ela é no entanto renovada e permanece não superada.
Heidegger opõe a isso, de modo pretensamente não dialético, outra compreensão de aletheia, seguindo a unidade de iluminação e ocultamento, de presença e retraimento, mas que é tal que o impulso para a obra reside na natureza da verdade como uma de suas possibilidades distintivas pela qual ela mesma pode ocorrer como sendo no meio dos entes.
Essa verdade em obra, essa posição ou implementação da verdade, é a arte mesma, que por sua vez é essencialmente determinada como Dichtung, ou, digamos, ainda tentativamente, Poiesis, no sentido menos considerado no pensamento platônico, pois Dichtung nada mais é que a própria linguagem, se nos libertarmos de todas as interpretações instrumentais da linguagem e nos tornarmos atentos ao seu poder inaugural e iluminador.
Em última análise, tudo nessa recusa em considerar o caráter poético de Zaratustra depende dessa determinação da obra na qual está em jogo a difícil destruição da discórdia metafísica entre arte e verdade, ou seja, tudo depende dessa posição de Dichtung, que corresponde a nenhuma das posições clássicas ou modernas da Arte.
É preciso ainda provar que essa posição de Dichtung não está, quanto às oposições filosóficas que ela paralisa ou perturba, numa posição de suplementaridade, pensando em particular nesse enigmático Zug, nesse puxão que vem além e que complica a estrutura simples de aletheia.
É provavelmente o objeto dessa outra análise, a parte mais intratável do texto heideggeriano, que torna toda a interpretação de
Nietzsche inevitável e compele a vislumbrar sua desconstrução, pois sempre se poderá reduzir o discurso heideggeriano a alguma teologia negativa da variedade mais contorcida, mas não se pode impedir que o texto em que tudo isso é laboriosamente tecido nos proíba de tomar levianamente esse extremo avanço do discurso filosófico que o força a atingir seu próprio limite.
Para que a operação heideggeriana seja possível, ao menos três condições devem ser satisfeitas: que se forneça apoio confirmando a dissimetria entre Dichtung e o filosófico, que na obra de
Nietzsche se conceda certo privilégio a Zaratustra, e que a própria questão da arte, sua posição e função na história da completude moderna da metafísica, se torne objeto de certo ceticismo.
A arte é aqui considerada em sua determinação filosófica, como arte da estética, que surge quando a magnífica arte da Grécia, que não precisava de estética, e também a grande filosofia correspondente a ela chegam ao fim, e quando em Platão, e com mais razão no platonismo, o que veio antes não é mais compreendido.
Esse evento, esse acidente, essa queda ou declínio, nada mais é que o fim do muthos, mas isso só pode ser entendido se se concebe o muthos fora de sua oposição filosófica ao logos, na exterioridade que é precisamente a de Sage e de Dichtung, à qual somente Hölderlin teve acesso.
Como
Nietzsche não refletiu suficientemente sobre o pré-platonismo, ou, o que dá no mesmo, pensou platonicamente o pré-platonismo, não pôde ir além da liquidação da estética na qual a metafísica pós-kantiana culmina, pois a questão da arte, longe de ser uma fissura que anuncia o desmoronamento do edifício filosófico, é precisamente o meio pelo qual a metafísica se recompõe.
Enquanto a arte for pensada no horizonte do platonismo, e mais ainda quando for pensada contra Platão nas categorias do fisiológico, da criatividade ou produtividade, da experiência vivida, da sensibilidade, da energia, do desejo, da aisthesis, a questão da arte ainda não incide sobre o essencial.
O essencial ocorre quando o que é posto em questão e interrogado é, através de Dichtung e Sage, a relação entre Ser e humanidade, entre aletheia e linguagem, e é somente a esse preço que se pode considerar o poético e, em geral, a poética, como negligenciáveis, começando pela de Platão, subordinando poiesis a techne, que corresponde à oposição forma/matéria e remete à compreensão do ser como eidos.
É por isso que Poiesis não traduz Dichtung, e é sobretudo por isso que, no texto da República, nenhuma distinção é estabelecida entre as duas formulações da questão da mimesis, a poética do Livro III e a mimetologia geral do Livro X, e por que a primeira é sumariamente assimilada à segunda.