Os únicos nomes próprios que encontramos são nomes históricos; os deuses deixaram o palco, não são mais uma questão.
Isso não é com o propósito, como Fink, por exemplo, nos levaria a crer, de finalmente realizar, sem recurso à metáfora, alguma ontologia “negativa” ou outra; nem é um processo de “desmitificação”, como o momento socrático em que a tragédia culmina no desaparecimento de todos os deuses.
Os deuses estão pura e simplesmente ausentes; e não é por acaso que os únicos nomes mitológicos que ainda aparecem, em dois fragmentos relacionados do primeiro caderno de “O Livro do Filósofo”, 85 e 87, são os de Titã, Prometeu, e Édipo, o símbolo do sacrilégio e o símbolo do parricídio, que “O Nascimento da Tragédia” retratava como figuras apolínias por excelência, os “ídolos” ou a máscara de Dionísio, o único verdadeiro herói da tragédia.
Ambos tornavam tolerável a ruptura violenta e o terror envolvido no mito: conversavam em plena luz do dia e seu discurso mascarava uma monstruosidade assustadora, as profundezas ofuscantes e noturnas da verdade.
Mas quando a verdade naufragou, quando sua falta já não é ofuscante, resta apenas um fragmento alusivo da mitologia antiga no qual eles doravante encarnam o “último homem”, “o último filósofo”.
O primeiro fragmento ainda concerne a uma cena, o esboço de uma cena para um drama, cuja ideia perseguiria
Nietzsche por alguns anos ainda: o último filósofo, “em solidão temerosa”, clama a uma natureza absolutamente indiferente que lhe conceda o esquecimento: “Concede o esquecimento! Esquecimento! Não, ele carrega seu sofrimento como um Titã, até que a redenção lhe seja oferecida na mais alta arte trágica”.
Essa atitude ainda poderia ser tomada pela do herói trágico como definido por “O Nascimento da Tragédia”, supondo, no entanto, que a arte trágica pudesse ser definida não como a pura vontade de ilusão, uma resposta artística ao fracasso da verdade, mas como o equilíbrio miraculoso e a “aliança fraterna”, o puro diálogo do dionisíaco e do apolínio, do qual o terceiro ato de Tristão, o opus metaphysicum por excelência, como diz a quarta “Consideração Intempestiva”, oferece o mais belo exemplo: “Dionísio fala a linguagem de Apolo; e Apolo, finalmente, a linguagem de Dionísio”.
É por isso que a cena anteriormente esboçada se repete no solilóquio do último filósofo, no “discurso do último filósofo consigo mesmo”; desta vez, o último filósofo não é como Titã, é Édipo “ele mesmo”; não é cego, não clama, menos ainda “canta”.
E se, na solidão última em que se encontra, ele ainda fala com um outro, esse outro é sua própria voz, cujo eco interminavelmente se desvanece no lamento murmurado que reverbera em sua morte: “Ainda te ouço, minha voz? Sussurras uma maldição? Que tua maldição arrebente as entranhas da terra! Mas ela ainda vive e apenas me fita mais brilhantemente e friamente com suas estrelas impiedosas, vive, tão estúpida e cega como sempre, e só o homem morre.”
“E no entanto! Ainda te ouço, voz amada! Há ainda alguém morrendo fora de mim, o último homem, neste universo: o último suspiro, teu suspiro, morre comigo, este longo Ai! Ai! suspirado sobre mim, o último homem miserável, Édipo!”
Essa voz, que assombra o discurso do último homem sobre a ausência de verdade, que duplica esse discurso e ecoa sua desolação, que difere sua morte, é talvez já aquela que será dado a “
Nietzsche” fazer ouvir.
Mas ele terá que persistir na repetição de seu primeiro “livro” e de sua mitologia, que será sempre demasiado o livro do “outro”, Wagner, neste caso, mas é o platonismo e o cristianismo que falavam ou “cantavam” nele.
Ele terá, portanto, que levar adiante a “retórica”, aceitar a dissolução eloquente do mito, a linguagem que não ensina, da paródia e do riso; os discursos de Zaratustra remeterão assim novamente a Dionísio.
Já nesses anos do desvio, a configuração mítica é irreversivelmente modificada: Ariadne aparece estranhamente unida a outro Dionísio, que foge dela como se foge das Sereias, a magia fatal da música.
Para concluir com uma ilustração, é talvez o que Hugo von Hoffmannsthal e Richard Strauss entenderam quando, na cena final da ópera híbrida, nem “cômica” nem “séria”, que é “Ariadne em Naxos”, deram ao aparecimento de Dionísio, Baco, o ar de uma paródia nostálgica do segundo ato de Tristão; mas isso é outra história.