O poder de descobrir e tornar operativo aquilo que funciona e impressiona com respeito a cada coisa, poder que Aristóteles chama retórica, é ao mesmo tempo a essência da linguagem; esta se baseia tão pouco quanto a retórica sobre o que é verdadeiro, sobre a essência das coisas.
A linguagem não deseja instruir, mas transmitir a outros um impulso subjetivo e sua aceitação; assim, a linguagem não instrui, não transmite conhecimento.
A retórica surge entre um povo que prefere ser persuadido a ser instruído; ela não contém referência alguma ao ser das coisas: não as apreende, não as deixa aparecer, não as apresenta; deseja transmitir apenas uma doxa, não uma episteme.
Isso porque a força que constitui a linguagem reside inteiramente no que
Nietzsche chama transposição, transporte ou transferência: die Übertragung.
Originalmente, a linguagem transpõe, ou, mais exatamente, transpõe uma transposição “perceptual”: o homem, que forma a linguagem, não percebe coisas ou eventos, mas estímulos; não comunica sensações, mas meramente cópias de sensações; a sensação, evocada por um estímulo nervoso, não apreende a coisa mesma, sendo essa sensação apresentada externamente através de uma imagem.
Por sua vez, essa imagem deve ser representada por uma imagem sonora; entre a “coisa em si” e a linguagem, a palavra, há consequentemente três rupturas, se levarmos em conta a separação da coisa e da sensação, três “passagens” de uma “esfera” a outra, absolutamente heterogênea.
Isso destrói qualquer possibilidade de adequação; a linguagem funda-se sobre uma lacuna originária e irredutível, através da qual força seu caminho identificando o não idêntico, introduzindo a analogia.
A linguagem, portanto, põe por imitação uma relação “subjetiva” com as coisas; essa relação é o pithanon, que também se traduz como o verossímil: “não são as coisas que passam para a consciência, mas a maneira como estamos em relação a elas, o pithanon”.
Na “experiência” do pithanon, a coisa desaparece; “em seu lugar” apresenta-se uma marca; por essa razão, a linguagem designa, mas no sentido de notar, de marca substitutiva; significa impropriamente, conota em vez de denotar.
A transposição originária é assim uma figura, isto é, um tropo, uma figura de palavra; Übertragung traduz para
Nietzsche o grego metaphora, pois os gregos primeiro significaram o uso metafórico por metáfora, dizendo Hermágenes que os gramáticos ainda chamavam metáfora o que os retóricos chamavam tropos.
A linguagem é, portanto, originariamente figurada, trópica, isto é, originariamente metafórica; a essência da linguagem é o giro, e a metáfora é a própria força artística, a força mimética que atravessa, sem no entanto reduzir, a lacuna da representação.
A “Introdução Teórica” de 1873 resume tudo isso em poucas palavras: as várias línguas, justapostas, mostram que as palavras nunca se preocupam com a verdade, nunca com a expressão adequada, caso contrário não haveria tantas línguas.
A “coisa em si”, que seria pura verdade desinteressada, é também absolutamente incompreensível ao criador da linguagem e não vale a pena ser buscada; ele designa apenas as relações das coisas com os homens, e para expressar essas relações usa as mais ousadas metáforas.
Primeiro, ele traduz um estímulo nervoso em uma imagem: essa é a primeira metáfora; depois, a imagem deve ser remodelada em um som: a segunda metáfora; e a cada vez há uma completa transposição de esferas, de uma esfera para o centro de outra totalmente diferente e nova.