Há, portanto, ligado a esse encontro imprevisto com a retórica, um encurvamento, um enfraquecimento da “obra” que sem dúvida não pode ser subsumido sob nenhuma das categorias clássicas da historicidade, mesmo e especialmente da historicidade dialética.
Não é nem um puro acidente, nem uma espécie de simples transição, nem um momento, nem uma ruptura, e menos ainda um corte; é antes uma espécie de debacle dispersa cuja “lógica” nos escapa.
Por que, de que modo, a retórica estaria implicada aqui? Deve-se admitir que, apesar de todas essas razões, nada parece permitir atribuir ou pretender atribuir tanta importância a esse encontro.
Sem dúvida seria necessário prestar atenção a ele se quiséssemos acompanhar as transformações do pensamento de
Nietzsche sobre a linguagem, mas, afinal, o interlúdio retórico talvez não seja muito importante nesse aspecto tampouco; não é surpreendente que
Nietzsche tenha abandonado uma questão que em última análise carecia da importância que ele pensava poder lhe dar, nem que outros tenham usado esse abandono como desculpa para não examinar a questão mais de perto.
Pois no momento em que se apresentou, a retórica aparentemente não causou grande perturbação; se é essencialmente de Gerber que
Nietzsche deriva o “conceito” de retórica, termo que ele usa, ele depende ainda da tradição romântica à qual já devia não apenas a determinação da essência da tragédia grega mas também toda uma teoria da linguagem.
Consequentemente, o cenário dificilmente muda; poder-se-ia supor, além disso, que
Nietzsche não teria subitamente dado tanto valor à retórica se não tivesse reconhecido nela algo e se não acreditasse possível inseri-la sem muito dano numa cadeia temática e conceitual já constituída.
Certamente, a inserção de um novo conceito, ou de um novo grupo de conceitos, sempre imprime certa perturbação ao dispositivo que o precede, mas isso não afeta necessariamente sua estrutura global; assim, a retórica pôde ser bastante facilmente interpretada e manipulada no vocabulário de “O Nascimento da Tragédia”.
A terminologia “linguística” inevitavelmente sofreu algumas mudanças: “símbolo”, por exemplo, que era a palavra-chave dos anos 1870-71, não aparece mais; isso dificilmente é negligenciável, mas nada deveria impedir de medir os efeitos dessas transformações aparentemente limitadas e de descrever o jogo de desaparecimentos, deslocamentos ou substituições que elas produzem.
Pois no que diz respeito ao que é decisivo, parece não haver, do ponto de vista da economia geral, diferença radical entre “O Nascimento da Tragédia” e “O Livro do Filósofo”; quase como a tragédia, o mito, a música, e do mesmo modo, a retórica aparece integrada ao projeto estratégico já definido em “O Nascimento da Tragédia”, o que explicaria em última análise por que sempre consideramos esses textos como produzidos na esteira desse primeiro ensaio, como pura e simples retomada.
Esse seria talvez o caso se houvesse, ou se pudesse haver, um conceito de retórica como tal, e um conceito inocente; mas acontece que não há nenhum, ou ao menos que se
Nietzsche de fato tentou construir um, ele foi imediatamente desviado, apagado, levado para fora de si mesmo.
A razão disso é muito simples: a retórica só foi levada em consideração na medida em que revelava algo sobre a essência da própria linguagem; em outras palavras, não pode haver um conceito fixo de retórica quando a retórica é de fato a essência daquilo de que, em princípio, é apenas um certo uso.
Não apenas a atenção dada à retórica desloca a ênfase da música para a linguagem, mas, ao contrário da tragédia, cuja determinação nada mudava na natureza específica de seus elementos constitutivos, a retórica permanece completamente inacessível a menos que se pague o preço de recasting inteiramente a análise da linguagem, o que é ao menos um risco assumido.
Nada disso é novo; existe aqui novamente uma longa tradição, da qual
Nietzsche aliás estava em grande parte inconsciente e à qual portanto não poderia ter sido fiel; mas para o próprio
Nietzsche isso não foi sem consequências, o que agora deve ser mostrado.
Por exemplo, os caminhos tomados por
Nietzsche são muitos e temos que concordar em escolher arbitrariamente este ou aquele ponto de partida: entende-se que a retórica é uma arte, e uma arte grega; os gregos são, de fato, o povo do discurso, sendo este o traço distintivo de sua cultura.
No “Curso sobre Eloquência”,
Nietzsche afirma que a nenhuma tarefa os gregos dedicaram labor tão incessante quanto à eloquência, podendo a quantidade de energia que gastaram na oratória ser talvez simbolizada pelo autodidatismo de Demóstenes, sendo a devoção à oratória o elemento mais tenaz da cultura grega.
Mas os gregos são também assim por natureza, qualquer que seja a dificuldade de determinar uma origem que não fosse um estado de natureza idílico e ingênuo, como a Idade Homérica de Schiller; se os gregos são naturalmente o povo do discurso, isso se deve à sua língua, “a mais falável de todas as línguas”, que eles falavam insaciavelmente, sentindo-se falantes em contraste com os aglossoi, os não gregos.
A língua grega presta-se, portanto, à fala; é por isso que, primeiro de tudo, a fala é a essência do povo grego, o que os distingue absolutamente e faz de todos os outros povos povos privados de linguagem, nem mudos nem sem voz mas ininteligíveis, gritando como animais.
A fala é, portanto, também o que dá aos gregos seu poder, seu poder político, estando a eloquência ligada à democracia, e seu destino, a persistência da cultura grega apesar de seu esvaecimento, seu declínio efetivo, isto é, apesar da degradação da fala viva em escrita, onde o verdadeiro poder se concentra.
A cultura e o poder helênicos concentram-se gradualmente na habilidade oratória, o que provavelmente também sela sua perdição; a devoção à oratória é o elemento mais tenaz da cultura grega, sendo comunicável, contagiosa, como se vê pelos romanos e por todo o mundo helenístico.
A eficácia da pregação cristã pode ser remontada a esse elemento, e indiretamente o desenvolvimento de todo o estilo prosaico moderno depende dos oradores gregos, diretamente sobretudo de Cícero; basicamente, ainda hoje a educação superior “clássica” preserva boa parte dessa visão antiga, exceto que já não é a fala oral mas sua imagem desbotada, a escrita, que emerge como meta.
Mas a língua grega não é apenas propícia ao domínio, supondo que se possa falar de domínio em relação aos gregos; a força imensurável dada a eles pela fala foi breve, extática, quase como um relâmpago, tornando-os ofuscantes, mas também sendo por ela queimados, e se exercem um poder póstumo, é um poder ambíguo, antes uma fascinação na qual todo poder está em risco.
O uso da fala não é simplesmente político, isto é, econômico e servil; se a língua grega se presta melhor que qualquer outra à fala, é porque se presta a um uso excessivo da fala: os gregos são falantes insaciáveis, falam demais.
Necessidade, indigência, angústia e carência de modo algum presidem a criação e a prática da língua grega, nem as de qualquer outra língua; a língua grega não é filha da pobreza mas de uma riqueza superabundante.
Tomando emprestado um “conceito” do leitor mais “fiel” de
Nietzsche, digamos que ela é o fruto de uma despesa sem reservas e que naturalmente se presta a uma fala soberana.
O texto “Ler e Escrever”, §1, pergunta se acreditamos realmente ouvir, na sonoridade soberana de uma língua, o eco de uma indigência que lhe teria dado à luz, pois tudo nasce na alegria e na exuberância, livremente e sob os auspícios das profundezas do espírito, do espírito contemplativo.
O que poderia um homem simiesco ter a ver com nossas línguas? Um povo que tem seis casos e conjuga seus verbos com cem formas possui uma alma completamente coletiva e transbordante, e o povo capaz de criar tal língua espalhou a plenitude de sua alma a toda a posteridade, pois nas eras sucessivas as mesmas forças, graças aos poetas, músicos, atores, oradores e profetas, fluem para a forma.
Mas quando ainda estavam na plenitude superabundante de sua primeira juventude, essas mesmas forças geraram os criadores da língua: estes foram os homens mais criativos de todos os tempos e representaram o que músicos e artistas sempre representaram depois: sua alma era maior, mais cheia de amor, mais coletiva; era quase como se vivesse em todos em vez de num canto sombrio e isolado; neles, a alma coletiva falava consigo mesma.
Esse texto, embora não pertença estritamente ao campo da retórica, diz muita coisa; notemos por ora que essa linguagem originalmente soberana predetermina um uso artístico da linguagem, pois para
Nietzsche o excesso ou a superabundância define a arte, a prática da arte.
Se a língua grega é naturalmente disposta à retórica, é porque os gregos são também, naturalmente, um “povo artístico”; o que é especificamente grego na relação que os gregos mantinham com a linguagem é a arte, o jogo.
No início do “Curso sobre Retórica”,
Nietzsche cita a passagem célebre da “Crítica do Juízo” sobre eloquência e poesia, segundo a qual as artes da fala são a retórica e a poesia, sendo a retórica a arte de tratar um assunto sério do entendimento como se fosse um livre jogo da imaginação, e a poesia a de conduzir um livre jogo da imaginação como se fosse um assunto sério do entendimento.
Ele então acrescenta este breve comentário: o que é único na vida helenística é assim caracterizado, perceber todos os assuntos do intelecto, da seriedade da vida, das necessidades, até do perigo, como jogo; é por isso que a eloquência é mais grega, e portanto mais “artística”, que a própria poesia.
É por isso que ela não é apenas uma arte grega, mas a arte grega por excelência: a ars techné é a teoria da arte da retórica por excelência, muito característica entre um povo de artistas.
Tudo isso se sustenta muito bem, mas obviamente repousa sobre algo que ainda não foi explicitamente afirmado; é bastante compreensível que os gregos sejam um povo artístico e que o que neles é natural seja sempre já “arte”, mas por que esse privilégio concedido à sua língua, isto é, à própria linguagem?
Por que de fato a retórica deveria ser considerada a arte grega por excelência? Isso dificilmente pode ser explicado a menos que a própria linguagem seja já a techné kat exochen, a língua grega como arte, isto é, como naturalmente retórica.
Segue-se que os gregos exploraram implacavelmente uma possibilidade de sua própria língua, uma possibilidade natural de sua própria língua e, consequentemente, a própria natureza da linguagem em geral.
Porque engendrou a retórica, a língua grega revela a essência da própria linguagem; este é, além disso, um privilégio próprio dos gregos: eles revelam, eles sempre possuem, aos olhos de
Nietzsche, o poder de revelar o que é essencial, desde que saibamos entendê-los, interpretá-los, lê-los como eles mesmos nunca fizeram e nunca puderam.
Assim a linguagem é uma arte; há uma arte da linguagem porque a linguagem já é uma arte, e precisamente essa arte: “a linguagem é retórica”; poder-se-ia até resumir tudo dizendo que a linguagem é a arte por excelência.