0 Introdução

KRISTELLER, Paul Oskar; MOONEY, Michael. Renaissance thought and its sources. New York: Columbia University Press, 1979.

1. A origem dos ensaios como conferências explica a amplitude de seus temas e o caráter aproximativo de suas formulações gerais, cuja validade depende dos fatos e das fontes históricas concretas que procuram descrever, exigindo ajustes e nuances diante de um material documental demasiadamente rico e variado para ser inteiramente dominado por qualquer pesquisador.

2. A autonomia dos ensaios e sua elaboração em momentos distintos explicam as repetições e eventuais divergências de enfoque, enquanto a permanência das interpretações fundamentais se concilia com alterações de ênfase decorrentes do estudo de novas fontes e problemas e de uma reação predominantemente crítica às sucessivas modas intelectuais.

3. Os ensaios redigidos entre 1944 e 1975 representam resultados parciais de quase cinquenta anos de investigação, cujas bases remontam à especialização nos estudos renascentistas iniciada em 1931 e à formação filosófica e clássica da década de 1920, tornando pertinente reconstruir a formação e o desenvolvimento das perspectivas que os orientam.

4. A formação humanística recebida em Berlim, ampliada por leituras independentes e pelo interesse duradouro pela música e pela história da arte, constituiu a base de estudos universitários de filosofia antiga, kantismo, hegelianismo, existencialismo, literatura clássica e história medieval, culminando em uma tese sobre Plotino publicada em 1929.

5. A investigação de Marsilio Ficino, iniciada em 1931 como prolongamento dos estudos sobre Platão e Plotino, desenvolveu-se em um ambiente historiográfico marcado pelas interpretações de Burckhardt e Voigt, pelas pesquisas sobre o humanismo italiano, pela história do espírito inspirada em Dilthey e pelas contribuições de Cassirer, da Bibliothek Warburg e dos estudiosos italianos do platonismo renascentista.

6. A permanência na Itália entre 1934 e 1939 ampliou o estudo de Ficino para seus contemporâneos, suas fontes e sua influência, evidenciando tanto a importância da erudição histórica local e setecentista quanto a abundância de manuscritos inéditos ou insuficientemente catalogados, cuja recuperação motivou projetos de publicação de textos humanísticos e de levantamento de acervos desconhecidos.

7. A identificação de vínculos diretos entre Ficino, o platonismo florentino e a escolástica aristotélica acrescentou uma dimensão decisiva às suas conhecidas relações com o platonismo antigo e medieval e com o primeiro humanismo renascentista, constituindo o tema da primeira conferência apresentada e publicada nos Estados Unidos após a chegada ao país em 1939.

8. A atuação na Universidade de Columbia a partir de 1939 ampliou a investigação de Ficino para o conjunto da filosofia e da história intelectual do Renascimento, pois o ensino, a orientação de pesquisas, a colaboração bibliográfica e a participação em periódicos e associações favoreceram o contato com a produção norte-americana e com iniciativas de organização interdisciplinar dos estudos renascentistas.

9. As críticas dos medievalistas à exaltação do Renascimento e o reconhecimento da importância do aristotelismo renascentista conduziram a uma interpretação historicamente mais equilibrada do período, apoiada na documentação da transmissão ocidental dos autores antigos e no estudo de Pomponazzi, das universidades italianas, de seus currículos e das relações entre disciplinas, profissões eruditas e classificações do conhecimento.

10. O humanismo e a escolástica aristotélica constituíam, na Itália renascentista, campos de interesse coexistentes antes que filosofias ideologicamente opostas, pois o primeiro se apoiava na gramática, na retórica, na poesia, na história e na filosofia moral, enquanto a segunda abrangia lógica, filosofia natural, metafísica e filosofia moral, prolongando respectivamente tradições medievais de formação retórica e de aristotelismo secular ligado às escolas médicas.

11. A validade de uma interpretação histórica decorre de sua conformidade com os textos e documentos originais, e não da autoridade dos especialistas, das preferências pessoais ou das modas intelectuais, razão pela qual o aprofundamento documental pode confirmar perspectivas fundamentais ou exigir sua revisão quando novas fontes primárias efetivamente as contradizem.

12. O crescimento das monografias, edições, bibliografias e publicações especializadas ampliou e refinou o conhecimento do pensamento renascentista, mas a necessidade de acompanhar criticamente essa produção secundária passou a disputar o tempo indispensável à leitura das fontes primárias, frequentemente acessíveis apenas em manuscritos ou edições antigas e raras.

13. A transformação dos estudos eruditos ao longo de aproximadamente cinquenta anos ultrapassou o aumento das publicações e as mudanças interpretativas, pois atingiu o conteúdo, os métodos, o estilo de trabalho e a organização institucional de todo o universo acadêmico, embora a incorporação dessas novidades à rotina profissional tenha tornado sua historicidade pouco perceptível às gerações mais jovens.

14. A pesquisa inicialmente praticada na Alemanha e na Itália organizava-se em pequenos círculos vinculados a universidades ou institutos, cujos contatos recíprocos eram limitados e frequentemente críticos, de modo que a menor frequência de conferências e congressos fazia os encontros entre intelectuais dependerem sobretudo de apresentações formais ou de circunstâncias ocasionais.

15. A sociabilidade acadêmica norte-americana e a dispersão de suas instituições favoreceram conferências, associações profissionais e congressos de diferentes escalas, posteriormente ampliados pela cooperação internacional do pós-guerra, consolidando a expectativa de que o debate coletivo pudesse esclarecer problemas, resolver controvérsias e orientar novas pesquisas de maneira distinta do trabalho individual realizado em bibliotecas e gabinetes.

16. A multiplicação de institutos especializados e bolsas de pós-graduação favoreceu a pesquisa em diferentes campos, inclusive nos estudos renascentistas, ao permitir que pesquisadores jovens e experientes concentrassem seus esforços em projetos próprios durante períodos de um ou dois anos.

17. A expansão das bibliotecas, dos catálogos coletivos, dos instrumentos bibliográficos e dos serviços de consulta facilitou a localização e o acesso a livros, artigos e reproduções de obras raras, embora persistissem lacunas na catalogação de manuscritos e diferenças entre a riqueza dos fundos europeus e a qualidade dos serviços e catálogos das grandes bibliotecas norte-americanas.

18. As mudanças da atividade intelectual envolveram uma transformação gradual e profunda dos objetos e problemas de pesquisa, na qual a história das ideias e os estudos interdepartamentais assumiram especial importância para a compreensão do pensamento renascentista.

19. A história das ideias, desenvolvida a partir da história do espírito de inspiração diltheyana e reformulada por Arthur Lovejoy, articula contribuições da filosofia, das ciências, da religião e das artes ao pressupor que conceitos, problemas e termos, apesar de suas transformações históricas, integram um universo de discurso vivo que permite compreender o passado e reconhecer sua continuidade com o pensamento presente.

20. O deslocamento da atenção dos grandes sistemas filosóficos para o tratamento de conceitos e problemas específicos por pensadores de diferentes posições e projeções abriu novos campos de investigação e valorizou figuras menores ou marginais, cuja importância pode decorrer de contribuições pouco visíveis nas narrativas tradicionais da metafísica, da cosmologia, da epistemologia e da lógica.

21. A história das ideias complementa a história da filosofia ao esclarecer as relações recíprocas entre os pensadores e a civilização que os cerca, mas a compreensão filosófica também exige o estudo da tradição própria de cada disciplina, tornando necessário articular o contexto cultural de uma obra com suas relações intelectuais com predecessores antigos e posteriores.

22. O desenvolvimento dos estudos interdepartamentais, impulsionado pelas ciências da Antiguidade, pela Bibliothek Warburg e por associações dedicadas à Idade Média e ao Renascimento, corresponde à necessidade de integrar conhecimentos históricos, literários, religiosos, artísticos, filosóficos e científicos para alcançar uma compreensão abrangente dessas civilizações.

23. A contribuição dos estudos interdepartamentais depende de uma síntese interpretativa que ultrapasse a simples justaposição de resultados, pois o intercâmbio de informações e métodos permite explorar temas negligenciados, superar lacunas da divisão acadêmica e incorporar campos indispensáveis, como paleografia, literatura neolatina e história da retórica e da gramática, insuficientemente acolhidos pelos departamentos existentes.

24. A escassa presença da filosofia renascentista nos departamentos de filosofia contrasta com sua importância para estudantes e pesquisadores de história, literatura, arte e música, cujo interesse pelas fontes filosóficas do período sustenta investigações que prosseguem mesmo sem a colaboração dos filósofos profissionais e influencia o público e a orientação do ensino e da pesquisa nessa especialidade.

25. A consolidação futura da história intelectual do Renascimento exige ampliar o levantamento de manuscritos e primeiras edições e organizá-lo por referências cruzadas de autores e temas, pois esses instrumentos facilitam pesquisas particulares e permitem distinguir a efetiva difusão histórica de obras e problemas da importância que posteriormente lhes atribuem os historiadores.

26. A necessidade de catalogar todos os testemunhos textuais não elimina a seleção das obras que justificam estudos aprofundados e novas edições críticas, cuja preparação permanece indispensável para os principais pensadores e para escritos especialmente significativos de figuras menores, uma vez que o acesso a manuscritos ou reproduções não substitui o estabelecimento de um texto confiável acompanhado de variantes e indicações de fontes.

27. Novas monografias sobre pensadores renascentistas devem apoiar-se no conhecimento direto e abrangente de seus escritos, porque a leitura das obras frequentemente desfaz juízos convencionais repetidos durante séculos e exige substituir o uso indiscriminado de classificações como platonismo, averroísmo ou nominalismo pela descrição precisa das posições efetivamente sustentadas.

28. O aprofundamento dos estudos renascentistas requer investigar conceitos, problemas, correntes historicamente reconhecidas, recepções de autores antigos e medievais, influências posteriores e relações entre disciplinas e instituições, preparando uma síntese enciclopédica ou um manual abrangente cuja realização duradoura ainda encontra obstáculos na insuficiência dos conhecimentos disponíveis e na amplitude do empreendimento.

29. A investigação da filosofia renascentista deve orientar-se pelos problemas e tradições fundamentais provenientes da filosofia grega e pelas contribuições específicas que o Renascimento lhes acrescentou entre a Idade Média e a modernidade, pois essa continuidade afasta a redução do trabalho histórico a uma curiosidade antiquária e evidencia que ideias temporariamente esquecidas podem recuperar relevância.

30. A confiança no desenvolvimento dos estudos renascentistas, sustentada pelos avanços recentes e pela preparação de novas gerações, convive com ameaças decorrentes do enfraquecimento educacional, da concentração exclusiva no presente e da pressão por divulgação simplificada, fatores que podem substituir o domínio dos idiomas, das fontes primárias e dos conceitos precisos pela dependência de traduções, generalizações, ideologias passageiras e problemas artificialmente impostos ao passado.

31. As humanidades enfrentam a concorrência de formações profissionais e das ciências naturais e sociais, enquanto a pesquisa histórica também sofre pressões internas de perspectivas que reivindicam predominância interpretativa, favorecendo sínteses amplas em detrimento de detalhes e nuances e condenando uma especialização que, contraditoriamente, continua a ser praticada há séculos.

32. A preservação da pesquisa erudita exige melhor formação educacional, maior tolerância acadêmica e liberdade diante de restrições políticas ou ideológicas, pois o pesquisador tem o direito e o dever de seguir sua curiosidade e ampliar o conhecimento, cabendo à ação política e à responsabilidade cidadã enfrentar eventuais consequências indesejáveis de suas descobertas sem impedir sua produção.

33. A renovação do conhecimento resulta da curiosidade, da mudança de perspectivas e da recombinação crítica do saber acumulado, exigindo a utilização conjunta de métodos antigos e novos, a aprendizagem das gerações jovens com seus predecessores e a submissão das contribuições ao exame futuro das provas, em vez de subordiná-las às preferências de grupos acadêmicos ou às oscilações das modas intelectuais.

34. A continuidade da erudição histórica depende de uma reflexão epistemológica sobre seus métodos, suas provas e seu lugar na cultura, pois a negligência desses problemas obscurece as relações entre fatos e interpretações, evidências e teorias, dificultando tanto a compreensão das particularidades de cada disciplina quanto sua integração em um empreendimento comum de conhecimento.

35. A república das letras deve preservar sua autonomia e avaliar criticamente o custo de ceder a pressões políticas ou sociais, porque sua responsabilidade consiste em conservar e manter viva a herança cultural valiosa, mediante a transmissão dos conhecimentos, a preservação dos livros e o exame contínuo de problemas antigos e novos diante das transformações e destruições que atingem a civilização.

36. A comunicação das descobertas e a expressão responsável das interpretações constituem direitos e deveres intelectuais que dispensam propaganda desproporcional e devem aguardar o julgamento das gerações futuras, sustentando-se na esperança indemonstrável de que o passado e o presente conservarão fecundidade no porvir, embora os resultados do trabalho permaneçam sujeitos a forças naturais e humanas que escapam ao controle de seus realizadores.