Poucos admitem ser supersticiosos, embora todos tenham sido criados entre símbolos e crenças que compõem a superstição, muitas vezes acreditando parcialmente em seu significado sem o reconhecer, como ilustra a anedota, talvez apócrifa, de Niels Bohr, que mantinha uma ferradura sobre sua porta por acreditar que ela funciona mesmo quando não se crê nela.
Não há consenso sobre a definição de superstição, tendo o teólogo Karl Rahner definido-a como imitação indigna da reverência devida a Deus, ao depositarmos fé em fórmulas e rituais na esperança de obter auxílio divino ou prever o futuro, constituindo assim um culto quase religioso a poderes que não são Deus.
A Igreja condenou diversas superstições, sobretudo a astrologia, por atribuir os destinos individuais e os grandes eventos históricos a forças estelares cegas e não à vontade divina, bem como as sessões espíritas e as tentativas de comunicação com os mortos, atribuídas à ação do demônio, já que a crença no diabo, atestada nas Escrituras, difere da crença em técnicas de comunicação com os mortos, ali ausentes, condenando também toda forma de adivinhação por ser a previsão do futuro privilégio reservado aos profetas que falam em nome de Deus, segundo a fórmula de Calvino de que seguir a palavra divina é religião verdadeira, e seguir as próprias noções é superstição.
Se no universo das crenças cristãs os critérios de distinção da superstição são relativamente claros, do ponto de vista racionalista ou cientificista o rótulo de superstição se estende a toda crença religiosa, por não ser testável pelos métodos científicos aceitos, muito embora as próprias crenças científicas mudem com frequência sem que a doutrina cientificista se abale, como mostram os casos da crença nos meteoros ou da acupuntura, outrora tidas por superstições, ou dos sais de cálcio, outrora tidos por eficazes contra a tuberculose e depois abandonados sem, contudo, serem chamados de superstição, pois na ciência nenhuma razão é absolutamente definitiva e tudo está sujeito a revisão.
Segundo as regras do racionalismo, as crenças são julgadas fundadas ou não conforme sua origem e justificativa, o que gera dificuldades, como no caso da crença de que o número treze traz azar, cuja origem desconhecemos mas cuja prevalência se evidencia na ausência de décimos terceiros andares em muitos edifícios, sendo que, mesmo diante de eventuais dados estatísticos confirmando maior incidência de acidentes nesse dia, os céticos inverteriam a causalidade, atribuindo-a ao nervosismo gerado pelo próprio medo; assim, certos eventos se encaixam no cânone aceito de conhecimento e outros não, como se vê na credulidade quanto às guerras narradas por Tito Lívio contrastada com a descrença quanto à paternidade de Marte ou à loba que amamentou os gêmeos, ou na rejeição sistemática dos milagres atribuídos a santos e das curas inexplicáveis de Lourdes, por não se encaixarem no cânone de explicações aceitas.
Fenômenos ditos paranormais enfrentam tratamento semelhante, apoiando-se geralmente em evidências anedóticas de difícil comprovação experimental, como relatos de fantasmas, experiências extramundanas ou comunicação telepática, sendo tais relatos atribuídos por princípio a ilusão, alucinação ou invenção, já que o cânone racionalista exclui de antemão sua possibilidade, mesmo diante de resultados estatisticamente improváveis em experimentos como os das cartas de Zener, que os céticos preferem simplesmente ignorar.
Ainda assim, houve racionalistas de credenciais impecáveis, como Eysenck, que demonstraram interesse por esses fenômenos curiosos.
Outro tema recorrente é a capacidade de prever o futuro, exigindo toda predição genuína três condições: que o evento previsto seja improvável e não deduzível das circunstâncias normais, que seja claramente formulado e não vago como as previsões de Nostradamus, e que seja verificável e não autorrealizável.
O sonho premonitório de Abraham Lincoln sobre seu próprio assassinato parece satisfazer essas condições, assim como talvez outros casos, sem que isso desperte interesse do cientificismo, por não se ajustarem ao cânone nem se converterem em leis naturais, independentemente de sua frequência.
A relutância em investigar essas questões talvez decorra do medo de ter de rever elementos profundamente arraigados do próprio cânone, bem como do risco de cair vítima de ilusionistas hábeis, sendo inegável a abundância de delírios, alucinações, ingenuidade e fraude nessa área, mas isso não deveria bastar para descartar de plano tudo o mais que nela existe, já que também não faltam fenômenos claramente alheios à fraude ou ao delírio.
O desejo de experiência direta de forças sobrenaturais explica a existência de pessoas que veem imagens sagradas em manchas de pedra e saem anunciando o fato, sem que a própria Igreja hoje demonstre interesse em atestar tais milagres, existindo superstições abundantes, algumas apenas curiosas do ponto de vista psicológico ou sociológico, outras perigosas, como o culto da carga, e outras ainda ligadas à crença persistente em feitiçaria, diante da qual o racionalista, mesmo comprovado o cumprimento sistemático de um feitiço, atribuiria tudo à coincidência, sem jamais admitir a possibilidade da magia.
Sendo nossas reações a eventos extraordinários dependentes de doutrinas e atitudes previamente assumidas, é impossível definir superstição de modo universalmente aceito, havendo boas razões para supor a existência, ao lado das energias conhecidas pela ciência, de outro tipo de energia e de formas de comunicação diferentes das ordinárias, um “hóspede desconhecido” que aparece e desaparece de modo esporádico e imprevisível, sem que se possa jamais organizá-lo como técnica sistemática e previsível, razão pela qual sua simples menção provoca indignação entre os que teriam de rever seu cânone e sua ideologia caso a admitissem.
Resta considerar se a crença em forças sobrenaturais é, em geral, boa ou prejudicial, independentemente de sua veracidade: a queima de bruxas não pode ser tomada como exemplo, embora não mais praticada, enquanto bater na madeira é superstição inofensiva; usar supostos poderes sobrenaturais só é bom ou mau conforme a intenção de quem o faz, sendo sempre má se visa prejudicar outrem, mesmo sem êxito, ao passo que acreditar em forças sobrenaturais favoráveis aos nossos projetos legítimos é coisa boa, por reforçar a determinação de realizá-los por nossas próprias forças naturais.