0.2 Introdução

PIEROBON, Frank. Kant et la fondation architectonique de la métaphysique. Grenoble: J. Millon, 1991.

Introdução

1. Todo labirinto pode, em princípio, ser resolvido, pois ao percorrê-lo surge na mente um plano que constitui o sistema desse percurso, com seus desvios inúteis gradualmente eliminados, sendo o único caso insolúvel aquele em que o labirinto se reorganiza invisivelmente conforme nossos passos mantendo aparência de imutabilidade.

2. A metáfora do labirinto auxilia a pensar a aporia em que o espírito humano se debate ao tomar consciência de que todos os problemas filosóficos descrevem as diferentes maneiras de se opor a si mesmo, afirmação que remete ao idealismo e faz do mundo apreendido como labiríntico algo que depende essencialmente do espírito segundo alguma regra sistemática, assumindo aparência de independência.

3. O labirinto do qual nunca se pode verdadeiramente sair é nosso próprio espírito, pois lhe é dado tanto caminhar no que toma por linearidade quanto se contrair até aparecer como ponto desmaterializado que varre espaços ilimitados, aparecendo sempre-já como espírito em geral por um deslizamento anfibológico que lhe confere a ilusão de percorrer a exterioridade sem afetá-la.

4. Se a pensamento pudesse dissipar de uma vez por todas a ilusão de que essas aparências labirínticas e imutáveis lhe são exteriores, perderia ao mesmo tempo o que lhe permite representar seu próprio movimento e a fé em sua própria existência, havendo fundamento para suspeitar de uma origem comum entre a ilusão em geral e a fé na realidade das coisas sensíveis.

5. À ilusão de um dado tota simul, no qual a pensamento se sente estrangeira e suplementar, responde a ilusão de uma pensamento que já é tudo para si mesma, mundo compreendido, concretizando ambas as figuras de uma temporalização fundamentalmente comum entre a aparência de instantaneidade atemporal e a de ser a única entidade submetida ao tempo.

6. Assim como a imaginação produz imagens sem se limitar a isso, a razão produz aparências que devem ser comparadas na reflexão à essência do conceito para valerem como aparência ou verdade, considerando-se primeiro o sentimento em seu estado mais neutro de familiaridade antes de entrar na perspectiva mais ampla de uma faculdade de julgar.

7. Esse estado mais neutro do sentimento de presença a si mesmo que acompanha o eu penso todas as nossas representações é aquele em que a pensamento pensa, sendo como uma respiração entre tempos fortes e fracos, cheios e vazios, temporalidade e atemporalidade, ao mesmo tempo a mesma coisa e os termos de uma oposição das mais violentas.

8. Toda entregue à contemplação especular de si mesma, contemplação aristotélica do divino, a pensamento se sente na aparência dialética como em casa, por um sentimento cuja indeterminação quanto ao prazer e à dor passa por ausência de sentimento, e se a felicidade reclama a onisciência, esta, sentimento evidente antes que conhecimento inverificável, não é já uma felicidade das mais altas.

9. Ao sair da aparência por um movimento crítico, a pensamento se choca de frente com seu próprio factum, que é o poder de se determinar pela representação de um conceito, e, uma vez dissipada a aparência de ausência de sentimento, sobrevém-lhe o sentimento de um imenso vertigem, experimentando então uma liberdade a fazer que se apresenta como abismo imenso.

10. Suspeitando que essa sentimentalidade da pensamento a torna heterônoma e se aloja tanto na evidência dos sentidos quanto na da razão, pode-se temer que não haja recurso algum, pois só dispomos dessa pensamento para lhe devolver a autonomia, colocando-se a questão de saber que teoria da verdade e do erro assumiria o risco da auto-referência negativa.

11. A razão de tal dificuldade está em que todos os elementos do conceito de felicidade são empíricos e devem ser tomados da experiência, exigindo-se contudo para a ideia de felicidade um todo absoluto e um máximo de bem-estar, impossível de ser determinado por um ser finito, o que leva a indagar se o sentimento de prazer e dor não fornece sub-repticiamente o móbil da ilusão transcendental.

12. Distinguem-se duas formas de auto-referência, sendo a negativa ilustrada pelo Paradoxo do Menteiro, em que a meta-mensagem nega a mensagem e, como a referência não ultrapassa a extensão da mensagem, não há polarização entre ambas, só a presença de um conteúdo material que resiste à efetuação reflexiva permitindo tal polarização.

13. A auto-referência negativa não se distingue da simples contradição lógica por seu conteúdo material contingente, mas se demarca formalmente ao opor um enunciado desde logo universal a uma enunciação singular que tende sempre-já a tornar-se universal, por uma anfibologia que Kant compreendeu ser ao mesmo tempo a possibilidade do entendimento de ser puro e a possibilidade da razão de produzir ilusão transcendental.

14. A auto-referência positiva é o que Deus profere a Moisés através da Sarça Ardente, distinguindo-se da tautologia não pelo conteúdo material mas pela estrutura dissociativa e anfibológica entre o enunciado universal e atemporal e o enunciado singular e hic et nunc que se torna sempre-já universal quando desaparece a inscrição subjetiva.

15. Pergunta-se como julgar o erro possível de uma teoria do erro e a ilusão transcendental própria de uma teoria da ilusão transcendental, pois Descartes podia positivar o duvido sem aceitar a auto-referência negativa a que o duvidar do duvido conduziria, enquanto Kant aceita o risco de sair de si mesmo e de que a pensamento saia de si, Aufhebung do Saber para a Fé.

16. Antes de tudo é preciso verificar se há razão prática, se a razão pode retornar sobre si mesma e reindividuar-se tornando-se prática, e se a liberdade, factum que só se atesta onde não há mais fato e postulado onde nada da lógica pode ainda constranger, não se deixa sempre-já escapar como falso-fato e falso-princípio.

17. As problemáticas se recortam constantemente em Kant, entrando-se por um problema de auto-referência e saindo-se pela liberdade, passando pela problemática da dedução como passagem e circulação do fato ao princípio.

18. As questões relativas à liberdade exigem a preparação ingrata e austera de reencontrar a marcha kantiana através das duas deduções da Crítica da razão pura, pois tomando ao pé da letra as consignas arquitetônicas chegava-se a uma elucidação que talvez pudesse pretender reencontrar a completude reivindicada pela obra, constatando-se que essa completude não podia ser mais duramente posta à prova do que no lugar em que o método arquitetônico se assinala por uma incoerência de fundo.

19. Diante do escândalo dessa dedução duplicada, cuja primeira versão se ordena de modo bem regulado e fácil de seguir e cuja segunda se enreda por vezes inextricavelmente, recorre-se ordinariamente à posição de recolhimento que consiste em inclinar-se diante da inesgotável fecundidade de um grande filósofo.

20. Impõe-se reencontrar a necessidade interna da problemática da dedução, que ultrapassa o simples quadro do entendimento naquilo que põe em obra, pois se ao escrever ou ler que o entendimento deve abrir-se para o que não é ele não se atenta ao que metodologicamente permite tais afirmações, permanece-se numa metaforização sub-reptícia do propósito e corre-se o risco de fechar-se à significação verdadeira do que está em jogo numa dedução.

21. É a partir do entendimento, e não da sensibilidade ou da razão, que se sustenta tal discurso, pois o entendimento fala de si mesmo sem poder fazê-lo sem tornar-se razão, e a razão nada pode dizer sem que, passando à representação, volte a tornar-se entendimento, esboçando-se aí o problema de uma dedução metafísica que é preciso resolver sob pena de usar e abusar de uma metodologia não fundada.

22. O entendimento abrindo-se para o que não é ele, deve-se postular o que o entendimento não pode sair de si mesmo e que, sem a intuição, permaneceria letra morta, tratando-se aqui da problemática de uma dedução transcendental e do círculo em que o entendimento só pode entender seu próprio eco categorial.

23. O escolho parece grande, embora se possa contorná-lo substituindo a alteridade radical de uma matéria informe por uma complexificação crescente da derivação analítica das categorias, solução que não é a de Kant porque repousa numa confusão entre infinito analítico e infinito sintético e oculta a parte puramente formal da questão.

24. Para Kant o entendimento não pode desmoronar na sensibilidade nem dela se dissociar radicalmente, e sua raiz comum não se encontra nem num nem noutro, dispondo Kant desde 1768 de um argumento definitivo para manter entendimento e sensibilidade um fora do outro, que é a quiralidade, cujo exemplo-tipo é a identidade não superponível das mãos.

25. A quiralidade, incompreensível a priori pelo entendimento que dela não detém a categoria, mantém arquitetonicamente a sensibilidade fora do entendimento, e o entendimento, sendo quiralmente construído, é capaz de entender essa mesma quiralidade quando lhe é mostrada na intuição, pois o olho vê mas não se vê vendo.

26. Retraçando a arquitetônica de toda a Crítica reencontra-se invencivelmente a dedução, pois o tratamento do esquematismo do entendimento na Analítica dos princípios articula-se estreitamente à dedução da Analítica dos Conceitos, articulação possibilitada pelo esquematismo das ideias, do qual a quiralidade é engrenagem maior.

27. Não se pode pretender socorrer Kant onde ele tropeça, pois tal pretensão só seria possível se a arquitetônica pudesse entrar inteira numa representação e passar toda ela à linguagem, o que não é o caso, e o problema da dedução, suposto resolvido no nível da pensamento, ressurge intacto no nível da exponibilidade.

28. Entre pensamento e representação é preciso também o equivalente de uma dedução, pois uma dedução é necessariamente auto-referente e o entendimento de que ela fala é o mesmo pelo qual ela fala, restando saber para que o entendimento enquanto método é ultrapassado, resposta que remete à lógica transcendental mas que é inutilizável se não se percebe que a lógica simples torna possível a referência em geral enquanto a lógica transcendental nada pode referir.

29. A apropriação pelo entendimento de suas representações, em que se torna presente o que lhe é outro, é ao mesmo tempo um retraimento da presença a si fora dessas mesmas representações, de modo que o entendimento puro só se torna senhor de suas representações na medida em que delas desaparece materialmente.

30. A dificuldade metodológica de uma dedução concentra-se na possibilidade ou impossibilidade principiais de expor a essência da lógica transcendental, devendo a teoria transcendental do método incluir uma teoria da exponibilidade do pensamento e, por esse viés, algo que de fato funcionaria em Kant como uma filosofia da linguagem.

31. Assumindo a contingência não de um pensamento historicamente determinado mas simplesmente os limites de sua expressão linguageira, evita-se o escolho da redução do comentário que leva à representação o que uma pensamento tem de esquemático e se condena a suprir pela fixidez de uma jurisprudência exegética a impossibilidade de dar representação canônica a uma pensamento por natureza inexponível.

32. A problemática da dedução aparece como o lugar em que toda a obra se põe em perigo, com um primeiro passo em falso de forma acabada em 1781 e uma segunda versão de construção explodida em 1787, devendo a interpretação desdobrar-se em duas teses por uma necessidade que aparecerá adiante.

33. A primeira tese concerne à dedução metafísica, que seria possibilitada por um sistema arquitetônico que se pode pensar e mostrar fora da linguagem mas não representar nos limites do inteligível no discurso, contendo a tábua das categorias cuja sistematicidade é sempre solicitada mas cuja gênese nunca é exposta.

34. Esse verdadeiro golpe de força é inevitável porque nenhuma descrição da metafísica como ciência, a arquitetônica sendo uma arte e não uma ciência, lhe é adequada, pois perde desde o início a dimensão suplementar de complexidade que separa a arquitetônica e a técnica.

35. A segunda tese, correspondente à dedução transcendental, é que não há descrição adequada que possa dar conta da especificidade de um realismo empírico sem recair na totalização do idealismo transcendental e sem se limitar à constatação de que há experiência e de que ela é sensível.

36. Essa impossibilidade provém de que todas as descrições são igualmente possíveis e legítimas mas é impossível ultrapassar suas diferenças, de modo que a descrição da gênese da percepção que seria preciso isolar não seria senão uma ficção, e essa multiplicação de descrições não se acomoda ao caráter científico de uma arquitetônica.

37. A interpretação consiste em mostrar que a dedução kantiana não pode conter-se num plano representacional único, o da simples lógica do entendimento e do discurso doutrinal clássico, implicando razão e sensibilidade de modo que perturba em retorno o discurso que sustenta a seu respeito.

38. Com a razão, numa dedução metafísica, o discurso da dedução confronta a inexponibilidade representacional da arquitetônica ao enunciar abruptamente sua tábua das categorias, e com a sensibilidade, numa dedução transcendental, esse mesmo discurso ganha em visibilidade representacional o que perde em rigor arquitetônico ao acomodar-se à equivocidade inerente a toda descrição da gênese da percepção.

39. Que tenha havido duas deduções com cerca de seis anos de distância encontra um início de explicação no fato de Kant, maravilhado pelo poder do esquematismo das ideias, ter acreditado poder estender seu poder a priori até o sensível na sensação, sobrepondo a primeira dedução uma sistemática coerente mas artificial e heterogênea emprestada de Tetens.

40. Uma leitura rápida da teoria da tríplice síntese pode dar a impressão de que esta se articula bem ao resto da arquitetônica, mas basta des tematizá-la e voltar à sua pureza formal para perceber que ela não esgota seu objeto e nunca chega a estabelecer um vínculo direto entre seu conteúdo material e seu desenrolar formal.

41. A primeira dedução, mesmo quando parece oferecer todas as garantias de rigor arquitetônico, metaforiza seu objeto sem nunca poder preencher a distância, pois o momento presente da percepção é cercado mas nunca atingido, e o horizonte do realismo empírico recua constantemente diante do idealismo transcendental no qual a dedução se encerrou.

42. Há algo de irônico no destino de Kant, cuja crítica, extirpando as ficções metafísicas até as raízes, não pode evitar semear outras mais vigorosas, o que se deve à distância indefinidamente irredutível entre seu sistema e as diversas representações possíveis dele, cujas aporias da dedução constituem o sintoma maior.

43. Uma segunda redação da dedução não foi motivada em linha reta pelas objeções suscitadas pela primeira, mas sim por essa eclipse recíproca pela qual cada um dos termos do dualismo kantiano, a idealidade transcendental e o realismo empírico, aparece único e absoluto.

44. É menos a solução que a formulação do problema de uma dedução que vai ser repensada, pois esse problema é enfrentado em sua escala e não mais se deixa reduzir a uma questão local de articulação entre a categoria e o fenômeno, sendo geral e indo até determinar a relação entre a crítica e a metafísica como ciência.

45. Kant escreveu a primeira versão na mesma língua do resto da Crítica, mantendo o que afinal se revela uma ilusão de isotropia metodológica, e suas dúvidas sobre se uma dedução subjetiva pode beneficiar do mesmo rigor da dedução objetiva só emergem verdadeiramente na primeira Prefácio.

46. Tais dúvidas crescerão até formar uma questão de fundo, tornando-se a possibilidade mesma de uma dedução o objeto da dedução, pois supondo que o esquematismo em geral é totalmente exponível torna-se possível a categoria enquanto tal e sua dedução metafísica, mas isso só se faz à custa da materialidade do fenômeno, que sofre uma eclipse e se torna fantasmática.

47. Aceitando que o esquematismo só se deixa representar e teorizar ao preço de uma redução ou mutilação, passa-se da unidade arquitetônica à unidade simplesmente técnica, recuperando-se a sensibilidade interna que faz funcionar tal esquematismo e a possibilidade de descrevê-lo, mas tornando-se indeterminada a essência mesma da categoria.

48. O desmoronamento da arquitetônica na primeira dedução não se deve apenas a que ela não consegue teorizar a singularidade da percepção, mas a que descreve e portanto necessariamente inventa a parte que falta à sua descrição para lhe dar a completude necessária para fazê-la funcionar como teoria.

49. Essa dedução peca por fazer passar sub-repticiamente a equivocidade de sua teoria emprestada de Tetens para a univocidade implicitamente exigida, e o partido de teorização tem consequência mais radical ao manter retoricamente a fenomenalidade própria à percepção fora daquela própria ao percebido, distância que no nível da sensação não existe.

50. Por contraste, é a segunda versão da dedução a mais fenomenológica, porque descreve não mais o puro evento arquetípico da percepção em sua scansão ternária e pseudo-arquitetônica, mas a articulação entre a fenomenologia da percepção e do conhecimento e essas mesmas percepções e conhecimentos enquanto se universalizam e se destemporalizam.

51. A adequação entre o discurso e seus objetos, entre a escrita da Crítica e o sistema que a torna possível, não pode manter-se de maneira isotrópica através de toda a tópica transcendental, e a dedução é o lugar mesmo em que essa adequação se extenua e cessa, sendo em toda parte a redação kantiana uma descrição imersa na contingência de uma pensamento que se fenomenaliza e se escreve.

52. Na segunda dedução Kant assume a equivocidade do objeto que o torna rebelde a todo canevas arquitetônico do gênero da tríplice síntese, pois tal canevas seria uma ficção, e a descrição corre movida por sua própria dinâmica através das perspectivas que costura juntas, passando constantemente da gênese fenomenológica da representação ao conteúdo epistemológico desta sem perceber fio condutor porque este é inexponível.

53. Resulta dessa nova redação uma aparência de contradições alternadas e de desordem insuperável, porque a descrição se refere a um princípio ideal arquitetônico de unidade de toda a Crítica que só pode se deixar representar negando-se ou deslocando a continuidade representacional, tendo sido o desvio para pensar tal princípio metafísico aquele do esquematismo das ideias, cujos esquemas se reconstituíram sem nunca sair das premissas kantianas.