3 Esperar

APPELBAUM, David. The Vision of Kant. London: Element, 1995

Três Perguntas que Mudaram a Face da Filosofia

O que Podemos Esperar?

Religião e Espírito

1. O santo e o sagrado não estão ausentes da filosofia moral de Kant, e o contato com uma presença incondicional e misteriosa está carregado dos perigos de ambos, e na medida em que nos esforçamos pela interioridade levamos uma vida de espírito.

2. Como a religião, em seu significado radical, tem a ver com observância estrita, a ética kantiana extrai seu alimento da camada profunda da experiência religiosa, e aqui está oculta a fonte da esperança junto com a do amor e da fé.

3. A esperança tem seu oposto no desespero, que surge com o desengajamento, a frouxidão e a falta de esforço, e a esperança, portanto, tem a ver com uma compreensão da perfeição moral e espiritual.

4. Ela aceita o fato de que o esforço humano é um ingrediente absolutamente essencial na evolução da consciência, e o ato de esforçar-se, e não uma compreensão intelectual dele, anima a vontade de tornar-se inteiro e, nesse devir, encarna uma consciência do reino numênico.

5. Embora demasiado sumária, a noção de que a religião se ocupa de Deus, da alma e da imortalidade não é inexata, e nossa esperança é avivar o aspecto de nós mesmos que serve a um ser absoluto de modo atemporal e eterno.

6. Tomadas como conceitos no quadro do mundo objetivo, as três ideias são sem sentido, e Kant demonstra esse fato, vimos, com as antinomias da primeira Crítica.

7. Elas são, porém, transubstanciadas no curso de um esforço por uma consciência moral de nosso lugar, nosso lugar santo e humano, e por meio da luta para ser receptivos a uma exigência incondicional nos é concedida uma compreensão sentida e não intelectual da existência de Deus e do ser imortal da alma.

8. Isso equivale a abraçar uma fé prática pura, e o ensinamento nos guia, ecoando Meister Eckhart, a um respeito desinteressado, e no curso de sua prática os fiéis podem proclamar com justiça que querem que haja um Deus, que sua existência neste mundo seja também uma existência num mundo puro do entendimento fora do sistema de conexões naturais e, enfim, que sua duração seja sem fim.

Religião e o Imperativo Moral

1. A religião na época de Kant, e na nossa, era geralmente tomada como religião revelada, uma religião de ritos e dogmas, e o apego a milagres e à autoridade da escritura é marca das fés abraâmicas, especialmente o cristianismo.

2. As religiões reveladas exigem uma humilhação da razão como tal e são solo estéril para o cultivo da consciência espiritual, e reagindo fortemente a essa posição Kant propõe uma nova concepção de religião em A Religião nos Limites da Simples Razão.

3. Seu ato de fidelidade reside na disposição do coração de cumprir todos os deveres humanos como mandamentos divinos, e é uma religião suprema e moralmente, e porque tendia a desmascarar a prática então corrente do cristianismo Kant foi solicitado pelo rei Frederico Guilherme II da Prússia a desistir de escrever mais sobre religião, e sua aquiescência foi ambígua.

4. O divino, isto é, o incondicional atribuído a um único Ser, não pode ser objeto de pensamento, e que a experiência fenomênica nunca fornece material para preencher um conceito de Deus já foi estabelecido na primeira e na segunda Críticas.

5. O ser absoluto, porém, pode funcionar como ideia reguladora e não constitutiva, e seu próprio vazio serve para indicar o que jaz atrás do quadro conceitual, e como um dedo apontando para a lua ele acena ao observador para olhar além do gesto da representação.

6. Considerar o próprio dever como incondicionalmente ordenado é olhar nessa direção, e age-se como se tivesse conhecimento de que o comando foi divinamente emitido, ainda que tal conhecimento seja impossível.

7. Agir como se tem a forma de serviço divino já que encarna uma consciência da origem sagrada de toda ação, e pode ser comparado ao ensinamento de ioga de Krishna no Bhagavad Gita, que diz que, abandonando o apego aos frutos da ação, sempre contente e independente, ele nada faz mesmo quando se engaja na ação.

8. A religião moral, agir como se o dever fosse divinamente ordenado, responde a uma necessidade interior definida, e abrir espaço para o incondicional requer um compromisso de todo o coração.

9. A pureza de coração, em termos de Kierkegaard, a singularidade de propósito ou o vazio só dão entrada a uma consciência do caminho, e, abandonados os apegos, a pessoa se torna participante desinteressado da operação de uma força superior que guia sua intenção.

10. O que está em ação não pode ser apreendido como objeto, e, contudo, de modo não cognitivo é possível o reconhecimento daquele a quem a vontade se submete, e a religião moral dobra seus joelhos à fonte desse reconhecimento e presta homenagem a todas as coisas que o adoram.

Bem e Mal Redefinidos

1. A religião, moral ou não, deve enfrentar o problema do mal, e que o mundo jaz no mal desde a passagem de uma Idade de Ouro ou época edênica é uma ideia difundida em muitas religiões tradicionais, e sobre tal mal pergunta-se qual é sua natureza, sua origem e a possibilidade de erradicá-lo.

2. O locus do problema está em nossas relações com outras pessoas, pois o dano pode ser intencionalmente infligido ou a bondade intencionalmente desprezada, e o pensamento religioso deve, portanto, determinar se existe um impulso para fazer o mal ou se o ato é uma lapsa temporária na prática do bem.

3. Em outras palavras, pode alguém decidir livremente fazer algo errado ou o erro é um esquecimento da própria liberdade.

4. Nesse aspecto, Kant adapta a ideia de Platão de que o bem é um absoluto que não tem oposto, e afirma ousadamente que é impossível conceber qualquer coisa no mundo, ou mesmo fora dele, que possa ser tomada como boa sem qualificação, exceto uma boa vontade.

5. A bondade da vontade consiste unicamente em ser responsiva ao chamado do incondicional na medida em que este contata a humanidade, e seu valor está em fornecer o fundamento para uma consciência moral superior e não em qualquer ação particular que ela suscite.

6. Mesmo se nada pudesse fazer, arrebata-se Kant, ainda assim brilharia como uma joia por seu próprio valor como algo que tem seu pleno valor em si mesmo.

7. Falar de uma boa vontade pode soar pitoresco, mas a ideia tem importância aguda, e o que Kant tem em mente está tão longe do desejo quanto a consciência está do pensamento.

8. A vontade é mais aparentada a uma disposição de testemunhar o princípio da liberdade em si mesmo do que a um tentar fazer, e o reino sempre mutável e incognoscível do incondicional está constantemente em ação.

9. Ao mesmo tempo, para que se manifeste plenamente, nosso assentimento é necessário, e, reconhecida pela consciência humana, a lei moral recebe passagem para o mundo fenomênico, e nosso papel como seres conscientes, racionais, cumpre-se pelo único ato de presença, que é nada menos que uma boa vontade brilhando.

10. Um ato que envolve um reconhecimento simultâneo da própria liberdade tem uma qualidade palpavelmente diferente, pois não é autorizado apenas pelo eu, e o desejo pelo objeto não é seu motivo.

11. Expressivo até certo grau de uma presença interior, o ato comunica parcialmente as próprias obrigações categóricas, e o impacto de um feito abnegado testemunha o fato de que a reverência pelo incondicional é um valor sentido e que a reverência é a avaliação de um valor que supera em muito todo o valor do que é louvado pela inclinação.

12. Que estejamos equipados para reconhecer a diferença que a consciência moral faz em nossas vidas é o ponto central da religião moral de Kant.

13. Que a vontade seja uma responsividade, livremente dada, a comandos absolutos do reino numênico esclarece a questão do mal, e Kant assume uma posição complexa quanto à responsabilidade humana.

14. Quando nenhum obstáculo impede a bondade da vontade, pode-se assumir responsabilidade, interna e externamente, mas quando a expressão do valor moral é bloqueada por um hábito de gratificação egoísta, falta a consciência necessária para a ação responsável.

15. Essa é a doutrina da responsabilidade em seu sentido absoluto, mas ainda assim a ação, seja mesquinha ou profundamente global, não escapa à avaliação do valor moral.

16. É errada, desorientada, imprudente ou mal escolhida se a disposição do agente não é para a prática do mal, mas é má em si se a pessoa fez disso uma política, e esta é uma responsabilidade relativa.

17. A distinção entre responsabilidade absoluta e relativa modifica a simplicidade do pensamento de Kant sobre a vontade, pois a vontade de consciência moral, diz ele, é impedida ou desimpedida.

18. A disposição que manifesta uma boa vontade testemunha um valor superior, e se impedida, como quando a consciência está preocupada com algum outro projeto, a vontade fica cortada de informar a ação, mas não deixa por isso de ser a fonte de valor, mesmo quando o ato resultante é horrível ou desumanizante.

19. O erro moral pode surgir de uma despreocupação em relação ao dever, mas também de uma intenção de cometer atos maus, e em ambos os casos nossa atitude em relação à vontade e não a vontade em si é culpada, pois ninguém pode querer o mal apenas pelo mal.

20. Kant diz tanto quando nota que a vontade é absolutamente boa se não pode ser má, isto é, se sua máxima, tornada lei universal, nunca pode estar em conflito consigo mesma.

21. Quanto à origem do mal, Kant não quer desculpar a culpa no que respeita a um estado de esquecimento, e nossos hábitos de fuga são formados por herança, influências precoces e caráter adquirido, e embora não haja mal original, esses hábitos não estão inteiramente fora de nossas mãos.

22. Kant argumenta que o próprio homem deve fazer ou ter feito de si mesmo aquilo que, em sentido moral, quer seja bom quer seja mau, ele é ou há de se tornar, e qualquer das condições deve ser efeito de sua vontade, pois de outro modo não poderia ser responsabilizado por ela e portanto não poderia ser moralmente nem bom nem mau.

23. Diferentes aspectos de uma vontade fraca, falta de firmeza, impureza da vontade ou simples maldade, representam estágios de um silenciamento da lei moral, e nenhum representa sua corrupção, pois ela é incorruptível.

Culpa, Redenção e a Liberdade da Vontade

1. A liberdade humana é exercida na ruptura com a textura do hábito e reside na espontaneidade absoluta, e um voltar-se para a consciência da incondicionalidade ou uma recusa a fazê-lo é igualmente manifestação de liberdade.

2. Fazemo-nos quem somos de um ponto de vista moral, e as disposições ao vício ou à virtude que nos compõem surgem da livre escolha, e nunca somos forçados a violar a lei moral.

3. A transgressão é igualmente consequência de uma passividade escolhida, e nossa queda no pecado vem de um estado de inocência.

4. Se nossa responsabilidade, no sentido mais amplo, é absoluta, também é nossa culpa, e se a consciência incondicional é a cada momento alcançável, então não alcançá-la nos coloca sob um fardo insuportável.

5. Essa conclusão difícil levanta outra questão: devemos ser perdoados por perder a marca moral.

6. Em Os Irmãos Karamazov, Dostoiévski faz Ivan argumentar que a liberdade absoluta, do tipo que Kant defende, implica absolutamente nenhum perdão, e suponha-se que os cães de caça de um homem despedacem uma criança porque estavam aborrecidos, e o feito é imperdoável em terreno moral, mesmo que as vítimas desejem perdoar.

7. Ivan extrai três consequências do peso intolerável da responsabilidade, a sensualidade, o suicídio ou a insanidade, e nenhuma é feliz, e duas são excluídas pelo relato kantiano da virtude.

8. Aliocha, irmão de Ivan, propõe uma quarta possibilidade, a aceitação do milagre do perdão divino, e embora não garantida em terreno estritamente lógico, a graça é um elemento da religião moral de Kant.

9. O espírito de gravidade, como Nietzsche o chama, pode cair das costas de uma pessoa num momento de metanoia, e a graça nos permite compreender o horror de nossa situação, a exigência absoluta da liberdade, mas levemente, agilmente, com humor, e não nos alivia de nada senão da opressão da vida moral, e a tarefa permanece.

10. O caminho para o autoconhecimento jaz na prática da virtude cuja excelência especial é a liberdade, e antes de nos tornarmos inteiramente nós mesmos existem obstáculos imóveis.

11. Hábitos de gratificação egoísta podem permanecer opacos aos esforços da consciência, por mais que tentemos, e no melhor dos casos damos uma disposição morna.

12. Como Santo Agostinho, podemos clamar, Senhor, salvai-me, mas não agora, e Kant admite que uma conversão radical pode ocorrer nas dores do desespero.

13. Um abraço de todo o coração da virtude não pode ser trazido por meio de reforma gradual enquanto a base das máximas permanecer impura, mas deve ser efetuado por uma revolução na disposição do homem, uma passagem para a máxima da santidade da disposição, e ele só pode tornar-se um novo homem por uma espécie de renascimento, por assim dizer uma nova criação e uma mudança de coração.

14. Nem mesmo um ato de graça pode fazer nosso trabalho moral por nós, e no melhor dos casos abre a porta, permitindo-nos, se escolhermos, entrar na redenção.

15. Despertados, tornamo-nos mais receptivos ao que Kant chama de sentimentos morais, e não obstante nós, como buscadores da verdade, assumimos a responsabilidade final pelo caminho.

16. Como Kant nos lembra, se um homem inverte, por uma única decisão imutável, aquele fundamento supremo de suas máximas pelo qual era um homem mau e assim se reveste do homem novo, ele é, no que concerne a seu princípio e disposição de ânimo, um sujeito suscetível de bondade, mas somente em trabalho e crescimento contínuos ele é um homem bom.