1.2 O estatuto absoluto do livro

Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)

1. Retorna-se ao paralelo: se o Yi king pode ser comparado à Bíblia, é sobretudo porque um e outro livro têm por vocação esclarecer o mistério do real, possuindo uma visada absoluta, do Absoluto, uma aposta total.

2. Viu-se anteriormente que a unidade do Clássico e sua coerência resultavam do simples fato de sua génese ser tida por coincidente com o próprio desenvolvimento da civilização, e ver-se-á igualmente que sua legitimidade para significar o absoluto provém de coincidir perfeitamente com o processo do real, de se enquadrar inteiramente com ele.

3. Esse motivo de uma total adequação estabelecida entre o livro e o mundo reencontra-se no fim do mesmo parágrafo sob as imagens associadas do molde e do recinto.

4. Mas não importa apenas que o livro se estenda a todo o real, convindo igualmente que não o transborde, pois o quadro, no sentido em que aqui se diz que o livro se enquadra com o mundo, ao mesmo tempo que abre um espaço, serve para delimitá-lo.

5. Mas em nome de quê se poderá deter a deriva e decidir entre o que corresponde ao ensinamento do livro, porque corresponde ao real, e o que o ultrapassa e por aí o falsifica?

6. Essa capacidade de ir do mais simples ao mais complexo, a que se deve a amplitude e a extensão do livro, celebradas pelo Grande comentário, reencontra-se no nível de sua expressão.

7. Uma tal relação do manifesto e do oculto, essencial a todo projeto de revelação, remete-nos, de modo ainda mais preciso, ao caso bíblico, pois a Bíblia também se escreveu no encontro desses dois planos, ek phaneron kai krypton, mas a comparação para aí.