1.4 O princípio da alternância

JULLIEN, François. Procès ou Création: une introduction à la pensée chinoise essai de problématique interculturelle. Paris: Librairie générale française, 1996.

Que esperar de todo futuro e como pensar a origem?

1. A crítica chinesa atual, embora reconheça em Wang Fuzhi o mérito de uma visão dialética, censura-lhe ter insistido demais na reconciliação dos contrários em detrimento do caráter antagônico da contradição, mas ele não é revolucionário: a cooperação interna a toda dualidade lhe é necessária para explicar a convertibilidade dos contrários de que depende o encadeamento do processo, e diferença e correlação equilibram-se porque constituem a dupla condição de possibilidade de um fenômeno de alternância de validade absolutamente geral.

2. O modelo de partida não provém da análise da História, mas da experiência da natureza, a alternância do calor e do frio e o ciclo regular das estações, ritmo de aspiração e expiração dos dois sopros, yin e yang, cuja energia material constitui toda a realidade do mundo, e esse mesmo modelo vale para toda manifestação e atividade, suscitando duas questões: se tal pensamento da alternância ainda autoriza alguma esperança individual ou coletiva e como, a partir dele, pensar a origem.

3. Aparição e desaparecimento dos astros no céu, florescimento e definhamento da vegetação na terra, ordem e desordem no mundo humano mostram que a alternância implica sempre uma substituição, como expulsão de um pelo outro, e ao mesmo tempo uma cooperação, um condicionando o outro, de modo que um expulsa o outro enquanto nele se apoia, dois aspectos contraditórios de um mesmo funcionamento, dispositivo único que forma sistema. 4. Tomando-se um traço contínuo, símbolo do yang, e um traço descontínuo, símbolo do yin, e multiplicando-se cada um por três, obtêm-se duas figuras antitéticas, qian ☰, emblema do yang, e kun ☷, emblema do yin, a partir das quais se combinam todos os demais trigramas em duas séries de três figuras, cada uma procedendo por inversão de traços em relação à anterior e tendo seu estrito oposto na outra série, de modo que traços contínuos e descontínuos se empurram mutuamente e daí nasce a mudança. 5. Há progressão de uma figura a outra ao mesmo tempo que a dualidade se mantém, e esse duplo encadeamento regular a partir das duas figuras iniciais explica simbolicamente toda variação por alternância em seu funcionamento sistemático, com as duas figuras primeiras como pai e mãe e as seis derivadas como filhos que constituem situações intermediárias entre os dois extremos, sempre funcionando aos pares.

6. Um traço contínuo sob dois descontínuos, o trigrama zhen ☳, figura o yang que surge e ativa o yin, com o aparecimento do trovão, e, inversamente, um traço descontínuo sob dois contínuos, o trigrama xun ☴, figura o yin que invade o yang, dispersa sua inflexibilidade e o embebe de doce harmonia, com a formação do vento. 7. Dois traços descontínuos encerrando um contínuo, o trigrama kan ☵, e dois contínuos encerrando um descontínuo, o trigrama li ☲, figuram yin e yang que se refletem e se contêm mutuamente num encadeamento cíclico, como a alternância do frio e do calor, ou do sol e da lua, enquanto dois traços contínuos na base de um descontínuo, o trigrama gen, e dois descontínuos na base de um contínuo, o trigrama dui, figuram a interpenetração recíproca entre Qian e Kun, entre o duro e o mole, o par e o ímpar, com o advento mútuo do masculino e do feminino, ou das montanhas e dos pântanos. 8. Esses três pares mantêm a dualidade inicial e constituem ao mesmo tempo transições possíveis de um polo a outro, oferecendo em modelo reduzido o sistema de todo processo de alternância, e, duplicando-se o número de traços iniciais, os oito trigramas se desdobram nos sessenta e quatro hexagramas do Livro das Mutações, conjunto completo e sistemático de permutação contínua em que a combinatória se torna mais complexa, mas a lógica permanece inalterada. 9. O número cinquenta e cinco transmitido pela tradição, o Hetu como configuração mítica, decompõe-se numa série ímpar, símbolo do yang, 1-3-5-7-9 = 25, e numa série par, símbolo do yin, 2-4-6-8-10 = 30, cuja progressão ilustra a passagem da concentração à dispersão que ritma toda alternância, e, distribuídos em ciclo, esses números formam um sistema funcional segundo o qual toda concentração tende a uma dispersão progressiva e o estágio último da dispersão implica o retorno à concentração inicial.

10. No interior de um sistema dual e fechado, o progresso de um é necessariamente o recuo do outro, sendo a mudança, bian, o recuo do yang e a transformação, hua, o progresso concomitante do yin, de modo que a modificação é também conversão, e essa alternância não constitui ciclo estéril, mas a própria condição da renovação, pois o movimento que não pudesse repousar se esgotaria e o repouso que não pudesse mover-se definharia, contendo-se mutuamente movimento e repouso como o dia e a noite, e assim o curso do mundo se renova sem cessar e jamais se interrompe. 11. No céu alternam o visível e o invisível e na terra o florescimento e o definhamento, de modo que a oposição não é entre ser e não-ser, mas entre o manifesto e o latente, que são a mesma coisa em momentos diferentes, havendo ida e vinda e não propriamente vida e morte, pois o nascimento não é criação e a morte não é desaparecimento, sendo vida e morte homogêneas e inscritas na mesma continuidade.

12. Ida e vinda, recolhimento e expansão, dispersão e concentração, latente e manifesto são formulações sinônimas, mas não nascimento e desaparecimento, pois o ponto de vista do processo torna impossível toda ideia de aniquilamento, e pensar vida e morte segundo a alternância permite reconciliar-se com o fundo mais antigo da sabedoria, afastando-se das ilusões metafísicas budistas e taoístas, sem recair na doutrina budista das reencarnações, o samsara.

13. Libertado da doutrina infernal da retribuição, o karma budista, o homem poderia temer que a fusão no grande Todo anulasse o esforço de sua vida e todo mérito, mas, pela lógica do processo, o que o constitui perdura no nível a que o conduziu, de modo que não há sobrevivência pessoal, mas imortalidade da própria moralidade, fundamento transindividual da moral que dispensa qualquer paraíso e permanece surdo a toda tentação escatológica.

14. A lógica do processo exclui a invenção de um paraíso porque toda reconciliação só pode ocorrer no nível do próprio processo, autorregulado e portador de sua própria justificação, de modo que expulsão e desintegração jamais surgem gratuitamente ou de improviso, mas apenas quando uma situação chega ao seu termo e a mudança impõe sua necessidade, e o que se completou deve transformar-se, sem que a modificação, operando no sentido do processo, deva ser lamentada. 15. Toda imobilização conduziria a um impasse, pois mesmo no estágio mais favorável de uma situação é preciso ter consciência da necessidade de sua evolução, já que quem atingiu o cume só pode descer, e a sabedoria consiste em aceitar o próprio declínio, enquanto o Livro das Mutações permite discernir o momento preciso em que a progressão se inverte em recuo e o apogeu serve de prelúdio à renovação.

16. A necessidade da alternância e da renovação vale também no plano histórico e político, pois momentos de violência e de crise são necessários para que nasça uma nova regulação e uma nova era de paz, o que justifica filosoficamente a noção de ciclo periódico cara aos historiadores tradicionais, e, embora haja consciência de uma especificidade da história humana e de uma evolução da civilização, não há certeza de um progresso da História, pois História e natureza nunca são nomeadamente opostas e a visão permanece unitária, sem ruptura do princípio da alternância.

17. Nenhum fim pode ser projetado a jusante do Processo como termo e meta de seu desenrolar, pois o princípio da alternância afasta toda construção teleológica, na Terra como no Céu, tanto para a esperança individual quanto para a história coletiva, questão reconstituída ao modo kantiano do que é lícito esperar, e fundar assim a alternância leva a interrogar também o que estaria a montante do Processo, se há um montante e como pensar a origem, ou mesmo se ainda há uma origem a pensar. 18. A virtude do grande processo continuamente atuante no mundo é abarcar tudo, do maior ao mais ínfimo, e estar na origem de todas as atualizações particulares, sem que haja jamais um momento ou existente que sirva de ponto de partida do qual todo o resto seria a sequência, pois, sendo o ser constitutivo, ti, e o funcionamento, yong, inteiramente interdependentes, o processo só existe enquanto está em processo, e a própria noção de processo dissolve a questão da origem.

19. A ausência quase geral de encenações cosmogônicas sobre o nascimento do homem e a origem do universo caracteriza a civilização chinesa e a tradição letrada, e Wang Fuzhi leva esse cuidado mais longe que qualquer outro ao interpretar em sentido puramente cosmológico a noção neoconfuciana de limite supremo, taiji, que não gera o yin e o yang como pai a filhos, mas designa a mesma totalidade do real sob o ângulo da unidade, enquanto yin-yang a designa sob o ângulo da dualidade.

20. Integrada a uma concepção puramente funcional do processo, a noção de limite supremo não remete a nenhum estágio originário, mas designa a interdependência de toda dualidade, o fundo comum de toda realidade pelo qual os contrários, ao se oporem, participam essencialmente da unidade, sendo aquilo em que um é também o outro e pelo qual um pode tornar-se o outro, condição de possibilidade do funcionamento do processo e não ponto de partida.

21. Para evitar toda deriva interpretativa, Wang Fuzhi, seguindo Zhang Zai, transforma a noção de limite supremo na de suprema harmonia, aquela de que decorre e em que se reabsorve toda atualização, a noção de yinyun, regime global do processo, o que afasta o risco de pensar o limite como origem, evidencia a relacionalidade constitutiva de todo processo e revela sua dimensão tanto moral quanto cosmológica, longe de qualquer criador ou arquétipo da criação.