1.2 Inutilidade da palavra

JULLIEN, François. Procès ou Création: une introduction à la pensée chinoise essai de problématique interculturelle. Paris: Librairie générale française, 1996.

Inutilidade da palavra, esterilidade da ação

1. Ao declarar que preferiria não falar e ao ser interpelado pelos discípulos sobre o que então teriam a transmitir, Confúcio responde que o próprio Céu não fala e, no entanto, as quatro estações se sucedem e todos os existentes proliferam, de modo que nenhuma necessidade de fala se impõe ao Céu. 2. Não há mensagem alguma a esperar, nem Revelação nem célebres Lições, pois nem o Céu nem o Sábio precisam falar para manifestar sua perfeição e oferecê-la como exemplo, já que o curso regular da natureza e a conduta do Sábio constituem, por si mesmos, um ensinamento perfeito e completo.

3. Toda irrupção da palavra seria uma interrupção, pois o verdadeiro ensinamento opera tacitamente, situando-se no nível da dimensão invisível continuamente atuante no mundo, encarnada pelo Céu e da qual procede toda atualização particular, a noção de shen.

4. Sem magnetismo nem misticismo, a difusão da influência não encontra resistência porque o Céu, vazio de toda atualização particular, e o Sábio, liberto de todo egoísmo e parcialidade, deixam irradiar sem obstáculo uma influência universal à qual tudo se mostra naturalmente receptivo.

5. Diferentemente do discurso, que sempre busca convencer e persuadir, o ensinamento do Sábio que dispensa a palavra realiza uma adesão espontânea como a do Céu, pois não emana de nenhuma parcialidade e atinge o outro na própria raiz de seu devir.

6. Diante do Processo que opera no estágio do invisível, a montante de toda atualização individual, revela-se uma incapacidade inerente à linguagem, pois as palavras pertencem inteiramente ao estágio da atualização definitiva e particular.

7. Elevada ao estágio supremo do inexprimível, a sabedoria dispensa o Sábio de se mover falando e ensinando para comover o mundo, pois sua eficiência, homogênea à do Céu, é de incitação-difusão e não de simples agir, de modo que o não-agir se revela como lugar-comum de toda a tradição letrada, e não exclusividade taoísta.

8. A palavra pertence ao mesmo modelo que a ação, e apenas a influência é eficaz porque opera sem intenção precisa, de modo continuamente difuso e geral, enquanto palavra e ação são premeditadas, referem-se a um modelo e obedecem a um plano, o que explica a extrema reticência da tradição letrada diante de regras, preceitos, normas e instituições.

9. Por serem um povo de cultivadores e não de pastores, os chineses teriam sido naturalmente mais atentos à influência difusa, indireta e invisível que emana do ciclo das estações, ao passo que a intervenção direta por comando e coerção seria indispensável na relação com o animal vivida pelas antigas civilizações pastoris, de modo que, segundo a tese de Haudricourt resumida por Jacques Gernet, o Deus de judeus e cristãos é um deus de pastores que fala, ordena e exige, enquanto o Céu dos chineses não fala e apenas produz as estações, agindo continuamente por seus influxos sazonais. 10. Esse desvio, talvez de ordem antropológica, ganha amplitude cultural e filosófica à luz de Wang Fuzhi, pois o desvio pela tradição chinesa torna problemático o profundo apego ocidental ao logos, vivido como evidência e jamais sondado, e revela que a questão não é tanto se é possível dizer, mas se é preciso dizer e se há algo a dizer.