JULLIEN, François. Procès ou Création: une introduction à la pensée chinoise essai de problématique interculturelle. Paris: Librairie générale française, 1996.
Inutilidade da palavra, esterilidade da ação
1. Ao declarar que preferiria não falar e ao ser interpelado pelos discípulos sobre o que então teriam a transmitir, Confúcio responde que o próprio Céu não fala e, no entanto, as quatro estações se sucedem e todos os existentes proliferam, de modo que nenhuma necessidade de fala se impõe ao Céu.
2. Não há mensagem alguma a esperar, nem Revelação nem célebres Lições, pois nem o Céu nem o Sábio precisam falar para manifestar sua perfeição e oferecê-la como exemplo, já que o curso regular da natureza e a conduta do Sábio constituem, por si mesmos, um ensinamento perfeito e completo.
No nível do Céu, todo o curso regular da natureza é em si mesmo um ensinamento perfeito, e o bom funcionamento do Processo revela-se através do engendramento contínuo dos existentes.
No nível do Sábio, toda a sua conduta exprime espontaneamente uma virtude perfeita, dispensando-o de fundar um ensinamento em palavras.
A única diferença reside na posição inicial: o Céu se realiza por si sem precisar fazer advir sua capacidade moral, ao passo que o Sábio deve visar deliberadamente à realização de sua própria moralidade, embora, no estágio último, participe da mesma evidência natural do Céu.
A menor manifestação do grande processo da natureza, até a borra e as cinzas, constitui o ensinamento por excelência, não no sentido taoísta de uma intuição da equivalência de todos os existentes na plenitude indiferenciada do Dao, mas porque a menor parcela do real revela inteiramente a lógica indefectível do Processo.
O silêncio do Sábio não decorre de gosto pelo esoterismo ou pela preservação de um segredo, mas do fato de que cada gesto e cada ato seu dá acesso, melhor que qualquer palavra, à riqueza interior de que emana.
O exemplo basta a si mesmo, e a instrução consiste apenas em sua assimilação por imitação, conforme o duplo sentido de xue: aprender e imitar.
Como todo sentido está incluído e confundido na imediatidade da evidência dada, não cabe uma problemática do sentido, e toda palavra, enquanto mediação, introduziria um desvio, uma ruptura, perturbaria a evidência e romperia a espontaneidade da influência.
3. Toda irrupção da palavra seria uma interrupção, pois o verdadeiro ensinamento opera tacitamente, situando-se no nível da dimensão invisível continuamente atuante no mundo, encarnada pelo Céu e da qual procede toda atualização particular, a noção de shen.
Falar aqui de uma dimensão invisível, ou de espírito no sentido tradicional, não tem qualquer significado supersticioso: não se trata de invocar espíritos para impressionar o povo nem de fundar o prestígio do Sábio na fascinação de algum sobrenatural.
Nada é mais natural, pois pensar em termos de processo é situar-se na perspectiva puramente objetiva do efeito, a do yong.
Quem realiza em si uma perfeita autenticidade-integridade interior, o cheng, à imagem do Céu, faz necessariamente com que ela aja por si mesma no exterior e propague através de outrem a estimulação que a faz ser.
Da plenitude interior nasce uma influência espontânea que, por agir no estágio do invisível, não pode ter sua difusão entravada.
4. Sem magnetismo nem misticismo, a difusão da influência não encontra resistência porque o Céu, vazio de toda atualização particular, e o Sábio, liberto de todo egoísmo e parcialidade, deixam irradiar sem obstáculo uma influência universal à qual tudo se mostra naturalmente receptivo.
A iniciativa do Céu se espalha por todo o processo de existência porque ele, enquanto taixu, está vazio de qualquer atualização particular que pudesse fazer anteparo à universalidade de sua influência.
Essa ausência absoluta de parcialidade impede o Céu de desviar-se da plenitude de seu funcionamento, a noção de cheng, e por isso, sem que precise falar, tudo é receptivo a seu influxo e a adesão é imediata.
O Sábio libertou sua consciência de todo traço de egoísmo e parcialidade que pudesse opor sua individualidade à dos outros, separá-la da comunidade originária de toda existência ou isolá-la num eu particular.
Por isso o influxo de sua exemplaridade se derrama inteiramente para fora, e outrem sofre seu ascendente moral tão necessariamente quanto é permeável ao influxo vital do Céu.
No estágio último da sabedoria, a influência exercida confunde-se com a do próprio Processo do Céu e da Terra, e a natureza própria do Sábio torna-se una com a lógica atuante no mundo inteiro.
5. Diferentemente do discurso, que sempre busca convencer e persuadir, o ensinamento do Sábio que dispensa a palavra realiza uma adesão espontânea como a do Céu, pois não emana de nenhuma parcialidade e atinge o outro na própria raiz de seu devir.
O esforço da retórica é conquistar o outro, por lógica ou por sedução, e a persuasão visa forçar a consciência alheia para atraí-la a si, pressionando tanto mais quanto mais o outro é originalmente refratário.
A retórica implica um combate porque a relação em jogo é entre duas individualidades constituídas, bloqueadas em sua particularidade.
A eficiência para além do discurso atravessa o outro com facilidade porque não emana de uma parcialidade atualizada, não é suspeita de pertencer a um eu determinado e interessado, e alcança o outro num estágio mais radical e, portanto, mais receptivo de sua existência.
Coincidindo com a universalidade não intencional do Processo, o Sábio capta todo outrem na raiz de seu devir, e a ausência de qualquer traço individualizante priva o outro de apoio e ocasião para resistir.
A consciência alheia entra por si mesma em uníssono com a do Sábio, e o Processo atuante no mundo pode então funcionar livremente também através dela.
6. Diante do Processo que opera no estágio do invisível, a montante de toda atualização individual, revela-se uma incapacidade inerente à linguagem, pois as palavras pertencem inteiramente ao estágio da atualização definitiva e particular.
Não apenas o processo do Céu, situado de saída no estágio do invisível, o shen, daquilo por que as coisas são assim, escapa a todo discurso, como também a conduta do Sábio, enquanto prolonga esse processo, não pode ser plenamente expressa por palavras.
Um ensinamento verbal sobre a sabedoria permanece necessariamente superficial, pois, bloqueado na esfera da atualização concreta, não consegue ir até o fim de sua dimensão invisível.
Tudo o que exerce influência enquanto curso escapa à linguagem por ser algo em andamento, sempre difuso, sem localização precisamente atribuível e jamais isoladamente identificável.
A lógica da linguagem apreende o que se imobiliza e por isso se vê, e não o que é fluxo e influxo ainda não atualizado no visível.
Assim, nem o Céu nem o Sábio precisam falar para exercer influência, e tal influência, enquanto curso invisível, pertence legitimamente ao inefável e não pode ser expressa.
7. Elevada ao estágio supremo do inexprimível, a sabedoria dispensa o Sábio de se mover falando e ensinando para comover o mundo, pois sua eficiência, homogênea à do Céu, é de incitação-difusão e não de simples agir, de modo que o não-agir se revela como lugar-comum de toda a tradição letrada, e não exclusividade taoísta.
Vazio de individualismo, o Sábio não tem desígnio particular nem plano preciso para instaurar a boa ordem, e por isso pode esposar o curso do grande processo e difundir uma influência ao mesmo tempo indiscernível e infinita.
Quem age apoia-se na experiência pessoal e em conhecimentos particulares e limitados, institui regras e ensinamentos e envolve-se num encadeamento cada vez mais complicado e insatisfatório, atolando-se nessa complexidade.
Regido por uma consciência particular e determinada, quem age torna-se opaco para outrem, que sente sua ação como ingerência, de modo que todo agir suscita resistência e esgota-se sem alcançar verdadeiramente nada.
O Sábio, liberto das atualizações concretas individuais pela imparcialidade, exerce sua eficiência no nível do devir e não do já advindo, sempre fragmentário, descontínuo e limitado, operando na raiz de toda atualização e não em sua reificação.
Longe de paradoxo ou de intuição mística, apenas a moralidade interior, invisível e inefável, é objetivamente eficaz em relação ao curso do mundo.
Esboça-se assim uma primeira clivagem entre duas coerências: de um lado a ação ou criação, de outro a influência e o processo.
8. A palavra pertence ao mesmo modelo que a ação, e apenas a influência é eficaz porque opera sem intenção precisa, de modo continuamente difuso e geral, enquanto palavra e ação são premeditadas, referem-se a um modelo e obedecem a um plano, o que explica a extrema reticência da tradição letrada diante de regras, preceitos, normas e instituições.
Regras e normas derivam sempre de uma experiência ou conhecimento particular, marcado por parcialidade, incapaz de corresponder à globalidade do ponto de vista do Processo, pois é categoricamente impossível abarcar toda a realidade pela investigação e observação diante da infinita diversidade do que se atualiza.
A rigor, seria preciso instituir uma regra para cada coisa e cada ocasião.
Normas e cânones constituem uma fixação definitiva, correspondente a um momento da experiência adquirida, e, como imobilização arbitrária e abstrata do processo de que emanam, são rígidos demais para a diversidade das circunstâncias futuras.
Por essa dupla razão, toda instituição e toda instauração de um modelo fica deslocada em relação à unicidade do momento ou do caso presente, exercendo-se como coerção e exigindo uma imitação sempre forçada.
Já na fala e na ação individuais persiste um descompasso por serem concertadas, como se se estivesse representando, e isso vale ainda mais para todo modelo que, impondo uma falsa generalidade, é estéril e inoperante.
A influência emanada da exemplaridade do Céu e do Sábio é a única verdadeiramente geral, pois, operando aquém de toda atualização particular e momentânea, mantém-se em perfeito e constante acordo com as modificações do curso da realidade.
Enquanto regra, plano, preceito ou norma permanecem distantes como um instrumento que se pega e se larga, a exemplaridade opera imediata e espontaneamente em nós, e transformamo-nos por nós mesmos sem perceber.
Se no nível das realidades atualizadas todo inventário analítico é tão exaustivo quanto vão, quem se situa na raiz de toda atualização goza de uma perspectiva global e totalizante e não precisa adquirir, em cada circunstância, conhecimento minucioso da situação para agir conforme a ocasião.
Esposando a lógica interna do Processo, o Sábio atinge sem interrupção um ponto de perfeita centralidade e imparcialidade, o zhong, diante de toda ocasião e experiência.
Nada disso autoriza erigir regras ou preceitos: a constatação e a experiência impõem-se por si à evidência e escapam ao esforço de construção teórica, que também dispensam, restando no plano da formulação lógica apenas a platitude definitiva de uma tautologia: aquilo por que o Sábio é Sábio, aquilo por que o Céu é Céu.
9. Por serem um povo de cultivadores e não de pastores, os chineses teriam sido naturalmente mais atentos à influência difusa, indireta e invisível que emana do ciclo das estações, ao passo que a intervenção direta por comando e coerção seria indispensável na relação com o animal vivida pelas antigas civilizações pastoris, de modo que, segundo a tese de Haudricourt resumida por Jacques Gernet, o Deus de judeus e cristãos é um deus de pastores que fala, ordena e exige, enquanto o Céu dos chineses não fala e apenas produz as estações, agindo continuamente por seus influxos sazonais.
10. Esse desvio, talvez de ordem antropológica, ganha amplitude cultural e filosófica à luz de Wang Fuzhi, pois o desvio pela tradição chinesa torna problemático o profundo apego ocidental ao logos, vivido como evidência e jamais sondado, e revela que a questão não é tanto se é possível dizer, mas se é preciso dizer e se há algo a dizer.
Trata-se de muito mais do que uma consciência dita oriental do inexprimível.
Antes mesmo do conteúdo da Revelação religiosa exigir fé, já se pressupõe uma confiança prévia na oportunidade da palavra, um pacto lógico de consequências conhecidas.
A palavra como Revelação privilegiou uma problemática sobrenatural do sentido como História ou Destino, em vez de tematizar o fundo de evidência e de bom senso manifestado pelo curso das coisas.
A palavra como Ação creditou ensinamentos, normas e regulamentos com o poder de impor voluntariamente seu modelo, em vez de valorizar o benefício imanente a toda capacidade de influência.
O pensamento chinês mostrou-se menos sensível aos prestígios manifestos da Ação, no sentido de Am Anfang war die Tat, do que à eficácia invisível da interação continuamente atuante no mundo, da qual a influência exercida pelo Sábio não passa de um caso particular.