1.1 A evidência da natureza

JULLIEN, François. Procès ou Création: une introduction à la pensée chinoise essai de problématique interculturelle. Paris: Librairie générale française, 1996.

1. “No princípio” havia a alternância: inspiração e expiração, o dia e a noite, o calor do verão e o frio do inverno. Ir e vir, abrir e fechar. O dia e a noite são como a respiração do céu, reproduzindo o verão e o inverno o ritmo do dia e da noite. Só a escala difere, sendo toda manifestação de existência regida por um vaivém ininterrupto: contração-expansão, desdobramento-recolhimento.

2. O dia e a noite se alternam, o sol se põe quando a lua se ergue, mas o céu permanece idêntico a si mesmo e prossegue seu curso sem descontinuidade — manifesto ou oculto. Embora se torne invisível para nós, menciona Wang Fuzhi como evidência, o mundo é tão real durante a noite quanto durante o espetáculo do dia.

3. Porque o ir-embora não esgota o retorno, o próprio ir-embora não poderia ter fim: porque se renova sem cessar, o curso do rio flui sem parar e, do mesmo modo, a vegetação sempre floresce sem definhar.

4. Símbolos de alternância e de funcionamento — de funcionamento por alternância: haveria ainda mais a meditar sobre tais motivos, ao fio da leitura de Wang Fuzhi. Nem o “muro” cuja opacidade contínua não poderia abrir-se, nem tampouco o “buraco” no muro que, sempre aberto, não poderia fechar-se.

5. Ou ainda: a alternância de concentração-dispersão da energia material no seio da latência original é semelhante à da água, que ora se condensa num bloco de gelo inteiramente compacto, ora derrete e se dilui no seio da massa ambiente.

6. Congele-se em água ou ferva em espuma, essa água nada pode fazer quanto a isso, tratando-se de pura necessidade natural: do mesmo modo, vida e morte — a alternância do visível e do latente — não podem depender de intenção alguma. Nem mau desígnio, nem Providência.

7. Imagens ainda: que a latência (como todo esse grande vazio do céu) permaneça continuamente animada, nada o atesta melhor que as nuvens; que uma disseminação generosa se exerça em profusão através de todos os existentes, nada o faz sentir melhor que a chuva. Penetração — propagação — maturação: sutileza (da passagem), mas fecundidade (da difusão).

8. Essa evidência da dualidade-complementaridade, constitutiva de toda realidade, revela-se de modo tanto mais tangível na relação do Céu e da Terra. O Céu está em cima e manifesta sua iniciativa perseverante ao penetrar a Terra; a Terra está embaixo e manifesta sua submissão contínua ao abrir-se ao Céu.

9. Exemplos, imagens, comparações: trata-se aqui de mais que simples ilustração, pois a temática que organizam, através do texto de Wang Fuzhi, nos faz comunicar com certa atenção do olhar, revela-nos certas escolhas determinantes em nossa relação com o mundo.

10. Todos esses motivos se referem ao ciclo benéfico da natureza. O que nos lembra que os chineses foram desde muito cedo um povo de cultivadores, antes que de viver da pecuária ou da coleta, sendo por isso mesmo levados a estar mais atentos à fecundidade da terra que ritma a alternância das estações.