Illich

Ivan Illich (Viena, 1926 – Bremen, 2002) foi ordenado sacerdote em Roma em 1951 e atuou nas dioceses de Nova York, Ponce (Porto Rico) e Cuernavaca (México). Tendo interrompido voluntariamente o exercício público do sacerdócio (1968-1969) devido a divergências com as autoridades do Vaticano, ele continuou, de outras formas, uma atividade de oposição à agressão do Ocidente desenvolvido contra as culturas e formas de vida tradicionais, o que lhe rendeu, na década de 1970, notoriedade e prestígio internacionais.

Jean-Michel Djian. Ivan Illich.

Illich foi julgado com dureza em seu tempo e continua a sê-lo, pagando o preço que todos os profetas pagam por haver tido razão contra os espíritos de sua época — quando muito é condescendentemente avaliado, quando menos, simplesmente ignorado.

O caos pandêmico que abalou o planeta em 2020 oferece razão suplementar para arrancar das entranhas do passado algumas de suas profecias, todas fundadas num ataque em regra das vacas sagradas do imaginário ocidental.

Illich não pertence à categoria dos pensadores ordinários, muito menos à dos pregadores carismáticos que se comprazem em colocar de joelhos milhares de fiéis consententes — é antes a vítima expiatória de uma época fascinada pelas virtudes afrodisíacas do crescimento, do consumo e do entretenimento.

Ninguém jamais soube realmente por que Illich era “um verdadeiro fenômeno”, como escreveu Frédéric Gaussen em Le Monde de 11 de abril de 1972 — e seus próprios amigos se veem embaraçados para defini-lo, pois o próprio interessado era incapaz de fazê-lo.

A impossibilidade de enquadrar Illich em qualquer categoria decorre do fato de ele embaralhar suas identidades tão depressa quanto fabrica novas — quando um aduaneiro de Orly lhe perguntou a profissão, respondeu simplesmente: “Sou escritor público.”

Sem a obra que atesta sua existência e sem seus fiéis que sopram sobre as brasas de seu gênio em todo o mundo, Illich permaneceria uma personagem de romance — um imprecador inventado de ponta a ponta por amigos da Terra.