Ivan Illich (Viena, 1926 – Bremen, 2002) foi ordenado sacerdote em Roma em 1951 e atuou nas dioceses de Nova York, Ponce (Porto Rico) e Cuernavaca (México). Tendo interrompido voluntariamente o exercício público do sacerdócio (1968-1969) devido a divergências com as autoridades do Vaticano, ele continuou, de outras formas, uma atividade de oposição à agressão do Ocidente desenvolvido contra as culturas e formas de vida tradicionais, o que lhe rendeu, na década de 1970, notoriedade e prestígio internacionais.
Jean-Michel Djian. Ivan Illich.
Illich foi julgado com dureza em seu tempo e continua a sê-lo, pagando o preço que todos os profetas pagam por haver tido razão contra os espíritos de sua época — quando muito é condescendentemente avaliado, quando menos, simplesmente ignorado.
O New York Times de 4 de dezembro de 2002, no dia seguinte ao de seu desaparecimento, resumiu seu percurso em quatorze palavras insignificantes: “Um padre tornado filósofo cujas ideias atraíram os jovens nos anos 1970.”
Meio século exato após a publicação de Liberar o futuro, um dos pioneiros mais singulares da ecologia radical revela-se sob outra luz — não apenas como o algoz da sociedade industrial, mas como um espírito de exceção que pressentiu o considerável esfacelamento das instituições democráticas e seu corolário, o fim do político.
O caos pandêmico que abalou o planeta em 2020 oferece razão suplementar para arrancar das entranhas do passado algumas de suas profecias, todas fundadas num ataque em regra das vacas sagradas do imaginário ocidental.
Estado, Igreja, técnica, progresso, escola, saúde, cidade e democracia — todas essas instituições foram objeto de seu ataque.
Como todos os iconoclastas ou iluminados que fazem ofício de se distinguir para predizer o melhor e o pior, Illich ilumina à sua maneira a sociedade que adveio.
Illich não pertence à categoria dos pensadores ordinários, muito menos à dos pregadores carismáticos que se comprazem em colocar de joelhos milhares de fiéis consententes — é antes a vítima expiatória de uma época fascinada pelas virtudes afrodisíacas do crescimento, do consumo e do entretenimento.
Illich colocou o eclesiástico, o comunista e o capitalista no mesmo saco para restabelecer uma verdade: os poderes religioso, revolucionário e financeiro provinham do mesmo tonel — o das Danaides.
A questão que se coloca é que crédito político é possível atribuir a um ser tão livre quando sua extravagância sempre perturba o pensamento bem-comportado.
Ninguém jamais soube realmente por que Illich era “um verdadeiro fenômeno”, como escreveu Frédéric Gaussen em Le Monde de 11 de abril de 1972 — e seus próprios amigos se veem embaraçados para defini-lo, pois o próprio interessado era incapaz de fazê-lo.
Filósofo, historiador, teólogo, antropólogo, ecologista, eclesiólogo, cristalógrafo, politólogo, pesquisador, ensaísta, professor — nenhum rótulo se lhe ajusta com precisão.
O escritor e jornalista Jean Lacouture confessou certa vez ao mesmo jornal ter-lhe chamado de “prelado dos trópicos” simplesmente porque não sabia como nomeá-lo.
O professor do Collège de France Pierre Rosanvallon, que o frequentou regularmente entre 1974 e 1977, dizia ao autor que Illich lhe fazia pensar “nesses mestres japoneses de artes marciais, professores de energia e resistência, fazendo compreender a seus interlocutores que a definição de um bom treinamento é a de nunca ter fim.”
Os inimigos do “mestre” fizeram dele um “guru mascarado” — uma espécie de evangelista do melhor dos mundos posto graciosamente à disposição das cohortes de suaves sonhadores que assolam regularmente o planeta há dois mil anos.
A impossibilidade de enquadrar Illich em qualquer categoria decorre do fato de ele embaralhar suas identidades tão depressa quanto fabrica novas — quando um aduaneiro de Orly lhe perguntou a profissão, respondeu simplesmente: “Sou escritor público.”
É impossível capturar a identidade real de Ivan Illich e ainda menos instalá-lo comodamente entre o Céu e a Terra, o Leste e o Oeste, a Esquerda e a Direita.
Está em lugar nenhum e em toda parte ao mesmo tempo: sedentário e nômade, asceta e convivial, silencioso e falador, provocador e conciliador, libertário e reacionário, afável e altivo.
É por si só o precipitado das contradições de um Jano obcecado simultaneamente pela liberdade e pela fé.
Sem a obra que atesta sua existência e sem seus fiéis que sopram sobre as brasas de seu gênio em todo o mundo, Illich permaneceria uma personagem de romance — um imprecador inventado de ponta a ponta por amigos da Terra.
O renegado da Igreja corrompida era um bon vivant intelectualmente armado para fuziar os preconceitos, organizado em bando para desentranhar a estupidez, montá-la e bombardeá-la sob o nariz daqueles cujo ofício é encarnná-la.
Constatar hoje que o definhamento da Igreja, da escola, dos hospitais, do meio ambiente, dos transportes e também dos valores humanistas herdados do Iluminismo era previsível mostra até que ponto o caminho tomado foi equivocado.
É uma lição também para aqueles que, a cada manhã que Deus dá, imaginam que o destino humano está nas mãos exclusivas dos poderosos.