HARMAN, Graham. Object-Oriented Ontology: A New Theory of Everything. Londres: Penguin Books, 2018 (Pelican Books).
Introdução
1. Em 8 de novembro de 2016, os eleitores dos Estados Unidos elegeram presidente o empresário cercado de escândalos e astro de reality show Donald J. Trump, apesar de centenas de declarações controversas e de negações de afirmações registradas em vídeo, resultado tão chocante que suscitou inúmeras reflexões de intelectuais públicos, desde a posição contrária de Žižek, para quem uma vitória de Clinton traria apenas mais mediocridade neoliberal e a de Trump ao menos galvanizaria novas coalizões, até a reação mais comum de ver na vitória o sinal de um mundo sem respeito pela verdade, sancionada pelo Oxford English Dictionary ao eleger pós-verdade a palavra do ano, definida como circunstâncias em que fatos objetivos influenciam menos a opinião pública que apelos à emoção e à crença pessoal.
2. Segundo essa definição, o melhor remédio para a suposta condição de pós-verdade seriam os fatos objetivos, cuja apreensão se chama conhecimento, entendido como reconhecimento humano de uma verdade, e como hoje as descobertas da ciência constituem o padrão-ouro do conhecimento e da verdade, papel outrora exercido pela Igreja, o sucesso das ciências naturais e de suas aplicações técnicas torna-se a referência última contra os apelos de Trump à emoção, na linha do velho lema de esquerda de dizer a verdade ao poder e da proposta do astrofísico Neil deGrasse Tyson de um país virtual, Rationalia, cuja constituição determinaria que toda política se baseasse no peso das evidências, na esperança de que o método científico livrasse a política do conflito irracional.
3. Verdade e conhecimento são assim propostos como antídoto a um relativismo, antes atribuído à esquerda e agora instalado na direita, que inventa fatos alternativos, segundo a expressão de Kellyanne Conway, mas nem sempre está claro onde encontrá-los, seja nas artes e na arquitetura, regidas pelo gosto e por isso desvalorizadas diante da ciência, da engenharia e da medicina, seja na política, cujos grandes protagonistas, como Lincoln ou Atatürk, não se reduzem a fórmulas replicáveis, seja na própria ciência, cujas teorias são regularmente derrubadas apesar das tentativas pouco convincentes dos realistas estruturais de preservar um núcleo matemático permanente, enquanto verdades de historiadores são descartadas por outros, firmas de engenharia cometem erros fatais e religiões e ateus como Stálin e Pol Pot massacram milhões, de modo que o maior herói intelectual da Grécia antiga foi Sócrates, que nada afirmava saber, cuja filosofia significa amor à sabedoria e não sua posse, diferença ignorada por quem exorta a filosofia a seguir o caminho seguro da ciência.
4. A Ontologia Orientada a Objetos, abreviada OOO e chamada Triplo O, é uma escola filosófica relativamente nova que leva Sócrates a sério, pois ninguém possui de fato conhecimento ou verdade, que não podem proteger contra a degeneração da política, e o verdadeiro perigo para o pensamento não é o relativismo, mas o idealismo, de modo que o remédio não está no par verdade e conhecimento, mas na realidade, rochedo contra o qual todos os navios naufragam e que, sendo sempre radicalmente diferente de sua formulação e nunca encontrada diretamente, deve ser abordada indiretamente, princípio central do retraimento das coisas ao acesso direto, o que não deixa apenas enunciados negativos sobre o incognoscível, já que a maior parte da cognição não é nem prosa clara de verdade nem gesticulação poética vaga, como mostram a estética, a metáfora, o design, a retórica e a própria filosofia, que tem grande valor cognitivo sem ser conhecimento e se torna força perturbadora numa época que invoca o conhecimento como cura de todos os males, enquanto os charlatães da política se combatem melhor exigindo-lhes incessantemente que encarem a realidade.
5. Quase desconhecida do público uma década antes, a OOO tornou-se uma das teorias filosóficas mais provocativas nas artes e nas humanidades, atacada por Žižek e seus seguidores por não dar lugar ao sujeito humano, apropriada por Bruno Latour na expressão política orientada a objetos, incluída pela ArtReview entre as cem forças mais influentes do mundo da arte e sobretudo influente na arquitetura, onde organizadores de grandes conferências afirmam que ela eclipsa Derrida e Deleuze e Mark Foster Gage, de Yale, a vê como antídoto à ênfase deleuziana no devir e à justificação da arquitetura por suas relações e não por suas qualidades próprias, carisma que atraiu até celebridades como Björk, correspondente de Timothy Morton, e o ator Benedict Cumberbatch, ouvinte de uma conferência sobre o tema em Londres em 2014.
6. A Ontologia Orientada a Objetos, também chamada Filosofia Orientada a Objetos, remonta ao fim dos anos noventa e ganhou ampla influência a partir da primeira conferência sobre o tema, na Georgia Tech, em abril de 2010, com obras de Ian Bogost, Timothy Morton e Levi R. Bryant, e embora nem todas as suas ideias sejam novas, combina-as de modo inédito segundo princípios básicos, a atenção igual a todos os objetos, humanos ou não, naturais ou culturais, reais ou fictícios, a não identidade entre objetos e suas propriedades, cuja tensão produz toda mudança, a divisão dos objetos em reais, existentes independentemente de afetar algo, e sensuais, existentes apenas em relação a um objeto real, a relação apenas indireta entre objetos reais por meio de um objeto sensual, a divisão das propriedades também em reais e sensuais, as quatro permutações daí resultantes, raiz do tempo, do espaço, da essência e do eidos, e a maior proximidade da filosofia com a estética que com a matemática ou a ciência natural.
7. A OOO provocou fortes reações em campos como estudos afro-americanos, arqueologia, arquitetura, coreografia, design, ecologia, feminismo, teoria literária, estudos de mídia, música, teoria política, psicanálise, teologia, teoria dos videogames e artes visuais, amplitude semelhante à de correntes continentais agrupadas como pós-modernismo ou teoria e às vezes denunciadas como fraudes reluzentes, de Lacan, Barthes, Foucault, Derrida, Irigaray, Žižek e Butler a Heidegger e Latour, mas, enquanto muitas delas afirmam que a realidade é construída pela linguagem, pelo poder ou pelas práticas culturais, a OOO é uma filosofia francamente realista, que sustenta a existência do mundo externo independentemente da consciência humana, tese aparentemente banal que contraria um século de filosofia continental e conduz a direções surpreendentemente alheias ao senso comum.
8. Não há vínculo essencial entre a OOO e as linguagens de programação orientadas a objetos, como C++ ou Java, das quais apenas tomou a expressão, mas há traços comuns, pois, diferentemente dos programas antigos, sistemáticos e holísticos, os programas orientados a objetos usam objetos independentes cuja informação interna permanece encapsulada e oculta aos demais e que podem ser reaproveitados em novos contextos sem alteração interna, e essa opacidade mútua dos objetos, e não apenas em relação ao usuário, é alheia à história da filosofia ocidental, que conheceu a incognoscibilidade do real nas coisas em si de Kant, no ser de Heidegger e no Real de Lacan, mas não a ideia de que os objetos nunca se tocam plenamente uns aos outros, compromisso com a escuridão mútua que permite resistir às filosofias holísticas para as quais tudo se define por suas relações e sustentar que os objetos, reais, fictícios, naturais, artificiais, humanos ou não, são mutuamente autônomos, retraídos no sentido heideggeriano, e só entram em relação em casos especiais que exigem explicação e um terceiro termo mediador.
9. Quanto ao terceiro O, de ontologia, a relação de empréstimo se inverte, pois a ciência da computação tomou da filosofia o termo ontologia, que pode ser usado como sinônimo de metafísica, ambos designando a parte da filosofia que trata da estrutura da realidade enquanto tal, sendo metafísica, segundo a história aceita, o nome dado pelos editores de Aristóteles aos escritos situados depois da Física, sobre substâncias, acidentes e o papel de Deus no cosmos, logo entendida como o que vai além do mundo físico e usada pejorativamente na tradição continental desde Heidegger e Derrida, enquanto ontologia, estudo do ser, presente desde cedo na filosofia grega e ainda antes na Índia, só foi cunhada em 1613 e é vista como termo mais rigoroso e respeitável, uso pejorativo que não convém seguir, preservando-se os dois termos como sinônimos também por recurso estilístico.
10. O propósito é explicar com a maior clareza possível os conceitos básicos da OOO e transmitir o entusiasmo por esse estilo de filosofia, tomando como modelo as Conferências introdutórias sobre psicanálise de Freud, proferidas em Viena durante a Primeira Guerra Mundial, pois, independentemente do valor de suas teorias, Freud é mestre indiscutível da apresentação literária de ideias difíceis, partindo dos atos falhos, passando pelos sonhos e chegando às neuroses, assim como aqui se parte dos aspectos mais simples da OOO para chegar aos mais intrincados.
11. O capítulo 1, Uma nova teoria de tudo, introduz a noção de objeto, que para a OOO se divide apenas em real e sensual, e discute o que há de errado na filosofia moderna desde Descartes e sobretudo Kant, que no entanto é sob um aspecto um ancestral importante da OOO.
12. O capítulo 2, A estética é a raiz de toda filosofia, explica por que a filosofia tem menos em comum com a ciência e mais com as artes do que se costuma crer, destacando o papel cognitivo da metáfora, mais importante para a filosofia que enunciados proposicionais discursivos como o gato está no tapete ou a água ferve a cem graus, tão frequentemente tomados por modelo.
13. O capítulo 3, Sociedade e política, discute as implicações da OOO nesses campos e a teoria ator-rede de Latour, da qual a OOO diverge na teoria social, por interessar-se mais pela natureza interna das coisas que por suas ações e por sustentar que poucos eventos importantes marcam um objeto até sua maturidade, declínio e morte, e com a qual concorda em política, evitando a polarização entre esquerda e direita em favor da distinção entre política da verdade e política do poder, ambas a substituir, e reconhecendo o papel crucial das entidades não humanas na estabilização da pólis humana.
14. O capítulo 4, Relações indiretas, mostra que a interação entre objetos, aparentemente a coisa mais óbvia do mundo, é mais paradoxal do que parece, problema levado a sério pelos ocasionalistas árabes e europeus e depois por Kant e Hume, todos partilhando os mesmos pressupostos equivocados sobre a causalidade, o que conduz à estrutura quádrupla dos objetos, pilar metodológico da OOO, e à questão do que resta do conhecimento após a rejeição do literalismo e do acesso direto, mostrando que a OOO não estetiza a filosofia nem despreza o conhecimento, mas apenas rejeita a ideia de conhecimento como presença direta da realidade.
15. O capítulo 5, A Ontologia Orientada a Objetos e seus rivais, esclarece a natureza da OOO distinguindo seu tratamento dos objetos das posições de Derrida e Foucault, talvez os pensadores franceses mais dominantes do último meio século, nenhum dos quais faz aos objetos a justiça que a OOO exige.
16. O capítulo 6, Abordagens variadas da Ontologia Orientada a Objetos, discute os principais autores que trabalham no idioma da OOO, Ian Bogost, Levi R. Bryant e Timothy Morton, os companheiros de viagem Jane Bennett e Tristan Garcia, que se aproximam dela sem aceitar seus pressupostos e métodos, e jovens arquitetos e teóricos como Mark Foster Gage, Erik Ghenoiu, David Ruy e Tom Wiscombe, que escreveram sobre o papel da OOO em sua disciplina.
17. O capítulo 7, Panorama da Ontologia Orientada a Objetos, conclui com um resumo das principais máximas orientadoras do movimento.
18. Os dois objetivos principais são que o leitor que chegar ao fim compreenda a OOO tão bem quanto qualquer um, exceto alguns veteranos, e que a leitura seja a mais agradável possível, já que, havendo tantos livros e tantas outras coisas a fazer, cabe sempre ao autor tornar o tema mais interessante que todas as alternativas, sendo tão vergonhoso entediar milhares de leitores que investiram tempo e dinheiro de boa-fé quanto entediar convidados numa festa.
19. Os agradecimentos vão a Ananda Pellerin e Thomas Penn, da Penguin, que persuadiram à escrita do volume, a Jane Birdsell, que corrigiu dezenas de erros e aprimorou o estilo, aos volumes da série Pelican Introductions, como Human Evolution de Robin Dunbar e Economics: The User's Guide de Ha-Joon Chang, que inspiraram a estrutura dos capítulos, e ao professor emérito Michael Flower, da Portland State University, autor dos diagramas.