CONTATO COM A REALIDADE HUMANA

«Uma razão que só dá razão às matemáticas fornece, por si só, a prova de que perdeu o contato com a realidade humana e se desenvolve à maneira do “geometrismo mórbido” descrito pelos psiquiatras no caso de certos doentes, levados pela vertigem de um raciocínio vazio, sem relação com a situação real. O filósofo troca a presa pela sombra quando aceita o esqueleto emaciado de uma realidade despojada pelo cientista de toda a sua densidade concreta. Mais exatamente, o filósofo comete aqui um erro do qual o cientista se guardou cuidadosamente: o cientista limita-se ao seu domínio e não pretende substituir a realidade cotidiana por seus esquemas. A técnica só tem autoridade dentro dos limites do campo experimental previamente delimitado, de modo que a afirmação verdadeira na boca do cientista pode tornar-se absurda quando o filósofo a aplica sem discernimento. Em suma, se o filósofo se contenta em repetir a afirmação do cientista, não se vê para que serve sua intervenção. Mas se ele acrescentar qualquer coisa de sua própria autoria aos resultados obtidos pela ciência, tem todos os motivos para pensar que se enganará, como aconteceu com Kant, quando atribuiu um valor definitivo à física de Newton, que não passava de uma etapa na história da ciência. » (G. Gusdorf, Tratado de Metafísica, Paris, A. Colin, 1956, p. 92.)

«As descobertas mais extraordinárias da física remetem sempre para uma instância metafísica, na medida em que exigem, a cada vez, ser reclassificadas no âmbito do humano. A ciência não é juíza de si mesma e o cientista que sai triunfante de seu laboratório encontra-se, por vezes, desorientado diante das consequências incalculáveis que a pesquisa pura pode acarretar para a felicidade ou a infelicidade dos homens. Foi o que aconteceu com os matemáticos, físicos e técnicos de grande valor que colaboraram no desenvolvimento da bomba atômica, quando tomaram consciência dos possíveis significados de suas intervenções para o futuro da espécie humana. Alguns deles quase perderam a razão; outros deram provas de instabilidade moral que lhes renderam alguns escândalos judiciais notáveis. Essas reações significavam que os homens de ciência em questão descobriam, sob a forma de um caso concreto particularmente marcante, a existência da metafísica. Eles vivenciavam, à sua maneira, o “espanto inaugural”. Na verdade, sempre que uma nova descoberta põe em causa o equilíbrio da civilização, para além dos problemas técnicos, surge o questionamento metafísico, acompanhado da necessidade de um reajuste dos valores estabelecidos.” (G. Gusdorf, Traité…, p. 97.)

«A bela segurança dos resultados científicos esconde incertezas fundamentais. Se se deixasse desviar, o metafísico só conseguiria ver surgir diante de si dificuldades adicionais, ao mesmo tempo em que esqueceria sua tarefa essencial… O homem do metafísico é ao mesmo tempo o do fisiologista, do historiador, do psicólogo, do médico; isto é, ele escapa ao fisiologista, ao psicólogo, ao médico. Não pode, portanto, haver conflito de competência: o cientista tem sempre razão contra o metafísico, dentro dos limites de sua especialidade, e, por exemplo, o metafísico ou o teólogo que pretenda conhecer a astronomia melhor do que Copérnico ou Galileu, a biologia melhor do que o biólogo, ridiculariza-se para sempre. Por outro lado, o metafísico tem sempre razão contra o cientista quando este, inconsciente de seus limites, pretende fazer metafísica… O biólogo e o médico se extraviam quando imaginam que o objeto de sua experiência é o homem integral. Eles operam sobre um organismo cujas determinações objetivas fornecem apenas certos elementos a partir da realidade humana. O filósofo é o homem da totalidade, da composição global onde todos os significados são retomados e arbitrados em função da pessoa.” (G. Gusdorf, ib., p. 101.)