FUNÇÃO DE DEUS NA FILOSOFIA

FG1965

A função-Deus permanece, portanto, em toda filosofia, como a instância última que consuma o estabelecimento do homem na totalidade, fixando-lhe seu lugar ontológico no horizonte dos valores… … Deus é, para o filósofo, o recurso supremo, o ser além da existência, e que só Ele pode dar sentido à existência, o lar imaginário, mas real, do outro lado do espelho, onde as intenções se cruzam, onde os valores se reconciliam, fundamento injustificável de todos os fundamentos, lugar escatológico de uma esperança sem a qual a realidade não passaria de uma fantasmagoria sem razão e sem objetivo.

A própria ideia dessa função-Deus parecerá, sem dúvida, escandalosa, especialmente para os filósofos, cujo pensamento reconhece a inexistência da divindade ou se ergue em toda a sua rebelião para expulsar do domínio humano qualquer lembrança das representações teológicas. A ideia de Deus intervém, no entanto, como um horizonte necessário da meditação, assim que esta se esforça por situar o homem na totalidade. A totalidade do Objeto se esconde nas contradições do infinito atual, mas da mesma forma nos escapa a totalidade do Sujeito, na qual se afirmariam o conjunto das potências do espírito e da vontade, a mais alta realização dos valores reconciliados. Toda filosofia deve situar o homem, ou seja, marcar seu lugar no Todo. Assim, cada pensador, apesar das aparências por vezes contraditórias do vocabulário empregado, deve elaborar uma teologia, um discurso da totalidade atual ou recusada, que funde os significados humanos em uma referência escatológica.

Seria necessário, sem dúvida, renunciar às cautelas contemporâneas, ou aos ressentimentos, e restituir à metafísica sua antiga denominação de teologia. É somente no contexto da tríade tradicional: o homem, o mundo e Deus, quaisquer que sejam as soluções adotadas no fim das contas, que se pode debater o destino da pessoa. O homem é esse ser inacabado que não se resigna à sua inacababilidade, e a metafísica é essa função de desligamento, de superação do dado natural, na qual se exerce o atributo ontológico graças ao qual a pessoa é sempre mais do que é, e outra. As ideias do mundo e de Deus são, em primeiro lugar, ideias transcendentais, ou seja, visões da razão, não suscetíveis de um preenchimento adequado, e que desmentirão todos os contínuos com os quais o sujeito estaria disposto a se contentar. Essa negociação inevitável define o próprio programa da atividade do pensamento, em seu desenvolvimento mais amplo.

«Fazer metafísica», escrevia Maurice Blondel, «é, pode-se dizer, procurar determinar todas as condições do conhecimento do universo em função de si mesmo, e de si mesmo em função do absoluto transcendente.» A fórmula caracteriza bastante bem qualquer empreendimento filosófico. G. Gusdorf, Traité de Métaphysique, op, cit. p. 380-391.