No clímax do combate, a paralisia do chefe no alto da Torre o transforma em um espectador crucificado, incapaz de agir ou falar, mas com a percepção visual exacerbada, momento em que a imagem do redemoinho se cristaliza tanto no duelo externo entre Hermógenes e Diadorim quanto na desordem interna, unificadas pelo provérbio o diabo na rua no meio do redemunho, que atua como o eixo metafísico onde se fundem a estória, a narração e a escrita, paralisando o fluxo psicomental do herói.
A interpretação demoníaca do transe é desconstruída pelo testemunho das personagens Guirigó e Borromeu, que confirmam a ausência de sinais clássicos de possessão como o espumar pela boca, e pela própria intuição do protagonista que, num ato falho revelador ou retificação subconsciente, substitui o nome de Satanás pela palavra Sertão, sendo este lapso confirmado oracularmente pelo cego Borromeu, indicando que é a realidade caótica e mineral do Sertão primitivo que opera a fixação e a condensação alquímica do sujeito.
O desenlace do episódio no sobrado representa a consumação da Obra em Branco, onde a extrema secura e o calor do combate operam a separação final dos componentes do ser, ilustrada pela chegada de Hermógenes como o homem que se desata e pela concomitante desagregação de Riobaldo, cuja alma perde o corpo e cujo espírito ígneo se liberta num precipício branco, concluindo o processo de depuração onde o herói é reduzido à sua essência solitária e atemporal.
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*PS: UTÉZA, Francis. JGR: metafísica do grande sertão. São Paulo, SP, Brasil: Edusp, 1994.*