8 Vico, Marx e Heidegger

GRASSI, Ernesto. Vico and Humanism: Essays on Vico, Heidegger, and Rhetoric. Nova Iorque: Peter Lang, 1990.

I

1. A afinidade entre Vico e Marx admite diferenças importantes, enquanto a inclusão de Heidegger exige uma justificativa própria, pois o debate entre marxismo e existencialismo, por si só, não estabelece o vínculo entre os três pensadores.

2. O pensamento de Vico e a tradição humanista em que ele se insere ocupam uma posição central na investigação das relações entre o marxismo e o pensamento heideggeriano da existência.

3. Vico, Marx e Heidegger convergem na recusa da metafísica tradicional, embora o primeiro conteste a dedução cartesiana da realidade a partir de uma verdade inicial, o segundo rejeite a dedução dialética e apriorística da história em Hegel e o terceiro questione a primazia da verdade que caracteriza a metafísica ocidental.

4. Vico situa nos universais fantásticos a fonte do devir histórico, Marx atribui ao trabalho a mediação que funda a historicidade e Heidegger confere à poesia uma função decisiva na ontologia do desocultamento, aproximando-se assim da tradição humanista que ele próprio rejeita.

5. A primazia heideggeriana da palavra poética sobre a palavra racional tem seu fundamento na diferença ontológica entre o ser e os entes.

6. A aproximação entre a diferença ontológica de Heidegger e os universais fantásticos de Vico permite perguntar pelo vínculo teórico entre ambos e por suas consequências para a concepção marxiana da história.

II

1. A introdução do cogito como nova verdade primeira preserva o esquema da metafísica tradicional, pois Descartes mantém tanto o procedimento dedutivo quanto a primazia da questão da verdade.

2. A crítica marxiana a Hegel ainda pressupõe como dados a natureza, o ser humano e a sociedade, enquanto Vico e Heidegger investigam a abertura em que esses entes e o próprio trabalho adquirem sentido, recorrendo, respectivamente, à fantasia e ao engenho e ao desocultamento do ser que dá primazia à palavra metafórica.

3. A tese heideggeriana do fim da metafísica ocidental decorre de seu confinamento à questão da verdade e ao discurso racional, que deixam sem exame o desocultamento do ser.

4. O fim da filosofia, na época presente, significa a consumação de um percurso histórico em que a tradição filosófica ocidental reúne suas possibilidades e alcança seu limite.

5. A investigação heideggeriana da manifestação dos entes e da palavra que a torna possível desenvolve-se na Introdução à metafísica, em Conferências e artigos e em A caminho da linguagem.

6. A tradição socrático-platônica toma os entes como dados e, ao perguntar por sua relação com o pensamento, estabelece a primazia da verdade lógica.

7. A clareira (Lichtung) é a abertura (Offenheit) em que os entes podem manifestar-se, à maneira do espaço liberado pelo desbaste da floresta, que acolhe tanto a luz quanto a escuridão e torna possível a experiência do presente e do ausente.

8. A luz natural da razão (lumen naturale) pressupõe a clareira, pois somente nessa abertura podem aparecer as coisas, os seres humanos, as divindades e as artes, juntamente com a historicidade do Dasein (ser-aí).

9. O desocultamento (Unverborgenheit), reconhecível nos fragmentos de Heráclito e Parmênides, é mais originário do que a verdade entendida como relação entre pensamento e entes ou entre sujeito e objeto.

10. A compreensão da alétheia como desocultamento remete à abertura em que ser e pensamento se copertencem, questão esquecida pela metafísica ocidental e retomada, em outro registro, pela clareira (luce) da Ciência nova, na qual podem aparecer a cidade, o templo e o ser humano em sua humanidade.

III

1. A primazia heideggeriana do desocultamento do ser sobre a verdade dos entes torna atual a tese de Vico segundo a qual a fantasia e a palavra metafórica fundam o mundo humano, como figura o trabalho de Hércules ao abrir com o fogo sagrado, em resposta ao terror diante da natureza, o espaço das instituições.

2. A diferença ontológica entre ser e entes torna-se perceptível quando se considera que a natureza, as plantas, os animais e os seres humanos só podem aparecer em sua significação própria à luz do que se compreende pelo verbo ser.

3. A tentativa de identificar o ser mediante uma determinação racional incorre em contradição porque transforma em objeto aquilo que já possibilita toda identificação de objetos.

4. O ser é simultaneamente o termo mais geral e o fundamento singular de tudo o que se afirma dos entes, mas escapa à definição porque toda determinação o converte em mais um ente.

5. Embora costume permanecer esquecido por já estar pressuposto em toda investigação dos entes, o ser é a condição necessária de suas determinações e abre a possibilidade de distinguir sujeito e objeto, pela qual o sujeito pode identificar-se.

6. O princípio de razão suficiente rege o pensamento dos entes ao retirá-los do domínio da opinião vacilante e fixar sua identidade por uma determinação racional, de modo que sua validade se circunscreve ao âmbito dos entes.

7. A interpretação heideggeriana do princípio de razão suficiente reserva aos entes a exigência de uma razão explicativa e compreende o ser como fundamento que, permanecendo sem fundamento, deixa cada ente ser o que é.

8. A dedução metafísica a partir de um ente primeiro permanece no domínio das determinações lógicas e deixa escapar a abertura originária do ser, na qual os entes e as questões a seu respeito podem surgir.

IV

1. A primazia da palavra poética aproxima Vico e Heidegger porque nela se desvela o ser e se estabelece a morada em que a existência humana encontra abrigo e as coisas podem manifestar-se.

2. A partir de suas leituras dos presocráticos, de Sófocles, de Hölderlin e de Trakl, Heidegger compreende o poeta como fundador do lugar e do tempo do Dasein (ser-aí), tese que Marcuse, embora reconhecesse a importância de Ser e tempo, julgou uma deriva mística por não a interpretar a partir da diferença ontológica.

3. Na leitura do coro da Antígona, o terror diante do ser faz surgir, pela palavra poética, a pólis como abertura em que a história acontece e em que a arte torna acessíveis e compreensíveis as coisas, as práticas e as instituições da comunidade.

4. A Ciência nova retoma a questão humanista do desocultamento ao investigar tanto a clareira (luce) em que surge a história humana quanto a função originária da palavra fantástica.

5. Diante do terror provocado pelo estranhamento em relação à natureza, a fantasia e o engenho abrem o primeiro lugar da vida histórica, figurado pelas terras cultivadas no interior das florestas, razão pela qual a investigação das origens da sociedade deve partir da sabedoria poética.

6. Os mitos de Hércules, Cadmo e Dafne figuram, respectivamente, a abertura de um lugar humano na floresta, a transformação da natureza pelo trabalho social e a vitalidade das gerações representada pela árvore genealógica.

7. O problema central de Vico é a abertura em que o ser humano aparece em sua realidade concreta e social, pois é pela palavra poética, metafórica e mítica que o ser irrompe historicamente e o mundo adquire, a cada vez, uma significação humana.

V

1. A posição culminante de Vico na tradição humanista torna-se compreensível a partir das questões que mobilizaram essa tradição, em especial a origem e a função do pensamento fantástico.

2. Para Alberto Mussato, a poesia é uma filosofia de outra ordem, uma arte divina e uma teologia do mundo, cujo caráter sagrado decorre de seu poder de manifestar a realidade concreta e dar forma histórica às diversas representações do divino.

3. As correspondências entre o raio de Júpiter e a confusão bíblica das línguas, bem como entre o juramento pelo Estige e a água batismal, exemplificam a maneira pela qual os poetas antigos reconheciam o divino, o verdadeiro e o bom em realidades sensíveis.

4. Os primeiros poetas foram reconhecidos como profetas (vates) porque transpunham a experiência sensível em imagens enigmáticas e, por meio do véu da metáfora, revelavam o ser aos primeiros povos.

5. A reação do dominicano Giovannino da Mantova à primazia atribuída por Mussato à poesia mostra que essa tese invertia a relação medieval entre poesia e teologia e, por isso, ultrapassava a posição tradicional que Curtius lhe atribuiu.

6. Na Genealogia dos deuses, Boccaccio procura recuperar o sentido da mitologia latina mediante a fábula, cuja imagem exemplar reúne a multiplicidade em uma unidade significativa e torna imediatamente visíveis o lugar e o tempo em que aparecem os seres humanos, as coisas e as instituições.

7. Embora reconheça o poder da metáfora na sarça ardente e nas figuras animais de Cristo, Boccaccio acaba por identificar a verdadeira poesia com a teologia cristã, cuja verdade situa acima da história, recuando assim diante da possibilidade de relativizá-la ao reconhecer nos mitos antigos outros véus da verdade.

8. Para Coluccio Salutati, a palavra poética retira o ser humano da condição bestial e desvela o sentido historicamente variável de deuses, coisas e seres vivos, de modo que a pluralidade das figuras divinas exprime manifestações de um único Deus e a relação entre palavras e coisas se realiza na abertura da poesia.

9. A retomada viquiana da função originária da fantasia exige rever o juízo de que o humanismo carecia de filosofia própria e de que a filosofia renascentista só se afirmou com o retorno do platonismo, do neoplatonismo e do aristotelismo.

10. Em Egidio, Giovanni Pontano situa no assombro, no espanto e no terror as fontes de uma palavra poética que desperta as paixões e faz a própria coisa aparecer no verso, dando forma ao que nela se manifesta.

VI

1. A crítica de Heidegger ao humanismo, entendido como pensamento metafísico que deixa de interrogar a relação entre o ser e a essência humana, passa ao largo da tradição retomada por Vico, na qual a abertura originária já constitui um problema filosófico central.

2. Contra a redução hegeliana dos seres humanos concretos a momentos de uma dialética abstrata, Marx situa a raiz da historicidade no trabalho que transforma a natureza e satisfaz necessidades biológicas e sociais, tomando como dados os seres humanos e a natureza cuja relação o trabalho medeia.

3. Embora Vico e Marx rejeitem a dedução apriorística da realidade, Vico situa a origem da historicidade na fantasia engenhosa, que abre o campo em que trabalho, economia, política e instituições assumem sentidos diferentes e cujo esquecimento produz a barbárie da reflexão (barbarie della riflessione).

4. Os universais fantásticos constituem a base da humanização da natureza, pois os primeiros povos, movidos pelo espanto e dotados de sentidos vigorosos, exprimiam sua sabedoria poética por atos, corpos e imagens antes de formular explicações abstratas.

5. A recusa da metafísica tradicional aproxima Vico, Marx e Heidegger, enquanto Vico e Heidegger convergem mais estreitamente ao situar antes da verdade lógica a abertura em que o ser se manifesta e em que a palavra poética permite ao trabalho adquirir sentidos historicamente diversos.

6. A diferença entre Heidegger e Marx torna-se decisiva para compreender o alcance da crítica heideggeriana à concepção marxiana, tal como a examinou Gajo Petrović.

7. A teoria marxiana da alienação reconhece o desenraizamento do ser humano ocidental, mas, na leitura de Heidegger, permanece em uma antropologia centrada na relação entre ser humano e natureza e na satisfação social das necessidades, compatível com o ideal técnico e consumidor de sociedades marxistas e capitalistas.

8. Na interpretação de Petrović, a tentativa marxiana de superar a metafísica pelo humanismo permanece, aos olhos de Heidegger, no horizonte metafísico dos entes, pois a essência do materialismo consiste em dispor de tudo o que existe como matéria do trabalho, operação vinculada à essência da técnica.

9. A clareira do ser torna possível a proximidade com o próprio ser, condição essencial do Dasein (ser-aí), enquanto a atenção exclusiva aos entes produz o afastamento que está na origem do esquecimento ocidental do ser.

10. Quando o princípio de razão suficiente converte a identificação racional dos entes em exigência de que tudo seja calculável e disponível, a relação entre sujeito e objeto assume a forma de domínio, e o ser humano, afastado da questão do ser, volta a compreender-se como animal racional.

11. A identificação entre inteligibilidade lógica e disponibilidade dos entes fundamenta o cálculo e o domínio tecnológicos e favorece a primazia do consumo em sociedades marxistas e capitalistas, enquanto, em Vico, a primazia da verdade lógica dá origem à barbárie da reflexão.