1.5 O Religioso

GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.

E. TEORIA DO RELIGIOSO

J.-M. O.: A finalidade comum dos interditos e dos ritos esclarece a oposição entre impedir e reproduzir a crise mimética, mas torna necessário explicar por que essa contradição, embora fundada na lógica do mecanismo sacrificial, pode atenuar-se ou desaparecer em determinados sistemas religiosos.

R. G.: A contradição entre proibição e reprodução da crise deixa de ser compreendida quando se enfraquece a memória da experiência originária, favorecendo transformações que racionalizam as práticas religiosas e tornam menos reconhecível sua origem violenta.

J.-M. O.: A explicação desenvolvida em A violência e o sagrado enfrenta a objeção de que o mecanismo do bode expiatório seria demasiado passageiro e insignificante para produzir efeitos tão amplos e duradouros quanto as formas religiosas.

R. G.: A capacidade fundadora do mecanismo vitimário depende da natureza mimética do conflito e da organização posterior da comunidade, que prolonga a reconciliação temporária mediante interditos e rituais destinados a conter e canalizar as forças responsáveis pela crise.

G. L.: A necessidade de procurar, na experiência contemporânea, fenômenos semelhantes ao mecanismo fundador pode favorecer mal-entendidos, pois a aproximação esclarecedora também corre o risco de apagar diferenças decisivas.

R. G.: Os mecanismos contemporâneos de perseguição permitem reconhecer parcialmente o processo fundador, mas sua identificação como mecanismos de bode expiatório indica justamente um enfraquecimento da capacidade de produzir os sistemas religiosos que deles surgiam.

J.-M. O.: A discussão depende de uma situação especificamente moderna, marcada por uma compreensão crescente, embora incompleta, controversa e perturbadora, dos mecanismos responsáveis pela formação do religioso.

R. G.: A produção do sagrado depende do desconhecimento do mecanismo vitimário, de modo que a familiaridade moderna com a acusação de procurar um bode expiatório enfraquece sua eficácia fundadora sem eliminar sua presença nas relações nacionais, ideológicas e familiares.

J.-M. O.: Os fenômenos contemporâneos esclarecem parcialmente a origem das formas religiosas, mas o conhecimento que os acompanha impede sua plena eficácia, enquanto a dimensão decisiva do mecanismo permanece situada em uma história imemorial que ultrapassa sua manifestação atualmente observável.

R. G.: A produção do sagrado diminui à medida que seus mecanismos são compreendidos, mas essa perda de eficácia reconciliadora pode intensificar a multiplicação das vítimas, tornando necessário distinguir a hipótese sobre a violência fundadora de analogias impressionistas com a sociedade contemporânea.

J.-M. O.: A redução moderna dos transes à hipnose e seu confinamento à consulta médica, à intervenção terapêutica ou ao entretenimento restringem a compreensão desses fenômenos segundo pressupostos individualistas e racionalistas que também exprimem um desconhecimento do mimético.

R. G.: A aceleração das reações miméticas pode dissolver a distinção entre o eu e o outro e alterar a percepção coletiva, produzindo misturas e formas monstruosas que favorecem a concentração da crise em uma vítima e ajudam a compreender tanto os cultos de possessão quanto a monstruosidade das divindades primitivas.

G. L.: A separação entre etnologia, psicopatologia e psicologia das multidões dificulta reunir sistematicamente os indícios do mecanismo mimético, pois nenhuma disciplina assume a investigação conjunta desses fenômenos.

R. G.: O recuo histórico da influência mimética torna possível observá-la com maior lucidez, mas simultaneamente transforma ou faz desaparecer suas manifestações mais intensas, enquanto a perda da transferência reconciliadora preserva a hostilidade contra as vítimas e enfraquece sua sacralização.

J.-M. O.: No sagrado plenamente constituído, a transferência reconciliadora predomina sobre a agressividade sem eliminá-la por completo, produzindo uma sobreposição que dificulta reconhecer o funcionamento dos ritos e que também deve estar presente nos mitos.

R. G.: A sacralização mítica conserva, sob sua elaboração religiosa, a acusação que responsabiliza a vítima pela crise, aproximando o assassinato do herói divinizado da imolação ritual de um ser considerado culpado pelos males da comunidade.

G. L.: A presença de assassinatos cometidos por um único indivíduo em determinados mitos parece limitar a universalidade do modelo de violência coletiva.

R. G.: Os mitos de irmãos ou gêmeos inimigos, como Caim e Abel ou Rômulo e Remo, condensam a reciprocidade dos duplos, cuja superação exige a morte de um deles e o restabelecimento das diferenças que permitem fundar a comunidade.

G. L.: A existência de mitos sem assassinato, como o de Noé, exige considerar narrativas cuja estrutura parece ainda mais distante da imolação fundadora.

R. G.: A presença de um sobrevivente único em uma coletividade destinada à morte conserva, sob forma invertida, a estrutura que opõe todos a um, pois a vítima também representa o retorno à vida e a fundação de uma comunidade renovada.

G. L.: A violência fundadora permite elaborar uma gênese conjunta dos interditos, dos rituais, dos mitos e da potência sagrada, embora a explicação de todo o religioso por um mecanismo único seja atualmente considerada impossível.

R. G.: O fracasso anterior da etnologia não demonstra a impossibilidade de uma explicação unitária, sobretudo porque a combinação de características recorrentes e variantes aparentadas oferece razões concretas para investigar um princípio comum.

G. L.: O caráter redutor da hipótese constitui, para alguns críticos, uma objeção à própria orientação da investigação.

R. G.: A redução explicativa pertence à investigação científica, e a valorização da diversidade como obstáculo absoluto ao conhecimento substitui a procura de uma solução por um discurso indefinido que preserva a atividade interpretativa à custa de seus resultados.

G. L.: A crítica assume uma severidade que exige reconhecer o alcance de seus próprios juízos.

R. G.: O meio intelectual pode tornar-se especialmente conformista quando se considera detentor do anticonformismo, dispensando a autocrítica e repetindo uma guerra contra interditos já enfraquecidos que prolonga, sob aparência de ruptura, antigos gestos sacrificiais.

J.-M. O.: A superação da degeneração do antigo sagrado exige revelar a vítima expiatória que continua oculta em suas manifestações.

R. G.: A vítima fundadora torna-se fonte de autoridade religiosa porque a comunidade lhe atribui tanto a crise quanto sua resolução, interpretando as regras extraídas dessa experiência como ensinamentos de um ser capaz de ultrapassar as limitações humanas, inclusive a oposição entre vida e morte.

J.-M. O.: O castigo divino corresponde ao retorno da vingança e à deterioração das relações humanas, traduzidos religiosamente na imagem de uma divindade vingadora.

R. G.: Apesar de suas transfigurações sobrenaturais, os sistemas religiosos conservam uma observação empírica das condutas que desencadeiam a violência e do processo capaz de interrompê-la, proibindo aproximadamente as primeiras e reproduzindo ritualmente o segundo.

J.-M. O.: A explicação mimética permite reconhecer a eficácia das regras religiosas e a realização de suas previsões sem aceitar a metafísica do sagrado, reconduzindo seus efeitos a relações inteiramente humanas.

R. G.: A força histórica do religioso decorre de sua capacidade de orientar condutas que tornam suportável a convivência, enquanto o sagrado reúne as inferências produzidas pelas transferências coletivas sobre vítimas reconciliadoras e constitui, para aqueles que as vivenciam integralmente, uma explicação da potência que parece governar a comunidade.

G. L.: Uma explicação capaz de unificar o campo religioso exige ser refutada ou reconhecida como um avanço decisivo das ciências humanas, em vez de ser recusada apenas por sua ambição explicativa.

R. G.: A amplitude explicativa não constitui uma objeção científica, pois o mecanismo fundador impõe constantes observáveis sem eliminar a diversidade, produzida pelas interpretações necessariamente equivocadas que as comunidades elaboram de sua própria experiência.

J.-M. O.: A teoria da vítima expiatória constitui fundamentalmente uma explicação das relações humanas e do papel do mecanismo vitimário, da qual a interpretação do religioso é apenas uma aplicação particularmente reconhecível, enquanto psicologia, etnologia e filosofia também podem permanecer presas às relações miméticas que desconhecem.

R. G.: A leitura mimética permite reexaminar as interpretações anteriores como tentativas parcialmente equivocadas de compreender um fenômeno real, mas enfrenta a dificuldade singular de que o avanço do conhecimento modifica e enfraquece o próprio mecanismo investigado.

G. L.: A demonstração histórica torna-se possível porque os fenômenos fundadores não desapareceram completamente, subsistindo em formas enfraquecidas que ainda permitem reconhecer sua estrutura e reconstruir seu funcionamento anterior.

J.-M. O.: A explicação precisa também demonstrar por que as manifestações mais intensas do mecanismo deixaram de ocorrer, tarefa que parece depender do conhecimento bíblico da violência vitimária.

R. G.: A investigação do conhecimento bíblico deve ser reservada a uma etapa posterior, pois sua integração prematura dispersaria a demonstração, embora a perspectiva judaico-cristã venha a conferir às análises uma dimensão nova sem exigir sua modificação.

G. L.: A dupla transferência da crise e da reconciliação sobre a vítima explica conjuntamente os interditos, os rituais, os mitos e a formação dos ancestrais fundadores e das divindades tutelares, pois um instrumento fortuito de pacificação é convertido pela sugestão coletiva no agente exclusivo da desordem e da restauração da ordem.

R. G.: As vítimas expiatórias efetivas são aquelas cuja condição permanece irreconhecível para os perseguidores, inteiramente convencidos da realidade de sua culpa.