1.3 O Rito

GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.

C. FUNÇÃO DO RITO: EXIGÊNCIA DO MIMÉTICO

R. G.: Os rituais reproduzem deliberadamente a crise mimética que os interditos procuram impedir, revelando que a inversão e o desaparecimento das diferenças culturais, seguidos pela violência recíproca, constituem uma preocupação central do pensamento religioso.

G. L.: A compreensão dos rituais exige, portanto, reconduzir também suas manifestações à mímesis de apropriação como princípio gerador da crise.

R. G.: As inversões de papéis acompanhadas de paródias recíprocas, zombarias insultuosas e confrontos coletivos constituem manifestações da crise mimética, embora as descrições etnológicas frequentemente não reconheçam o mecanismo comum desses acontecimentos.

G. L.: A caracterização etnológica de determinados ritos como práticas de violação dos interditos parece explicitar essa reprodução das condutas normalmente proibidas.

R. G.: O caráter antimimético dos interditos faz com que a encenação ritual da crise exija sua transgressão, reproduzindo o colapso conflituoso da organização cultural e a disputa violenta pelos objetos cuja apropriação permanece normalmente proibida.

G. L.: A existência de ritos pacíficos, harmoniosos e aparentemente orientados por uma intenção estética parece contrariar a interpretação de todo ritual como reprodução de uma crise mimética.

R. G.: A continuidade entre os rituais mais violentos e suas formas mais serenas permite compreender a elaboração estética como transformação progressiva do confronto mimético em colaboração social, preservando na reciprocidade dos movimentos a estrutura do enfrentamento entre duplos.

J.-M. O.: A redução dos interditos e dos ritos ao mesmo conflito mimético evidencia o paradoxo de sociedades que se obrigam ritualmente a realizar aquilo que proíbem na vida ordinária, reproduzindo de maneira por vezes intensamente realista a crise que mais temem e expondo-se ao risco de uma violência efetiva.

R. G.: A coexistência de interditos e rituais constitui um paradoxo fundamental do religioso, cuja compreensão exige preservar a oposição entre a prevenção cotidiana da crise e sua reprodução deliberada, em vez de atenuá-la mediante interpretações que apresentam a festa como simples suspensão alegre das proibições.

J.-M. O.: A força irresistível e insidiosa da mímesis, perceptível tanto na psicopatologia individual quanto nas precauções religiosas contra a impureza, faz do rito uma aparente convocação ao desastre, exigindo descobrir razões superiores para essa exposição deliberada ao perigo ou abandonar a explicação mimética.

R. G.: O paradoxo ritual intensifica-se quando a reprodução da crise é decidida para afastar uma ameaça imediata, pois a comunidade abandona suas precauções habituais e encena a própria decomposição como se a desintegração simulada pudesse impedir a desintegração real.

G. L.: A funcionalidade do ritual poderia residir na reprodução coletiva dos efeitos da discórdia, cuja encenação afastaria o perigo ao retirar dos participantes o desejo de entregar-se efetivamente às condutas temidas.

R. G.: A possível eficácia dos rituais não explica sua existência nem garante seus resultados, tornando necessário ultrapassar o funcionalismo e considerar o desfecho sacrificial que a análise limitada à crise mimética deixou de lado.