1.2 O Interdito

GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.

B. FUNÇÃO DO INTERDITO: PROIBIÇÃO DO MIMÉTICO

R. G.: Os conflitos suscitados pela mímesis de apropriação oferecem um princípio de esclarecimento para uma questão fundamental da etnologia, permitindo compreender a função dos interditos a partir dos perigos produzidos pela rivalidade mimética.

J.-M. O.: A possibilidade de reconhecer um denominador comum a todos os interditos das sociedades primitivas contraria a renúncia da etnologia contemporânea a encontrar uma orientação nessa diversidade aparentemente desordenada, enquanto as explicações psicanalíticas, embora se apresentem como soluções, perderam grande parte de seu poder de convencimento.

R. G.: A compreensão do religioso exige superar a convicção de sua gratuidade e de seu absurdo, consolidada pelos fracassos explicativos anteriores, e reconhecer que os interditos procuram impedir tanto a violência efetiva no interior dos grupos de convivência quanto as situações capazes de desencadeá-la.

G. L.: Ao lado dos interditos cuja finalidade preventiva é imediatamente compreensível, subsistem outros cuja motivação permanece obscura e cujo conteúdo parece absurdo.

R. G.: A proibição de imitar gestos e palavras de outros membros da comunidade, assim como as restrições ao uso dos nomes próprios e o temor dos espelhos, manifesta uma preocupação com a duplicação mimética que a interpretação etnológica costuma reduzir à proteção contra a magia imitativa.

G. L.: A associação entre esses interditos sugere que as sociedades primitivas reconhecem uma relação entre mimetismo e violência e possuem um conhecimento do desejo cuja ausência, na compreensão moderna, impede perceber a unidade das proibições.

R. G.: A unidade dos interditos torna-se perceptível quando a imitação e a violência deixam de ser tratadas como fenômenos separados, pois a rivalidade constitui um processo de imitação recíproca no qual os antagonistas reproduzem seus gestos, seus objetivos e suas estratégias, chegando à condição de duplos na repetição interminável da vingança.

J.-M. O.: Os interditos conservam um conhecimento que falta às ciências modernas ao reconhecerem que os conflitos humanos se enraízam prioritariamente no mimético, pois a violência recíproca intensifica a rivalidade e faz com que os adversários se tornem tanto mais semelhantes quanto mais profundamente se dividem.

R. G.: A imitação aquisitiva permite compreender até mesmo os interditos aparentemente mais absurdos, pois a associação entre duplicação e violência leva a perceber espelhos e gêmeos como manifestações ameaçadoras da mesma reciprocidade mimética que alcança sua expressão extrema na vingança.

G. L.: A importância religiosa das inundações, das secas e de outras catástrofes naturais parece impor um limite à explicação mimética, pois essas ameaças não podem ser diretamente reduzidas ao desejo e às relações de rivalidade.

R. G.: A violência mimética constitui o centro organizador dos sistemas religiosos, enquanto as ameaças naturais são incorporadas a esse campo de interpretação por analogias entre seus modos de propagação e a deterioração contagiosa das relações humanas.

J.-M. O.: A estrutura comum dos interditos parece residir na reprodução simétrica e na ausência aterradora de diferenças, mas a interpretação dos gêmeos como tradução mítica dos duplos violentos exige esclarecer por que o conhecimento religioso não apresenta diretamente os antagonistas reais dos quais essa representação derivaria.

R. G.: O conhecimento preservado pelos interditos permanece incompleto e incapaz de formulação teórica, pois reconhece os perigos do conflito mimético por meio de representações sagradas que o transfiguram em manifestação maléfica ou em fúria vingadora da divindade.

J.-M. O.: A reunião das proibições das imagens, da desconfiança diante do teatro e do temor da imitação remete à filosofia de Platão, em cuja obra esses fenômenos aparecem associados.

R. G.: A hostilidade platônica à arte deriva de um temor mais fundamental da mímesis, compartilhado com o religioso primitivo, mas essa proximidade não conduz ao esclarecimento de sua base empírica, pois os efeitos conflitivos da imitação não são relacionados à disputa por um objeto reciprocamente designado como desejável.

G. L.: A crítica de Philippe Lacoue-Labarthe à interpretação desenvolvida em A violência e o sagrado sustenta que Platão já compreenderia aquilo que lhe é negado e que o conhecimento atribuído a escritores como Cervantes e Shakespeare permaneceria inscrito em um fechamento platônico (clôture platonicienne).

R. G.: A especificidade da teoria mimética reside na origem da rivalidade na apropriação de um objeto, dimensão que a aproximação indevida com Hegel obscurece e que Cervantes e Shakespeare apreendem com maior clareza que Platão ao mostrarem a desproporção entre a insignificância dos objetos disputados e a intensidade dos conflitos.

G. L.: O emprego do termo mímesis pode favorecer mal-entendidos e dificultar a compreensão do mecanismo que se procura esclarecer.

R. G.: A escolha do termo mímesis procura recuperar uma amplitude que o uso moderno de imitação perdeu ao restringir-se aos comportamentos representativos e socialmente convencionais, ocultando a capacidade de uma mesma força produzir integração cultural e dissolução violenta.

J.-M. O.: A impossibilidade de inteligência humana e de aprendizagem cultural sem mímesis torna fundamental esclarecer se a potência que integra os indivíduos na cultura também pode produzir a destruição e a dissolução sugeridas pelos interditos.

R. G.: A investigação racional da mímesis deve transformar o reconhecimento de seus paradoxos em conhecimento efetivo, tomando a rivalidade pelo objeto como princípio explicativo capaz de esclarecer os interditos, os ritos e a organização religiosa em seu conjunto.

J.-M. O.: A crença de que os gêmeos ou a enunciação de um nome próprio introduzem os duplos da violência na comunidade constitui um erro inteligível, pois amplia indevidamente um mecanismo real cuja continuidade, desde manifestações benignas até consequências destrutivas, permite compreender os interditos como tentativas de proteção contra o contágio mimético.

R. G.: A interpretação dos interditos como proteção contra manifestações equivocadamente associadas a um mecanismo real corresponde precisamente à continuidade entre duplicação mimética e violência que fundamenta sua unidade.

J.-M. O.: A plausibilidade de uma teoria unitária dos interditos precisa enfrentar tanto as diferenças entre culturas que exigem aquilo que outras proíbem quanto as situações em que uma mesma sociedade autoriza ou impõe excepcionalmente condutas interditadas em circunstâncias ordinárias.

R. G.: As aparentes contradições entre proibições e exigências culturais não eliminam o conteúdo antimimético dos interditos, cujo conjunto delineia as etapas de uma escalada contagiosa da rivalidade e procura impedir sua propagação aos objetos, aos comportamentos e aos indivíduos percebidos como portadores de ameaça.

G. L.: A possibilidade de uma crise mimética talvez encontre nos rituais uma comprovação mais direta do que aquela oferecida pelos interditos.