GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.
A. MÍMESIS DE APROPRIAÇÃO E RIVALIDADE MIMÉTICA
J.-M. O.: Uma compreensão concreta do processo de hominização exige superar a incompreensão recíproca entre a etnologia estruturalista e as ciências da vida, particularmente a etologia, aproximando campos cuja separação dificulta a investigação da emergência do humano.
R. G.: A articulação entre as ciências da cultura e as ciências da vida exige reconsiderar radicalmente a imitação, reconhecendo que sua função constitutiva na aprendizagem e na transmissão cultural abrange também os comportamentos de apropriação, cuja reprodução conduz diferentes indivíduos aos mesmos objetos e faz da mímesis uma fonte fundamental de rivalidade e conflito.
Quase todos os comportamentos humanos dependem da aprendizagem, e esta se reconduz à imitação, de modo que a interrupção da atividade imitativa faria desaparecer as formas culturais; a elaboração de uma ciência do homem requer, portanto, comparar a imitação humana com o mimetismo animal e determinar se existem modalidades especificamente humanas dos comportamentos miméticos.
O silêncio das correntes contemporâneas sobre a imitação prolonga uma tendência iniciada na modernidade e reforçada pelo
romantismo e pelo individualismo, à qual se acrescenta, no século XX, o receio de que reconhecer sua importância signifique aceitar docilmente os imperativos políticos e sociais da comunidade.
A desconfiança diante da imitação decorre de sua associação exclusiva ao comportamento gregário, à uniformização e à submissão, como se enfatizá-la implicasse minimizar a divisão, a alienação e o conflito ou favorecer as forças que submetem os indivíduos.
As psicologias e sociologias da imitação desenvolvidas no final do século XIX contribuíram para essa interpretação unilateral, pois seu otimismo e seu conformismo pequeno-burguês aparecem mesmo na obra de
Gabriel Tarde, que identifica na imitação o fundamento único da harmonia social e do progresso.
A limitação mais profunda dessa tradição remonta a Platão, cuja abordagem privilegia maneiras, hábitos, palavras e representações, deixando de considerar que os comportamentos de apropriação também podem ser imitados e excluindo, assim, a dimensão aquisitiva e conflituosa da mímesis.
A continuidade dessa exclusão em Aristóteles e nos demais sucessores de Platão tornou pouco perceptível a mutilação do problema, embora a observação dos mamíferos superiores, especialmente dos macacos, revele a importância de uma imitação apropriativa que antecipa aspectos decisivos do comportamento humano.
O gesto de um indivíduo em direção a um objeto pode provocar imediatamente em outro o impulso de reproduzi-lo, enquanto a contenção desse impulso manifesta a necessidade de prevenir o conflito gerado pela convergência de duas ou mais iniciativas de apropriação sobre o mesmo objeto.
A exclusão sistemática dos comportamentos apropriativos preserva a concepção enganosa de que a imitação produziria efeitos invariavelmente gregários e apaziguadores, pois o reconhecimento de uma mímesis de apropriação torna imediatamente necessário investigar seus efeitos conflitivos.
A imitação aquisitiva já é reconhecida nos animais e nas crianças e pode ser verificada experimentalmente, como sugere a possibilidade de surgirem disputas entre crianças diante de uma quantidade de brinquedos idênticos suficiente para que cada uma disponha de um.
A menor visibilidade dessas disputas entre adultos não demonstra o desaparecimento da rivalidade mimética, mas indica a aprendizagem de sua contenção, sobretudo nas manifestações mais grosseiras e facilmente reconhecíveis pelo meio social, podendo a rivalidade permanecer tão intensa quanto antes ou tornar-se ainda maior.
G. L.: Uma parte significativa da polidez consiste em ceder lugar ao outro para evitar ocasiões de rivalidade mimética, mas a própria renúncia pode transformar-se em competição, revelando a capacidade desse mecanismo de reaparecer justamente nas condutas destinadas a superá-lo e fornecendo um recurso conhecido da comicidade.
R. G.: A rivalidade mimética pode converter a renúncia em uma competição tão destrutiva quanto a apropriação, enquanto a necessidade de reprimir suas manifestações constitui um problema central das sociedades humanas e animais, cuja existência questiona a identificação psicanalítica da repressão do desejo com um processo exclusivamente humano e dependente do complexo de Édipo.
O potlatch exemplifica a inversão da mímesis de apropriação em mímesis da renúncia, na qual a competição para desfazer-se dos bens pode alcançar uma intensidade desastrosa para a sociedade, comparável àquela produzida pela disputa para adquiri-los.
A contenção da mímesis apropriativa deve constituir uma preocupação fundamental tanto nas sociedades humanas quanto nas animais, e as soluções encontradas para esse problema podem determinar um número de características culturais muito maior do que habitualmente se admite.
A simplicidade e a clareza dessas observações contribuem para que sejam negligenciadas em um ambiente intelectual pouco receptivo a tais qualidades, embora o reconhecimento da mímesis conflituosa e de sua repressão ameace pressupostos importantes do pensamento contemporâneo.
A presença, em certos animais, de uma repressão quase imediata do desejo mostra que o movimento do outro em direção a um objeto pode simultaneamente despertar o impulso apropriativo e inibi-lo desde seu surgimento, sem que seja necessário recorrer ao complexo de Édipo para explicar essa contenção.
Um comportamento semelhante, quando observado em seres humanos, seria automaticamente relacionado pela psicanálise a uma ambivalência edipiana, mas sua observação etológica e sua reprodução experimental permitem reconhecê-lo sem postular um Édipo dos macacos nem recorrer a especulações sobre um inconsciente problemático.