1.1 Mímesis de apropriação

GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.

A. MÍMESIS DE APROPRIAÇÃO E RIVALIDADE MIMÉTICA

J.-M. O.: Uma compreensão concreta do processo de hominização exige superar a incompreensão recíproca entre a etnologia estruturalista e as ciências da vida, particularmente a etologia, aproximando campos cuja separação dificulta a investigação da emergência do humano.

R. G.: A articulação entre as ciências da cultura e as ciências da vida exige reconsiderar radicalmente a imitação, reconhecendo que sua função constitutiva na aprendizagem e na transmissão cultural abrange também os comportamentos de apropriação, cuja reprodução conduz diferentes indivíduos aos mesmos objetos e faz da mímesis uma fonte fundamental de rivalidade e conflito.

G. L.: Uma parte significativa da polidez consiste em ceder lugar ao outro para evitar ocasiões de rivalidade mimética, mas a própria renúncia pode transformar-se em competição, revelando a capacidade desse mecanismo de reaparecer justamente nas condutas destinadas a superá-lo e fornecendo um recurso conhecido da comicidade.

R. G.: A rivalidade mimética pode converter a renúncia em uma competição tão destrutiva quanto a apropriação, enquanto a necessidade de reprimir suas manifestações constitui um problema central das sociedades humanas e animais, cuja existência questiona a identificação psicanalítica da repressão do desejo com um processo exclusivamente humano e dependente do complexo de Édipo.