1.1 Movimento I

GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. São Paulo: Editora Unisinos, 2001.

1. Nietzsche é um tema permanente como psicólogo, tendo sido ele próprio o primeiro a exaltar seu talento nesse domínio e a creditar a si o mérito de ter, de certo modo, inventado a psicologia, ao perguntar quem, entre os filósofos, foi antes dele psicólogo e não o seu oposto, superior embusteiro e idealista.

2. O tema é muito comentado, porém está longe de ter sido exaurido e pode-se dizer que é relativamente pouco investigado por si mesmo, de maneira profunda e sistemática, à altura de sua importância.

3. Desde as recepções mais antigas da obra de Nietzsche sempre se vislumbrou nele um psicólogo, tanto quanto se o considerou artista, literato e poeta, mas as efetivas razões pelas quais se poderia considerá-lo um psicólogo nem sempre foram expostas e fundamentadas de modo convincente.

4. Para tanto seria necessário estabelecer previamente o que se deve entender pelo termo psicólogo, na medida em que a expressão designa modalidades diferentes do saber, variando seu conteúdo semântico conforme o momento histórico e os diversos entendimentos de seus representantes.

5. Recepções mais antigas, como as de Jaspers e Fink, reconhecem a importância do problema, mesmo que não o tratem especificamente e de modo exaustivo, enquanto Heidegger minimiza a importância da psicologia em proveito de um suposto privilégio da metafísica em Nietzsche, razão pela qual é criticado por intérpretes clássicos que o sucederam, como Kaufmann.

6. Ao se tratar desse tema, não se pode deixar de mencionar as tentativas grandiosas de estudo comparativo entre os empreendimentos teóricos de Nietzsche e de Freud, como os monumentais trabalhos de Paul Laurent Assoun e Ulrich Irion, nos quais, porém, a magnitude da comparação deixa em plano secundário a relevância específica da psicologia para Nietzsche.

7. É esse também o caso do curioso artigo que, em 1979, Jean Granier dedica a uma comparação entre Nietzsche e Freud, tendo por objeto precisamente o estatuto da filosofia nos dois pensadores.

8. Pode-se dizer que o trabalho de Walter Kaufmann foi pioneiro no reconhecimento da importância fundamental da psicologia para todo o empreendimento filosófico nietzscheano, ao sustentar que Nietzsche tinha razão em se ver como grande psicólogo e que se torna mal entendido quando se passa por alto sobre isso.

9. O mesmo Kaufmann, nos anos de 1950, reuniu o essencial de sua meditação em Nietzsche: Filósofo, Psicólogo, Anticristo, referência fundamental para a interpretação anglo-saxônica na qual se esforça por refutar a interpretação de Nietzsche por Heidegger.

10. A despeito dessa ênfase, mesmo em nossos dias os estudiosos têm se surpreendido com a negligência com que o tema da psicologia é tratado pelos comentadores de Nietzsche, como nas palavras com que Louis Corman dá início a um livro inteiramente consagrado ao assunto, intitulado Nietzsche Psychologue des Profondeurs.

11. Num sentido bastante convergente com essa apreciação, o psicanalista e filósofo austríaco Reinhardt Gasser leva a efeito uma sistemática comparação entre os empreendimentos teóricos de Nietzsche e de Freud, realizando na parte histórica um estudo minucioso sobre a questão da psicologia em Nietzsche, especialmente no que concerne à relação entre fisiologia e psicologia.

12. Recentemente, um dos mais significativos ensaios consagrados ao tema foi escrito por Patrick Wotling, com o objetivo de estudar o estatuto e a estrutura da psicologia no pensamento de Nietzsche, reforçando a relevância e a dignidade filosófica do assunto.

13. O título do ensaio de Wotling é sugestivamente extraído do próprio Nietzsche, O Caminho que conduz aos problemas fundamentais, e já a partir dele se sugere, seguindo uma pista de Para Além do Bem e do Mal, ser precisamente a psicologia, enquanto senhora das demais ciências, aquele caminho privilegiado.

14. Já mencionada a auto-estilização de Nietzsche como o primeiro psicólogo da Europa, o objetivo central do texto é uma tentativa de entender, no contexto de sua obra e em ligação com seus temas fundamentais, o significado dessa asserção.

15. Essa caracterização é deliberadamente ambígua, pois Ecce Homo afirma que antes de Nietzsche não havia propriamente psicologia, e todavia O Crepúsculo dos Ídolos proclama Dostoiévski como um mestre com quem Nietzsche tem algo a aprender nessa matéria, de modo que, se Dostoiévski lhe ensinou psicologia, Nietzsche não poderia ser o primeiro psicólogo europeu.

16. Em face disso, tomam-se como guia para reflexão essas duas declarações, Dostoiévski, o único autor com quem aprendi Psicologia, e eu sou o primeiro psicólogo da Europa, perguntando-se o que devemos entender pela expressão primeiro psicólogo e o que entender por aprender psicologia a partir da literatura.

17. Iniciando pela questão do primeiro psicólogo, pergunta-se em que se baseia Nietzsche para se outorgar tal título, na medida em que, como ex-catedrático de filologia da prestigiosa universidade da Basileia e como filósofo, não poderia ignorar a psicologia racional tradicionalmente considerada parte constitutiva da metafísica.

18. Não seria admissível que um filósofo da estatura de Nietzsche desconhecesse que a psicologia racional, como doutrina teórica da alma, da subjetividade ou da psique, era uma parte canônica do saber filosófico, nem que ignorasse o desenvolvimento da psiquiatria e da psicologia empírica do século XIX.

19. Com efeito, Nietzsche teve intenso e produtivo contato com algumas das principais obras desse gênero, estudou os trabalhos dos psicólogos franceses e alemães ligados à psicologia clínica e experimental e se entusiasmou verdadeiramente pelos resultados empíricos da psiquiatria europeia da segunda metade do século XIX, ligando-os estreitamente à sua própria tarefa de desconstrução e auto-superação da metafísica.

20. Além disso, como hoje se sabe a partir do trabalho filológico e de pesquisa das fontes desenvolvido no âmbito da edição histórico-crítica de seus escritos, Nietzsche era um leitor interessado nos trabalhos de anatomia e fisiologia cerebral e de estudos contemporâneos sobre criminologia, cujas interfaces com a psiquiatria e a medicina legal são evidentes, razão pela qual textos de autores como Lombroso eram objeto de sua curiosidade intelectual.

21. A questão recoloca-se, portanto, com mais insistência: em que se funda a pretensão de se atribuir o epíteto de primeiro psicólogo da Europa.

22. A primeira pista pode ser fornecida pela definição corrente de psicologia, sendo conveniente transcrever uma expressiva lição de Paul Janet que resume, de certo modo, a doutrina oficial, segundo a qual a psicologia é a parte da filosofia que trata do estudo do espírito humano e de suas faculdades, distinguindo-se da fisiologia que tem por objeto o corpo humano e suas funções.

23. O caráter próprio dos fatos que ela estuda é que não podem se produzir num ser sem serem imediatamente conhecidos daquele que os experimenta, e esse sentimento interior inseparável dos próprios fatos é chamado consciência, sendo o ser que o possui chamado de eu ou sujeito.

24. Trata-se, pois, de uma concepção de subjetividade que, de forma inconteste ou pelo menos hegemônica na filosofia da época, era identificada ou nucleada na consciência, de tal forma que a psicologia tradicional podia equiparar o psíquico ao consciente.

25. Por essa razão, considerar a psicologia como ciência da psique seria, em última análise, fazer dela uma ciência da subjetividade, na medida em que a consciência constitui justamente a estrutura nuclear da subjetividade, seu centro de gravidade.

26. O que se gostaria de sugerir, de início, é que uma das razões fundamentais pelas quais Nietzsche se considera o primeiro psicólogo da Europa é porque seu empreendimento crítico consiste, no essencial, em desconstituir, ou, dito de maneira mais radical e fiel ao projeto, em destruir essas pilastras metafísicas sobre as quais se assentava não somente a psicologia racional, como também as bases teóricas da psicologia em geral.

27. A reflexão de Nietzsche como psicólogo parte, portanto, da erosão desse solo teórico e da destruição dessas bases, com vistas ao estabelecimento de novos fundamentos a partir dos quais se possa construir uma ciência da subjetividade, da psique ou da alma, liberada dos preconceitos metafísicos e morais aos quais até então estivera ligada.

28. Essa seria uma primeira razão pela qual ele poderia se considerar o primeiro psicólogo europeu.

29. Essa identificação entre o psíquico e o consciente, que constitui um dos alvos privilegiados da crítica nietzscheana, não era uma invenção de Nietzsche nem mesmo um simples lugar-comum no domínio teórico da filosofia, podendo-se localizar num psicólogo como Freud idêntica crítica dessa limitação da psicologia clássica.

30. Freud considera legítimo e apropriado continuar a manter a representação intuitiva dos dois sistemas, evitando-se assim o primeiro elemento a destacar, a ideia de que se tenta circunscrever uma região do aparelho psicológico que não é identificável à estrutura anátomo-fisiológica do sistema nervoso.

31. Não se trata de localizar na estrutura neuronal do sistema nervoso central as diversas funções psíquicas, como era a pretensão do Projeto de uma Psicologia para Neurologos, mas de circunscrever uma região do psíquico que pode ser objeto de ciência, e circunscrever dois sistemas já supõe uma revolucionária posição ou uma ruptura de Freud em relação à psicologia tradicional.

32. Até aqui promovida psicologia por conta própria, é tempo de investigar as doutrinas que dominam a Psicologia atual e examinar sua relação com as colocações freudianas, pois a questão do inconsciente na Psicologia é, segundo a expressão vigorosa de von Lipps, menos uma questão psicológica do que a questão da Psicologia.

33. Enquanto a Psicologia resolveu essa questão por meio de uma explicação verbal, segundo a qual o psíquico seria precisamente o consciente e processos anímicos inconscientes seriam um palpável contra-senso, ficava excluído um aproveitamento possível das observações que um médico podia obter de estados psíquicos anormais.

34. Desse modo, na medida em que a psicologia tradicional veio identificando consciente e psíquico, não existia explicação possível para os fenômenos patológicos radicados na parte inconsciente do aparelho psíquico, do mesmo modo como não havia uma explicação científica plausível para os fenômenos do sonho.

35. Para Freud, sem a diferenciação dos sistemas consciente e inconsciente, não existe possibilidade de fazer um tratamento adequado daquela região nova de fenômenos psíquicos, de circunscrever um campo próprio de fenômenos e leis e de preservar para ela uma autonomia teórica e metodológica ligada à estrutura e ao funcionamento do psiquismo.

36. No primeiro capítulo de O Eu e o Isso, Freud formula novamente a crítica àquela limitação do psíquico ao consciente de modo ainda mais assertivo, ao afirmar que a diferenciação do psíquico em consciente e inconsciente é o pressuposto fundamental da psicanálise e o único pressuposto que lhe dá a possibilidade de entender os processos patológicos da vida psíquica e de inseri-los na ciência.

37. A psicanálise não pode alocar a essência do psíquico no consciente, porém precisa considerar o consciente como uma qualidade do psíquico que pode se acrescentar a outras qualidades ou permanecer ausente, e aqui se coloca a primeira restrição da psicanálise, pois para a maioria dos eruditos a ideia de um psíquico que ao mesmo tempo não seja consciente é inconcebível e parece absurda.

38. Freud crê que isso decorre da circunstância de que eles jamais estudaram os fenômenos relativos à hipnose e ao sonho, que, para não falar dos fenômenos patológicos, obrigam a essa hipótese, enquanto sua Psicologia da consciência não é capaz de resolver os problemas dos sonhos e os problemas da hipnose.

39. Como se pode inequivocamente constatar, a identificação visada por Nietzsche entre psíquico e consciente, que fazia da psicologia a ciência da consciência ou do eu enquanto consciência, não constitui mera idiossincrasia nietzscheana, mas domina o cenário da psicologia tradicional, até segundo o insuspeito testemunho de Freud.

40. Dessa maneira, se o próprio Freud reconhece que o pressuposto fundamental da psicanálise consiste na diferenciação entre instâncias do psiquismo, já se pode compreender melhor a razão pela qual Nietzsche pode se arvorar em primeiro psicólogo da Europa, na exata medida em que, para ele, o reconhecimento de processos psíquicos inconscientes, ou a dissociação entre a subjetividade e a unidade da consciência, constitui um dos principais efeitos de sua crítica da moral, da religião e da metafísica.

41. É por essa via que ele julga poder levar a cabo a tarefa de instaurar as condições de possibilidade de uma verdadeira ciência da psique, desembaraçada dos fetichismos ancestrais que deram origem à metafísica ocidental.

42. Por essa razão, a reflexão sobre a psicologia faz parte do programa de crítica genealógica da filosofia, ou melhor, essas são duas tarefas coevas e mutuamente dependentes, o que torna a psicologia, para Nietzsche, o caminho que conduz aos problemas fundamentais.

43. Insere-se no presente contexto uma análise do aforismo 23 de Para Além do Bem e do Mal, célebre passagem que encerra a parte inicial do livro denominada Os preconceitos dos filósofos, capítulo principalmente dedicado à teoria do conhecimento e à crítica à tradição da história da filosofia, no qual estão contidas as antíteses fundamentais do perspectivismo bem como a exposição conceitual da doutrina da vontade de poder.

44. Essa primeira parte, verdadeiro pórtico frontal do Ensaio de uma Filosofia do Futuro, encerra-se justamente com o aforismo 23, entoando o elogio da psicologia, nele considerada por Nietzsche como ciência superior, pois que, uma vez depurada das hipóstases e fetichismos atávicos, fornecerá a base teórica suficiente para uma doutrina científica da subjetividade, não imantada pelo infundado privilégio da consciência nem pelo correspondente dualismo insustentável entre o corpo e a alma.

45. Por essa razão, Nietzsche considera a psicologia a ciência que conduz aos problemas fundamentais, à ideia de uma racionalidade ampliada, cujo paradigma é dado pelas ciências inconscientes que habitam no coração do investigador.

46. Uma doutrina do condicionamento recíproco dos instintos bons e maus provoca, como imoralidade mais sutil, pena e desgosto a uma consciência ainda mais forte e animosa, e ainda mais o provoca uma doutrina da derivabilidade de todos os instintos bons a partir dos instintos perversos.

47. De acordo com isso, se a psicologia esteve até então atrelada a preconceitos morais enraizados no coração do próprio psicólogo, quem pretende levar a efeito uma investigação profunda nesse domínio teria que lutar contra resistências afetivas difíceis de vencer.

48. A proposta de uma fisiopsicologia sofre, atuando contra si, a pressão de poderosas forças inconscientes enraizadas na sensibilidade moral do cientista, e por causa disso uma teoria que considere a recíproca condicionalidade entre instintos bons e maus é em grande medida intolerável para os ouvidos de um investigador em quem a força dessas resistências afetivas inveteradas faz valer suas exigências.

49. Isso ocorre em grau ainda maior se considerarmos que, para além do condicionamento recíproco, trata-se aqui de uma teoria que afirma que impulsos positivos, os bons, derivam de impulsos perversos, malignos, o que provoca contra si não apenas uma certa indisposição, mas o máximo de repulsa.

50. Supondo que alguém considere que inclusive os afetos de ódio, inveja, avareza e vontade de domínio são afetos condicionantes da vida, algo que tem que estar presente por princípio na economia global da vida e que, em consequência, tem que ser intensificado no caso de que a vida deva ser intensificada, este alguém padecerá semelhante orientação no seu juízo como uma maresia, embora tampouco esta hipótese seja a mais penosa e estranha que cabe fazer nesse reino gigantesco e quase novo ainda dos conhecimentos perigosos.

51. Há centenas de bons motivos para que do mesmo permaneça afastado todo aquele que pode, mas se alguém alguma vez desviou seu barco até este rumo e prosseguiu até aqui, deve cerrar vigorosamente os dentes, abrir os olhos e manter mãos firmes no timão, pois navega diretamente sobre a moral, deixando-a para trás e talvez triturando seu próprio resíduo de moralidade.

52. Nunca antes se abriu um mundo mais profundo de conhecimentos a viajantes e aventureiros temerários, e a um psicólogo que desse modo realiza sacrifícios, não o sacrifizio dell'intelletto, ao contrário, ser-lhe-á lícito ao menos exigir que a psicologia volte a ser reconhecida como a senhora das ciências, para cujo serviço e preparação existem todas as outras ciências, pois a psicologia volta a ser, doravante, o caminho que conduz aos problemas fundamentais.

53. Gostaria de ressaltar dois aspectos importantes contidos nessa passagem, sendo o primeiro que a psicologia deve voltar a ser reconhecida como a senhora das ciências para cujo serviço e preparação existem todas as outras, o que constitui obviamente uma provocação direta, pois a senhora de todas as ciências era sabidamente a Teologia, e a própria filosofia não era senão a sua serva.

54. O efeito da provocação consiste numa inversão da consagrada hierarquia entre as ciências, e em realidade o que ocorre é muito mais do que uma simples reversão de posições, em que o antigo elemento inferior toma o lugar do superior e vice-versa, pois como ciência fundamental a psicologia pode fornecer a explicação adequada para um conjunto de problemas e questões que acabam por fulminar as pretensões de legitimidade da Teologia.

55. A psicologia não metafísica será a ciência para cujo serviço e preparação existem todas as outras, porque ela vai permitir que todo um universo de conhecimentos mais profundos venha a preencher, no horizonte da cultura, o vazio de sentido provocado pela morte de Deus.

56. Destituir a teologia de seus privilégios ancestrais significa dinamitar os bastiões e cidadelas melhor defendidas da cultura ocidental, entre elas principalmente a crença na alma, isto é, no núcleo substancial do eu, na medida em que tal crença está na raiz daquele célebre fundamento inconcusso da filosofia moderna lançado por Descartes como ponto de apoio arquimediano sobre o qual se assenta o edifício do saber moderno.

57. Desse modo, a substituição da teologia pela psicologia, guindada ao posto de ciência fundamental, passa necessariamente, para Nietzsche, pela dissolução daquele resíduo de moralidade que oferece dura resistência à crítica psicológica, e essa dissolução do fundo moralista da psicologia é uma tarefa que começa pela destruição do primado da consciência e pela refutação da ideia de subjetividade identificada com unidade da consciência.

58. A esse respeito é ilustrativo, talvez mesmo imperioso, um recurso ao aforismo 354 do V Livro de A Gaia Ciência, texto que Nietzsche acrescenta à segunda edição da obra publicada em 1886 e, portanto, quase contemporâneo de Para Além do Bem e do Mal e Para a Genealogia da Moral, em que esse problema é tratado de maneira exemplar.

59. Talvez se possa até ir mais longe, a ponto de afirmar que o conjunto das questões envolvidas nessa tarefa constitui como que a mais profunda camada geológica da filosofia madura de Nietzsche, seu mais radical momento de auto-reflexão.

60. O problema do ter-consciência de si, mais corretamente do tomar-consciência de si, só se apresenta quando começamos a conceber em que medida poderíamos passar sem ela, e é nesse começo do conceber que nos colocam a fisiologia e a zoologia.

61. De acordo com o texto, só podemos apreciar adequadamente o significado de ter consciência na exata medida em que percebemos em que extensão podemos prescindir dela, e não existe melhor forma de se inteirar dessa prescindibilidade da consciência do que através da fisiologia e da zoologia, pois de quase todos os processos fisiológicos fundamentais da vida vegetativa e mesmo sensitiva está ausente a qualidade psíquica da consciência.

62. Fisiologia e zoologia precisaram de dois séculos para alcançar a premonição de Leibniz, que voava na sua dianteira, observação incidental e profundamente irônica, na medida em que Leibniz discernia no apetitus, ou seja, no impulso, como característica, essa imensa riqueza contida na questão do vital, do potencialmente orgânico, o duplo vetor representacional e impulsivo presente de maneira inconsciente mesmo nas formações mais embotadas do mundo orgânico.

63. Poderíamos pensar, sentir, querer, recordarmo-nos e agir em todo sentido da palavra, e a despeito disso não seria preciso que tudo isso nos entrasse na consciência, e a própria expressão entrasse na consciência é destacada por Nietzsche e indica com muita clareza o caráter antropomórfico das nossas expressões usuais, pois entrar na consciência supõe pensar a consciência como algo espacial.

64. A vida inteira seria possível sem que ela, por assim dizer, se visse no espelho, como de fato ainda agora entre nós a parte preponderante dessa vida se desenrola sem esse espelhamento, e também nossa vida de pensamento, sentimento e vontade, por mais ofensivo que isso possa soar a um filósofo mais velho.

65. Não somente nossas funções vitais elementares poderiam continuar a desempenhar seu papel sem a consciência, com o que concordariam todos os fisiólogos, senão que mais ainda nossas funções psíquicas superiores, como pensamento, sentimento, vontade e afetividade, podem ter seu curso independentemente da consciência, por mais que isso soe ofensivo e ultrajante aos ouvidos de um velho filósofo, sobretudo se pensarmos que, de acordo com uma venerável tradição filosófica, o eu ou a unidade da consciência deve necessariamente acompanhar todas as nossas representações.

66. Afirmar que pode haver representação, mais que isso, intuir um universo de pensamentos e sentimentos, volições, movimentos e atividades sem consciência, mormente se considerarmos a então corrente identificação entre subjetividade e unidade da consciência, é uma asserção ofensiva para um filósofo mais velho, daí impondo-se a indagação sobre para que em geral consciência, se no principal ela é supérflua.

67. Parece que o refinamento e força da consciência estão sempre em proporção com a aptidão de comunicação de um ser humano ou animal, e a aptidão de comunicação, por sua vez, em proporção com a necessidade de comunicação.

68. Isso significa que a força e o grau de refinamento da consciência se determinam em proporção com a força e o refinamento da faculdade de comunicação, o que suscita de imediato uma questão central, aquela que inscreve a consciência como função da capacidade de comunicação animal, e por sua vez o poder de comunicação se determina em função da necessidade de comunicação.

69. Não somente o ser humano, também os animais são tanto mais capazes de se comunicar quanto mais carentes de comunicação, de modo que o que existe é uma relação entre a força, o grau de desenvolvimento da consciência e a necessidade de comunicação.

70. Esse último ponto não deve ser entendido como se o próprio homem singular, que é precisamente mestre em comunicar e tornar inteligíveis suas necessidades, fosse também ao mesmo tempo aquele cujas necessidades mais o encaminhassem aos outros, mas bem parece ser assim no que se refere a raças inteiras e gerações sucessivas.

71. Onde a necessidade e a indigência coagiram longamente os homens a se comunicarem e a se entenderem mutuamente com rapidez e finura, acaba por haver um excedente dessa força e arte de comunicação, como que uma fortuna que pouco a pouco se acumulou e agora espera por um herdeiro que a gaste perdulariamente, e os assim chamados artistas são esses herdeiros, do mesmo modo que os oradores, pregadores e escritores, todos os homens que sempre vêm no final de uma longa série, sempre nascidos tarde, no melhor sentido da palavra e por essência perdulários.

72. A necessidade da comunicação, ligada à capacitação para tanto, não pode ser dimensionada em escala individual ou particular, pois do ponto de vista de sua origem deve ser avaliada em termos de toda uma raça ou toda a espécie, de tal maneira que gerações sucessivas e raças inteiras acabaram por desenvolver, a partir da sua necessidade de comunicação, um imenso cabedal de capacidade comunicativa.

73. Esse é um traço distintivo da perspectiva genealógica em Nietzsche: remeter vertiginosamente o leitor de uma perspectiva que considera uma pré-história hipotética para a história recente, com o propósito de revelar como, na pré-história da espécie, a partir justamente da indigência e das necessidades que determinam a aproximação dos homens entre si, produziu-se não apenas o suficiente em termos de faculdade de comunicação, mas um imenso excedente, um luxo exuberante.

74. Os artistas em geral, especialmente os poetas, os virtuosistas do estilo literário, mas também músicos e artistas plásticos, os retóricos e pregadores, seriam os herdeiros privilegiados desse patrimônio, e a hipótese visa a superar a perspectiva estreita da indigência de que Nietzsche acusa o darwinismo e sua correspondente obsessão pela mera conservação.

75. Suposto que essa observação é correta, pode-se passar à suposição de que consciência em geral só se desenvolveu sob a pressão da necessidade de comunicação, que previamente só entre homem e homem, entre mandante e obediente em particular, ela era necessária e útil, e também que somente em proporção ao grau dessa utilidade ela se desenvolveu.

76. Portanto, retoma-se a hipótese anteriormente suscitada: o desenvolvimento da consciência está em função da necessidade de comunicação, e esse desenvolvimento se determina na mesma proporção e grau em que a consciência é útil.

77. Consciência é propriamente apenas uma rede de ligação entre homem e homem, e apenas como tal ela teve de se desenvolver, pois o homem ermitão e animal de rapina não teria precisado dela.

78. Se desde um ponto de vista genealógico a origem da consciência está ligada à pressão da necessidade de comunicação, então existe um vínculo essencial entre consciência e comunidade ou sociedade, isto é, não fora a necessidade da vida em comum, não haveria consciência.

79. Que nossas ações, pensamentos, sentimentos e mesmo movimentos nos cheguem à consciência, pelo menos uma parte deles, é a consequência de um terrível e longo é preciso reinando sobre o homem, que precisava, como o animal mais ameaçado, de auxílio e proteção, precisava de seu semelhante e tinha de exprimir sua indigência e saber tornar-se inteligível.

80. Para tudo isso ele necessitava em primeiro lugar de consciência, portanto de saber ele mesmo o que lhe falta, de saber como se sente e o que pensa, pois o homem, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não sabe disso, e o pensamento que se torna consciente é apenas a mínima parte dele, a parte mais superficial e a pior, pois somente esse pensamento consciente ocorre em palavras, isto é, em signos de comunicação.

81. De acordo com a hipotética reconstituição da gênese da consciência empreendida por Nietzsche, esta não somente não pode mais reivindicar para si o estatuto privilegiado de uma faculdade essencial fazendo parte da própria natureza do ser humano, no sentido em que fora entendida pela filosofia tradicional, como também pode ter sua proveniência vinculada a um vir-a-ser, a um processo de constituição, a uma espécie de pré-história.

82. Sendo assim, ela não pode mais ser simplesmente identificada com a essência ou com o núcleo perene da subjetividade, e essa pré-história da consciência se apresenta, para Nietzsche, como um processo formativo conduzido sob a imposição de um comando, de um é preciso.

83. É preciso que se constitua e desenvolva a faculdade da consciência porque é indispensável: para que o homem possa se comunicar, faz-se necessário antes de tudo que ele possa refletir e inteirar-se daquilo que pretende comunicar.

84. Nesse sentido, a consciência representa justamente a superfície onde seus estados interiores se projetam ou refletem, de modo que a partir daí se sabe ou se pensa saber aquilo que se quer, sente, teme, deseja e pensa, isto é, aquilo que se pode comunicar desses estados, sendo preciso portanto que o homem tenha diante de si um espelho onde possa se refletir algo, um objeto a ser comunicado, um conteúdo objetivado dos seus estados vividos.

85. O que chega até a consciência constitui aquela parte dos nossos estados anímicos e de nossas representações mentais que deve ou precisa ser objeto de comunicação, e por isso mesmo é a parte mais superficial e pior, pois somente esse pensamento consciente ocorre em palavras, isto é, em signos de comunicação.

86. Aquilo de que nós temos consciência é, pois, o que nos ocorre em palavras, e Nietzsche sublinha para destacar as palavras ocorre e signos de comunicação, introduzindo entre elas significativamente também com destaque a expressão ou seja, sinonímia que tem a função de desvendar a procedência da consciência.

87. Esta se desvela como o originário ponto de confluência entre consciência, linguagem e sociabilidade, sob o vetor da comunicação a determinar o desenvolvimento ulterior, em regime de recíproca influência, da linguagem e da capacidade de tornar-se consciente.

88. De acordo com isso, as nossas vivências conscientes são somente aquelas que ocorrem, isto é, cuja configuração se dá em palavras ou expressões linguísticas, e os estados anímicos de que somos conscientes são aquelas representações, sentimentos, volições, pensamentos e movimentos que podem ser acolhidos no espaço da linguagem, no veículo da comunicação.

89. Por outro lado, somente aquilo que pode ser dito, o comunicável, o que é suscetível de se tornar comum, aquilo que pode ser linguisticamente articulado, ascende à consciência.

90. Tais considerações pressupõem a existência de processos psíquicos complexos e extremamente elaborados, todo um universo multifacetado de vivências, pensamentos e atos psíquicos não necessariamente conscientes, semiconscientes ou inconscientes, em todo caso não estruturados verbalmente, pois está pressuposto que a esfera da consciência se limita ao que é pior e superficial, ao comunicável, configurado linguisticamente para fins de comunicação.

91. Tanto é assim que o texto de Nietzsche diferencia explicitamente entre desenvolvimento da razão e desenvolvimento do tornar-se consciente da razão, indicando com isso que razão e consciência da razão, ou antes, razão e consciência, não são sinônimos, e que se pode pensar num instigante domínio de racionalidade não consciente.

92. Dito concisamente, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência, não da razão, mas somente do tomar-consciência-de-si da razão, vão de mãos dadas, e não é somente a linguagem que serve de ponte entre homem e homem, mas também o olhar, o toque e o gesto, tendo o tomar-consciência de nossas impressões dos sentidos em nós mesmos, a força de poder fixá-las e como que colocá-las fora de nós, aumentado na mesma medida em que cresceu a urgência de transmiti-las a outros por signos.

93. O desenvolvimento da consciência e o da linguagem, entendida nesse contexto em sentido amplo, não apenas como verbal, mas incluindo todos os meios expressivos de transmissão de vivências, caminham juntos na medida em que sua finalidade é comunicação.

94. Ora, comunicar significa também tornar comum, isto é, reduzir ao que se pode partilhar com o outro, àquilo em que um eu e um outro podem se identificar, àquilo que suprime a diferença entre ambos.

95. Como signo de comunicação das representações conscientes, a linguagem opera como os conceitos, ou seja, ela produz o idêntico, o abstrato, as significações comuns obtidas por igualação do desigual e pela supressão da diferença individual, e nesse sentido não pode expressar o que é singular e autenticamente único, já que seu elemento próprio é o abstrato, aquilo que é abstraído de um e de outro, o elo que os liga, o corte médio entre eles, aquilo que por ser comum a ambos não é mais estritamente nem um nem outro.

96. O homem inventor de signos é ao mesmo tempo o homem cada vez mais agudamente consciente de si mesmo, e somente como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si mesmo, e ele o faz ainda, cada vez mais.

97. A linguagem, a consciência e a sociedade têm uma origem comum, e sendo assim há que se admitir que nem a consciência, nem a linguagem, nem a sociedade são um dado, um fato natural não sujeito à transformação, ao vir-a-ser e à história, pois nesse domínio nada há que seja dado de uma vez por todas, mas o mesmo devir que está presente na linguagem está presente também na sociedade e na consciência.

98. Mas com isso já está indicado também um outro aspecto de importância fundamental: não podemos dissociar a consciência e o desenvolvimento da consciência nem da linguagem nem da capacidade de comunicação, como também não podemos dissociá-los da consciência e do social.

99. Isso implica que nossas pretensões discursivas e comunitárias serão aquelas que nos remetem ao socius, ao próximo, e nos bloqueiam as vias de acesso ao próprio, ao si mesmo, tornando a consciência e a linguagem reféns do gregário, do identitário e do inautêntico.

100. O pensamento de Nietzsche é que a consciência não faz parte propriamente da existência individual do homem, mas antes daquilo que nele é natureza de comunidade e de rebanho, e que somente em referência à utilidade de comunidade e rebanho ela se desenvolveu e refinou.

101. Consequentemente, cada um de nós, com a melhor vontade de entender a si mesmo tão individualmente quanto possível e de conhecer a si mesmo, sempre trará à consciência precisamente apenas o não-individual em si, seu corte transversal, pois nosso pensamento mesmo, pelo caráter da consciência e pelo gênio da espécie que nele comanda, é constantemente como que majorizado e retraduzido para a perspectiva do rebanho.

102. Numa inversão paródica da ironia socrática, conhecer-se a si mesmo, na medida em que significa tomar-consciência-de-si, implica perder-se de si mesmo, daí a importância do jogo permanente operado por Nietzsche entre Gemeinde e gemein, sem perder de vista a conotação pejorativa que o termo tem em linguagem coloquial.

103. De modo provocativo e cínico, o texto pretende insinuar que somente o que é gemein ingressa na esfera da consciência, porque a consciência se desenvolve em função, sob a perspectiva e a pressão dos juízos de valor da Gemeinde ou Gemeinschaft, substantivos sinônimos em alemão que significam comunidade social.

104. Com isso, a genealogia nietzscheana traz à luz também a raiz do parentesco originário entre a consciência, a linguagem e a moral, isto é, as formas e hábitos de avaliação presentes nos usos e costumes, nas regras praxeológicas e nas formas de conduta orientadas e legitimadas por valores e crenças socialmente partilhados.

105. Esse é um dos principais sentidos do terminus nietzscheano rebanho, moral do rebanho, perspectiva do rebanho, que tem a função de ressaltar o ponto de vista e o modo dominante de valoração do senso comum, o igualitário e uniformizante, pois em um rebanho não se consideram principalmente as características singulares, e cada indivíduo vale e é contado unicamente como exemplar da espécie.

106. Ao afirmar que a unidade da consciência, a alma, o intelecto e o espírito não constituem o núcleo da subjetividade, que tomar consciência de si é perder-se a si mesmo para si mesmo e que temos que postular uma racionalidade inconsciente em sintonia com o corpo e os impulsos, Nietzsche pretende subverter toda uma ancestral tradição filosófica que vai de Sócrates ao idealismo alemão, passando pelos pensadores medievais, por Descartes, Leibniz e todos os pais fundadores da filosofia moderna.

107. A consciência não pode mais ser pensada como o atributo essencial da substância Eu, nem mesmo, uma vez destituída daquela dignidade ontológica que lhe atribuía a metafísica dogmática, como apercepção transcendental que, nos termos de Kant, deve ser necessariamente pensada como elemento formal, unidade sintética que acompanha indefectivelmente todas as nossas representações.

108. Ao fazê-lo, Nietzsche descortina uma cumplicidade inusitada entre filosofia e psicologia que nos reconduz ao aforismo 23 de Para Além do Bem e do Mal, pois a desconstrução do tradicional primado da consciência não produz efeitos unicamente no âmbito da teoria do conhecimento e da crítica da religião e da metafísica, mas abre novas perspectivas para uma verdadeira ciência da psique.

109. Na medida em que a psicologia permanece sob a limitação imposta pelo primado da consciência, persistindo em identificá-la com o psiquismo em geral, é toda a psicologia que se mantém cativa da perspectiva do rebanho, ou seja, dos fetiches e hipóstases atávicas gestadas no seio do gênio da espécie.

110. Liberada dessas superstições e preconceitos ancestrais, a psicologia poderia enfim se constituir como saber renovado, fundado numa concepção pluralista da subjetividade, da alma e do Eu, descortinando-se para uma tal psicologia um conceito novo de racionalidade produto da dissolução das pseudo-evidências da metafísica tradicional, como a crença na unidade eterna e monádica da alma, estando por fim aberto o caminho que conduz aos problemas fundamentais.

111. Além disso, seria necessário chamar a atenção para um importante elemento adicional, pois a crítica de Nietzsche ao primado da consciência se desenvolve a partir de uma recusa do tipo homem ou do ideal de humanidade surgido em uma sociedade civil burguesa emergente da revolução industrial, mais precisamente de uma sociedade de massa em que vigora hegemonicamente o privilégio do coletivo em detrimento do individual.

112. Desse ponto de vista domina a desconsideração da diferença e da singularidade, de modo que a postura nietzscheana traz consigo também uma resistência ao modo dominante de valoração moderna, uma crítica da modernidade política.

113. Nossas ações são no fundo todas elas pessoais de uma maneira incomparável, únicas e ilimitadamente individuais, mas tão logo nós as traduzimos na consciência elas não parecem mais sê-lo, e isto é propriamente o fenomenalismo e perspectivismo assim como Nietzsche o entende, pois a natureza da consciência animal acarreta que o mundo de que podemos tomar consciência é apenas um mundo de superfície e de signos, um mundo generalizado e vulgarizado.

114. Tudo que se torna consciente justamente com isso se torna raso, ralo, relativamente estúpido, geral, signo e marca de rebanho, pois com todo tornar-consciente está associada uma grande e radical corrupção, falsificação, superficialização e generalização.

115. Por conseguinte, a sobrevalorização da consciência não garante necessariamente a objetividade plena do conhecimento nem o acesso à estrutura ontológica da realidade, mas precisamente uma redução à perspectiva do comunicável, portanto a uma espécie própria de perspectivação, aquela das generalidades e superfícies.

116. Por último, a consciência que cresce é um perigo, e quem vive entre os mais conscientes dos europeus sabe até mesmo que ela é uma doença, não sendo a oposição de sujeito e objeto que importa aqui, distinção deixada aos teóricos do conhecimento que ficam presos nas malhas da gramática, a metafísica do povo, nem bem a oposição entre coisa em si e fenômeno, pois estamos longe de conhecer o bastante para sequer podermos separar assim.

117. Não temos justamente nenhum órgão para o conhecer e para a verdade, e sabemos ou acreditamos ou imaginamos precisamente o tanto que no interesse do rebanho humano e da espécie pode ser útil, e até mesmo o que aqui é denominado utilidade é por último simplesmente uma crença, uma imaginação e talvez precisamente aquela estupidez, a mais fatal de todas, de que um dia sucumbiremos.

118. Tudo aquilo que sabemos, o que se torna consciente, e precisamente na medida em que isso ocorre, já se tornou prisioneiro dessa teia da comunicação linguística, estando portanto prefigurado na estrutura lógico-gramatical formada pelas categorias e regras de nossa linguagem, de modo que algo assim como a realidade objetiva é indizível e portanto inacessível à consciência.

119. Todo conhecimento consciente e discursivo é necessariamente perspectivo, ficcionado a partir da gramática da linguagem e formulado em termos de comunicação, e sabemos pois apenas precisamente o tanto que no interesse do rebanho humano e do gênio da espécie pode nos ser útil.

120. Isso porém não desemboca numa genealogia utilitarista da consciência e da linguagem, pois Nietzsche se apressa em relativizar o ponto de vista utilitário, já que situar-se na perspectiva da utilidade implica recorrer a uma categoria da linguagem que faz parte da mesma rede de conceitos que está na origem comum da linguagem, da consciência e da sociabilidade.

121. Nada garante, em derradeira instância, qualquer posição privilegiada fora da rede das perspectivas, na medida em que a perspectiva crítica de onde se enuncia o discurso de Nietzsche se insere ela também no horizonte lógico-gramatical comum das perspectivas possíveis, como um elemento da rede de comunicação.

122. Essa é a razão pela qual, no aforismo comentado, Nietzsche começa a extrair as consequências de sua hipótese genealógica pelo termo grifado suposto que essa observação é correta, e o único privilégio que pode reivindicar para sua hipótese e suas conclusões consiste num aprofundamento e intensificação do elemento essencial da própria consciência, isto é, no aprofundamento da reflexão.

123. A perspectiva crítica só pode ser tal porque reduplica a reflexão, voltando-a contra si mesma, problematizando-se e pondo a si mesma em questão, e nesse sentido seu elemento é a auto-reflexão, a partir daí não podendo se furtar ao reconhecimento de seu próprio caráter perspectivo.

124. Percebe-se pois que a instituição de uma interpretação global do mundo fundada numa teoria perspectivística do conhecimento, ou seja, a ambição nietzscheana de subversão da tradição metafísica ocidental, é uma tarefa que passa necessariamente pela redefinição do objeto tradicional da psicologia.

125. É somente depois de nos desembaraçarmos dos preconceitos da alma, do Eu, do Eu como sujeito e do sujeito como unidade da consciência que a psicologia poderá então nos instruir com um conhecimento efetivo e esclarecido acerca da natureza da nossa subjetividade, abrindo caminho para uma sóbria, lúcida e realística crítica do conhecimento que nos esclareça sobre os limites e as possibilidades da razão.

126. Eis por que esse primeiro movimento de interpretação nos permite compreender ao mesmo tempo por que Nietzsche pode se intitular o primeiro psicólogo da Europa e por que é justamente a psicologia a ciência que conduz aos problemas fundamentais.