A período abrangida pelos textos reunidos e coordenados estende-se por mil e duzentos anos, desde a segunda década do século V da era cristã, dividindo-se em duas partes: a primeira vai de A Cidade de Deus, de santo
Agostinho, até A Arte Geral Ultima, de Raymond Lulle, e a segunda começa com a obra de mestre Eckhart, da qual se retém simbolicamente o sermão Do homem nobre, e conduz a A Nova Atlântida, de Francis
Bacon.
A primeira etapa, cronologicamente muito mais longa, comporta vastas zonas de sombra, enquanto a segunda, do fim do século XIII ao início do século XVII, liga-se de modo mais imediato ao nascimento do mundo moderno.
Esses textos concernem todos, em modos diversos, à gênese da pátria europeia, objeto atual de tantos cuidados e inquietações, agregado de fronteiras indefinidas de populações de origens e sensibilidades variadas, cuja unidade cultural foi melhor assegurada em tempos em que uma língua comum favorecia a comunicação das ideias e em que os valores dominantes, por contestáveis que possam parecer, estavam menos ligados a slogans publicitários.
A importância, ao longo de todo o período considerado, do fato cristão e da herança grega, paralelos, conjugados ou diretamente antagônicos, justifica na primeira parte reflexões mais gerais sobre a linguagem da Escritura, sobre as nomeações do Inominável, sobre a noção controversa de filosofia cristã e sobre as ambiguidades de uma ética cujas fontes bíblicas e helênicas por vezes se conciliam mal.
O restante dos dois volumes concerne essencialmente ao Ocidente latino e toca apenas ocasionalmente as comunidades judaicas, o Islã e Bizâncio, tratando-se na maioria das vezes de filosofia, mas entendida de modo bastante amplo para tocar a teologia, por muito tempo pouco separável de toda reflexão teórica sobre o homem e sobre o mundo, e para fazer às construções econômicas e políticas o lugar que lhes mediram por vezes os historiadores das doutrinas.
A escolha editorial dos pontos de partida e de chegada visa esclarecer o propósito e marcar melhor sua coerência: a referência primeira a A Cidade de Deus, concluída em 426, longe de desconhecer a contribuição essencial de
Agostinho à análise do tempo e ao primado da interioridade, liga à sua filosofia da consciência o esboço de filosofia da história apresentado no limiar da media tempestas, denominação proposta desde o fim do século XV por André de Bussi, antigo secretário do cardeal de Cusa.
No outro extremo de um itinerário assinalado de modo muito descontínuo, colocou-se simbolicamente a ficção inacabada que compôs em 1627 Francis
Bacon, recém-evitado de suas funções de chanceler, privilegiando uma obra oriunda da linhagem dita utópica, vinda de Platão por Thomas More e, de modo mais sangrento, por Thomas Münzer, sem que isso suponha pouco apreço pelo Novum organum, obra geralmente reconhecida como anunciadora da modernidade.
Por essa dupla face, o britânico
Bacon se assemelha, em outro estilo, ao italiano Campanella, jovem monge inicialmente envolvido em uma revolta armada, depois conselheiro mal ouvido de vários soberanos, longamente prisioneiro de Estado, metafísico ousado, mas sobretudo autor de uma Cidade do Sol que, não fosse o receio de certa equívoco, poderia ter sido escolhida como pendant de A Cidade de Deus.
A escolha do ponto de partida e da linha de chegada, em que figuram de certo modo dois concorrentes, justifica-se por uma dupla conjuntura: primeiro, a situação de
Agostinho, africano transplantado para a Itália para ensinar retórica, inicialmente seduzido por um dualismo vindo da Ásia, que passou pelo probabilismo da Nova Academia, depois convertido, tornou-se contra Pelágio o severo apologista de uma salvação por pura graça, antes de meditar, na velhice, sobre a tomada de Roma por um desses chefes bárbaros que deveriam doravante garantir um novo destino à romanidade vacilante.
Leitor de Cícero e de Varrão, mas também, por intermédios latinos, das Enéadas plotinianas,
Agostinho permanecerá até a idade clássica, para toda a Europa ocidental, o mais ouvido dos mediadores encarregados de transmitir-lhe, com todas as aporias que acarreta sua problemática harmonização, um duplo legado: o fundo cultural de sabedoria helênica e a versão cristã de uma promessa mais antiga e mais exigente, vinda de Moisés e dos profetas hebreus.
Quase não menos significativa parece a ocorrência que permitiu, não ao chanceler britânico, morto havia uma dezena de anos, mas ao dominicano calabrês, pouco mais jovem, atar com o futuro a cadeia das reiterações e das inovações: após sua Cidade do Sol, seguindo em 1600 com três quartos de século a Utopia moreana, Campanella havia se tornado muito mais sensato, aliado turbulento e sempre suspeito da Contrarreforma, pensionado por Richelieu, foi ele quem em 1638, em uma ode que se queria profética, ao delfim recém-nascido, futuro Rei-Sol, previu uma vocação de pacificador da humanidade retornada à idade de ouro, no momento mesmo em que acabava de aparecer o Discurso do método, manifesto de uma nova maneira de os humanos se fazerem senhores e possuidores da natureza.
Na primeira parte, estudando o papel da técnica na Idade Média e notadamente o lugar reconhecido às artes mecânicas desde o século XII pelos enciclopedistas da escola de São Vítor, relendo os Fioretti para ressaltar certos aspectos socioeconômicos da pobreza franciscana, buscando em Duns Scot, o mais metafísico dos frades menores, o contraponto, em sua teoria do contrato social, entre a iniciativa voluntária dos livres sujeitos e as exigências do direito natural, tentou-se fazer sobressair a antiguidade de alguns temas destinados, na Europa moderna, a um riquíssimo futuro.
O capítulo consagrado a Abelardo, com a moral da intenção de um lado e a esperança de outro de um sincero e frutífero diálogo entre a filosofia e as religiões, é igualmente de evidente atualidade, embora tenha sido restringido para não fazer dupla função com as novas traduções comentadas publicadas nas Éditions du Cerf.
Igualmente justificados, em outra perspectiva, parecem os estudos sobre a síntese erigeniana, sobre o lirismo naturalista de Alain de Lille, sobre os equívocos de uma realeza santa a propósito de Luís IX, e, por quimérico que seja o sonho lógico de Lulle, ele prefigura no entanto a combinatória, senão a mais recente informática.
Dada a voga atual do budismo zen, talvez não se faça censura por se ter demorado, no início da segunda parte, junto a Eckhart e seus discípulos, tocando por essa via, como através de Lulle, duas das fontes do Cusano, personagem ao qual se consagrou importante parte das pesquisas desde que foi descoberto, em busca dos inspiradores de Bruno, e a quem se desculpará por ainda aqui ter dado lugar privilegiado.
Matemático sensível ao paradoxo das passagens ao limite, astrônomo amador mas que concebeu ousadamente a infinidade cósmica, pregador da livre discussão e da paz religiosa, o Cusano não era o anunciador de uma Declaração cujo bicentenário se acaba de celebrar, quando escreveu, desde sua primeira obra, que, nascendo livres e iguais, os humanos só se devem submeter a outros por via de consentimento e eleição?
Embora
Agrippa de Nettesheim, o Herr Tripa de Rabelais, apareça nessa obra apenas como apologista, senão de um verdadeiro feminismo, ao menos da feminilidade, não se poderia ocultar a insistente ou insidiosa presença do esoterismo: a astrologia ficiniana, o simbolismo paracelsiano, o sofianismo boehmiano não são corpos estranhos ao patrimônio europeu, que integrará sob diversas formas a herança disparatada, desde o tema goethiano das afinidades até as versões junguianas da psicologia das profundezas.
Certamente Paracelso parece bem arcaico ao descrever hipotéticas correspondências entre o estado do firmamento e a evolução das doenças, mas foi o observador atento dos riscos corridos pelos mineiros, e sua posteridade hahnemaniana não é menos viva hoje que as outras medicações ditas suaves.
Bastante preocupados com estruturações escalonadas em ordens para fornecer ao positivismo de Comte um modelo orgânico, os medievais eram seguramente fascinados por muitas formas do maravilhoso, e depois deles, em plena continuidade, os homens da Renascença viveram em um universo mágico em que o panpsiquismo se liga às harmonias supostas entre macrocosmo e microcosmo.
Mas o racionalismo esclarecido não teve de lutar, século após século, sem excetuar o do Aufklärung, contra as resurreições do entusiasmo que, para o jovem
Descartes, com ou sem iniciação rosa-cruz, foi sem dúvida um muito eficaz estimulante?
De que maneira, dir-se-á, tudo isso seria propriamente europeu? Lembremos que, por seu nascimento, sua educação, suas sucessivas opções e as fontes tanto de seu pensamento quanto de sua religião, o autor de A Cidade de Deus pertencia aos três antigos continentes, isto é, às três porções do litoral mediterrâneo que separavam apenas as finas fronteiras de um istmo e de um estreito.
Na véspera de seu desmoronamento, cortado em dois desde Constantino, o império romano estendia-se ainda aproximadamente do Magrebe ao mar do Norte e do Atlântico ao Oriente Médio.
Pode-se dizer, como faz Jacques Attali em seu recente 1492, que o gigante Europa teve de entrar em sono por mais de um milênio? Parece ao contrário que foi justamente durante esse período que esse conglomerado, ainda mal definido, tomou pouco a pouco consciência de sua identidade, senão do papel que lhe reservava o futuro.
Foi então também, sobretudo uma vez islamizadas a África setentrional e grande parte da Ásia próxima, que o continente europeu, bem limitado a oeste por anteparos marítimos mas tendo a leste apenas fronteiras bastante flutuantes, se densifica e se dinamiza em direção à sua fachada atlântica.
Da Irlanda à Sicília, dos Pirineus aos Cárpatos, das bocas do Danúbio às do Oder, após longa vizinhança e mais de uma brutal colisão, institui-se uma osmose, a partir do que resta do legado judaico-helênico, entre a germanidade quase sedentarizada e a nova romanidade, imperial e papal.
Equilíbrio instável, precipitado incerto, matriz no entanto de onde saem em grande parte as ideologias e as estruturas tanto da pequena Europa bruxelense quanto das nações que a ela se aparentam e se emparelham.
O topos da translatio studiorum, retomado em outro tom pelo motivo renascentista do adormecimento e do despertar periódicos, sugere, ora desvalorizado pela hantise do declínio, ora valorizado em religião do progresso, a ideia de uma transmissão do saber e correlativamente do poder do Levante ao Poente.
A Atenas de Platão, não menos que a egípcia, acreditou-se herdeira de uma civilização oceânica, a de um continente engolido; para esse misterioso Okeanos atlântico vão agora precipitar-se, das caravelas hispânicas às modernas fragatas dos colonizadores, febre de descoberta e insaciável apetite de dominação.
Certamente foram necessárias a bússola e talvez o zero, vindos como a pólvora e o princípio da tipografia do mais distante ou do mais próximo Oriente, mas adaptados a fins novos por essa industriosa tecnicidade que, antes de ser imitada e ultrapassada por outras, pareceu uma das diferenças específicas do homo europaeus occidentalis.
Se o Ulisses da Commedia, partido de novo para o Poente em busca de terras inabitadas, terreno de caça só digno de sua vontade de potência, afunda-se em um mar austral, no antípoda de Jerusalém, nesse abismo onde talvez desde sua revolta caiu Lúcifer, não era no entanto o Estagirita, mestre dos que sabem, que, em textos familiares a seus comentadores medievais, havia anunciado uma possível navegação das Colunas de Hércules a esses litorais da Índia onde, por rota terrestre, acabava de chegar seu aluno Alexandre?
E não é esse mesmo impulso que, reforçado agora por outro gosto de se espalhar, passado do sonho ao ato graças aos novos instrumentos de saber e de poder, moveu os conquistadores e seus sucessores mais setentrionais a transportar a Europa para sucursais transoceânicas?
Bacon e Campanella situam, é verdade, na Ásia a nova Atlântida e a cidade do Sol, uma e outra descritas como os lugares onde se manifesta a dupla potência do saber teórico e da engenhosidade prática, e More imagina para os utopianos longínquas origens orientais.
Parece no entanto muito significativo, ainda que apenas no nível do símbolo, que More empreste seu relato de viagem e a descrição da Ilha de Nenhures a um companheiro desse Vespucci que, por seu prenome Amerigo, e como decidiu um cartógrafo de Saint-Dié, será o padrinho do Novo Mundo, dessa reserva de bons selvagens tornada tão rapidamente o terreno das mais destrutivas explorações, mas em seguida também essa espécie de melting pot onde crescem, por vezes até a caricatura, alguns traços essenciais da europeidade ocidental: exigência ética e religiosidade aliadas ao sentido dos negócios, organização racional da pesquisa científica e gosto do jogo que transpõe em Disneyland os carnavais e as festas dos loucos.
Certamente, em tempos em que ainda não tinham curso, para dizer a Europa, as expressões concerto e, mais tarde, comunidade, falava-se antes de república cristã; resta que, desde a época carolíngia, trata-se de um conjunto designado como tota occidentalis Europa.
Se, a crer em Dante, a família Malespina, que acolheu o poeta em seu exílio, já se havia coberto de glória per tutta Europa, é, mais significativamente, sobre toda a Europa também que são Domingos e são Francisco fizeram soprar um benfazejo zéfiro.
E quando o peregrino do Paraíso, verdadeiro astronauta, eleva-se nas nuvens, descobre, em um só olhar do alto, Colunas de Hércules e Fenícia, isto é, o estreito que atravessou seu Ulisses para empreender, antes de Colombo, a louca passada, e, em direção à velha Ásia, o litoral no qual a jovem princesa Europa se deixou engravidar por Zeus disfarçado de touro.
Nesse encontro panorâmico de uma ficção e de uma lenda, decela-se facilmente o mitema de uma aspiração central em toda a obra de Dante: a unificação pacífica do ecúmeno sob a tripla autoridade do Filósofo, sem dúvida Aristóteles, mas em cada disciplina o conselheiro mais qualificado, isto é, o detentor do verdadeiro saber, do Imperador, tendo retomado consciência de sua função federadora, e do Papa, mas despojado dos bens e poderes temporais e limitando seu magistério ao domínio do além.
É bem claro que esse globo terrestre pacificado, sobre o qual se efetuaria a totalidade do que contém o intelecto possível, traço curioso de averroísmo, não é mais que um sonho de poeta, mas com base em esperanças primeiramente italianas e, mais amplamente, europeias.
Em seu tratado sobre esse falar vulgar ao qual, por sua obra em toscano, confere tanta dignidade, e sabe-se em que estima teve nossa poesia occitana, é ainda a Europa que Dante descreve expressamente como herdeira das antigas civilizações orientais, capazes agora de abrevar com a água de seus rios criaturas racionais, quer vindas do Leste, quer autóctones retornadas a seu ponto de origem, divididas linguisticamente em falares de ja, d'oil, d'oc e de si, mas sem nunca esquecer que, como lembra com insistência um tratado mais diretamente político, todas descendem, pela itálica Lavínia, do mesmo Eneias, meias-irmãs por conseguinte, mas caçulas privilegiadas, dos filhos asiáticos de Creúsa e africanos de Dido.
Por aí, graças ao mito herdado de Virgílio, afirma-se a pretensão europeia a todas as primazias.
Assim, de múltiplas maneiras, em textos nascidos em diversas circunstâncias, podem-se reencontrar traços mais ou menos característicos de um lento gênio da modernidade europeia, que só toma todo o seu sentido, bem entendido, pela história do Ocidente ao longo dos quatro últimos séculos, sem prejulgar o que advirá no limiar de um próximo milênio.
Relendo esses escritos, antigos ou mais recentes, mede-se quanto a atualidade muitas vezes apanha de surpresa o observador que se quer imparcial.
Ao longo de um século que conheceu, criança, quase desde seus inícios tão promissores no tempo do modern style e dos balés russos, do debussismo, do bergsonismo e do marinettismo, da aviação e da radioterapia nascentes, da tração elétrica e das ondas hertzianas, quando mal se pressentiam as consequências da relatividade einsteiniana e da análise freudiana, pouco antes da catástrofe de um conflito sanguinário entre povos que o desenvolvimento da civilização, senão da cultura, parecia a cada descoberta aproximar mais, antes dessa revolução bolchevista e dessa reação fascista que entusiasmaram ou indignaram durante três quartos de século para finalmente tomar figura de simples acontecimentos, mas ligados a lutas pela sobrevivência e pela honra e a uma soma inaudita de sofrimentos humanos, o autor confessa que tantas ilusões de antes de 1914 ou de depois de 1918 foram desmentidas de modo demasiado cruel para que, no crepúsculo de sua vida, por mais sensível que seja ao atrativo das utopias reguladoras e antecipadoras, se deixe facilmente embalar pelo canto das Sereias, mas em uma economia de mercado regida pela lei do lucro, onde essas aves se aninharam?
A última palavra, no entanto, permanecerá sendo a de uma razoável esperança na utilidade de leais confrontações, no espírito de Abelardo, de Lulle, do Cusano, de Postel e de alguns outros tratados de ingênuos, e, seja o que for que tenha ensinado
Valéry, de uma certa atenção, um pouco desabusada, às lições da história.