0 Introdução

GABRIEL, Markus. Gutes tun: wie der ethische Kapitalismus die Demokratie retten kann. Ungekürzte Ausgabe im Ullstein Taschenbuch, 1. Auflage ed. Berlin: Ullstein, 2025.

1. Vive-se uma era de crises sem precedentes, em que novas guerras, militarização, desigualdade crescente, crise climática, migrações em massa e a expansão de tecnologias digitais como a inteligência artificial, que elimina empregos e acelera a polarização pelas redes sociais, avançam num ritmo que mídia, política e sociedade civil não conseguem acompanhar, como se a humanidade caminhasse sonâmbula rumo a uma reviravolta global potencialmente catastrófica.

2. O modelo civilizatório da Modernidade, baseado na promessa de que a união entre progresso técnico-científico e econômico numa sociedade liberal e democrática traria paz e felicidade, fracassou, pois seus danos colaterais, como a mudança climática e a desigualdade global, já superam suas vantagens, faltando-lhe o ingrediente essencial do progresso humano alcançado pelo pensamento e pela ação éticos em todos os níveis da sociedade.

3. Superar a era das crises exige um novo contrato social e um Novo Iluminismo, que reconecte com urgência o progresso moral e humano aos meios socioeconômicos de produção de bens e serviços, e, portanto, de prosperidade e bem-estar.

O negócio da economia é fazer o bem

1. Não é necessária uma revolução nem uma mudança de sistema, que nas democracias liberais só pioraria as coisas, mas inovações radicais guiadas por uma nova visão do bem, ao mesmo tempo realista e utópica, capaz de preservar o que há de valioso no presente e reformá-lo à luz da ideia de progresso como mudança social positiva, visão compartilhada que ainda não existe e precisa ser criada pensando coletivamente adiante.

2. Como a economia é decisiva para a estabilidade social e para as condições de uma vida boa, o Novo Iluminismo deve realizar-se também nela, cabendo às empresas fundar seus modelos de negócio na ideia de que o êxito econômico duradouro e verdadeiro depende de fazer o bem, invertendo o lema de Milton Friedman segundo o qual o negócio dos negócios são os negócios.

3. Imaginem-se duas empresas de faturamento semelhante, chamadas Boa e Má, sendo que a Má causa graves danos ambientais, explora seus funcionários e cria um ambiente tóxico, mas à primeira vista obtém lucros elevados.

4. A empresa Boa é igualmente lucrativa segundo os critérios econômicos convencionais, que contabilizam mal a destruição ambiental e a exploração, mas tem funcionários saudáveis e satisfeitos, contribui para a diversidade e a convivência pacífica onde atua, produz bens e serviços ambientalmente compatíveis e investe parte relevante dos lucros em outras empresas de orientação social.

5. Todos consideram a Boa melhor do que a Má, mesmo com lucros iguais, o que revela a preferência por condições em que o lucro se obtém fazendo o bem e agindo com respeito, intuição humana universal expressa no conceito kantiano de sumo bem, segundo o qual é melhor que as pessoas sejam felizes por merecerem a felicidade do que por agirem mal, e que pode orientar a melhoria das instituições e das sociedades.

6. Colin Mayer, professor emérito de gestão em Oxford, sustenta em Capitalism and Crises que o capitalismo pode ser reformado com base nesse princípio, que ele chama de lei moral, já que, tendo prometido resolver problemas humanos por meio dos mecanismos de mercado, deve ser avaliado à luz da moral individual e coletiva.

7. Inspirada na argumentação de Mayer e numa estreita colaboração com ele para aproximar economia e filosofia, a máxima de que o negócio da economia é fazer o bem conduz à proposta de um capitalismo ético, que não é mera ilusão, como mostram exemplos bem atuais.

O caso das redes sociais

1. As redes sociais, como Facebook, Twitter, WhatsApp, Snapchat e TikTok, são economicamente muito bem-sucedidas, mas contribuíram para um enorme retrocesso democrático ao permitir que atores inescrupulosos espalhassem teorias conspiratórias e mentiras e manipulassem eleições, embora seu êxito inicial derivasse justamente da promessa ética de conectar pessoas e tornar o mundo mais livre, ilusão desfeita com o fracasso da Primavera Árabe e com a constatação de que uma conectividade praticamente sem regulação também serve a inimigos do progresso moral e a terroristas.

2. Redes sociais que não incorporam estratégias de progresso moral e supervisão legal com seus próprios meios tecnológicos e econômicos estão fadadas ao fracasso, como mostram a transformação do Facebook em Meta Platforms em 2021, em parte por pressão de denunciantes e críticas públicas, e a guinada para a inteligência artificial, que, apesar da valorização inicial na bolsa, levará ao fracasso total se os novos sistemas não forem orientados por normas éticas.

3. O caso do Twitter, agora X, é ainda mais grave, pois, embora muitos o vissem como plataforma séria de informação, ele se tornou popular como meio de Donald Trump e é o paradigma de um sistema produtor de bolhas e vieses de confirmação, uma realidade fabricada pelos próprios usuários, e suas tímidas tentativas de combater fake news e bots acabaram atraindo Elon Musk, que, sob o pretexto da liberdade de expressão, reabriu as portas a todos os males e reativou a conta de Trump.

4. A Tesla, outra empresa de Musk, criou um modelo de negócio bem-sucedido e potencialmente útil contra a crise climática ao tornar o carro elétrico atraente, tecnicamente viável e economicamente sustentável, mas ainda precisa ser reformada eticamente, pois oferece condições de trabalho inaceitáveis e gera problemas como baterias pouco sustentáveis e práticas opacas e exploradoras na extração de terras raras.

5. Se as empresas destinassem parte considerável de seus lucros à investigação dos efeitos colaterais de seus modelos de negócio e de como influenciar positivamente o consumo, aumentariam suas receitas e melhorariam o mundo, pois os seres humanos têm interesse vital no bem-estar pessoal e coletivo e preferem um mundo em que a prosperidade resulte de ações moralmente boas e em que se possa confiar nas intenções de instituições, líderes empresariais e visionários tecnológicos.

6. A compreensão de como as redes sociais se tornaram um risco democrático e econômico permite desenvolver sistemas melhores, como uma rede chamada AGORA, autorregulada, que identifica e remove discursos de ódio, ajuda os usuários a formular mensagens corteses, colabora com veículos de qualidade, oferece participação nos lucros proporcional aos dados produzidos e emprega cientistas políticos, estudiosos da cultura, jornalistas e especialistas em ética ao lado dos desenvolvedores para melhorar a esfera pública democrática.

7. Não há razão para não criar imediatamente uma rede assim, que poderia ser um sucesso econômico sobretudo na Europa se os fortes veículos de imprensa de qualidade, em geral de atuação nacional, cooperassem para lançá-la, preenchendo uma verdadeira lacuna de mercado para um produto de alto valor moral.

Precisamos de reformas radicais, não de revoluções

1. Para resistir aos ataques internos de partidos e movimentos extremistas e externos da manipulação e propaganda russa e chinesa, o modelo civilizatório da democracia liberal baseada na economia de mercado precisa retomar sua promessa original de criar boas condições de vida para o maior número possível de seres humanos e não humanos, o que exige uma série de reformas éticas radicais.

2. A humanidade enfrenta simultaneamente várias ameaças existenciais, como guerra nuclear, sistemas de inteligência artificial superinteligentes voltados contra sociedades e infraestruturas, vírus e bactérias letais e a destruição dos ecossistemas, e para preparar-se contra elas precisa de uma visão positiva.

3. Essa visão positiva deve concretizar-se em ações nas quais indivíduos, coletividades locais, instituições e a sociedade identifiquem e realizem juntos o eticamente correto onde podem atuar, tarefa sujeita a erros, pois o bem não se realiza automaticamente pela mera formulação de exigências morais.

4. Diante dos desafios atuais não se pode paralisar de medo nem fugir, pois não existe um planeta B, situação que a cantora francesa Camille resume na canção Mars is no Fun, em que uma moradora de Marte lamenta, anos depois da mudança, a falta de água e de ar que o folheto de propaganda omitira.

5. A canção lembra, com razão, o valor do que ainda se tem, ao exprimir o desejo de voltar à Terra para a vida comum entre os outros, nos conjuntos habitacionais e nos passeios vespertinos pelo shopping de Milton Keynes.

6. A primeira reforma radical consiste, surpreendentemente, em aproveitar as vantagens do sistema atual, reformando o capitalismo em seus pontos fracos apontados pelos críticos em vez de buscar rotas de fuga do capitalismo, da democracia ou do planeta, o que exige reconhecer o valor das conquistas modernas, que libertaram bilhões de pessoas da pobreza extrema, tornaram a vida nas sociedades prósperas mais agradável do que nunca e permitiram compreender moralmente os erros da Revolução Industrial e as catástrofes que ela causou.

7. A capacidade de criticar os efeitos e pressupostos nocivos da Modernidade, inclusive os danos ecológicos, a exploração dos trabalhadores, as origens coloniais, a injustiça de gênero e outras discriminações do capitalismo, é ela mesma fruto do projeto moderno e do próprio capitalismo, que deve, por isso, ser radicalmente reformado em vez de abandonado.

8. A economia é responsável não apenas por aceitar a regulação estatal externa, mas também por autorregular-se, pois só assim pode ajudar a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, que incluem a superação da pobreza, a igualdade de gênero, condições dignas de trabalho, crescimento econômico, paz, justiça, instituições fortes e a proteção da vida de outras espécies na água e na terra.

9. As empresas poderiam desenvolver modelos de negócio voltados à igualdade de gênero ou à proteção da natureza, como a ampliação dos dirigíveis para viagens, considerada por especialistas muito mais sustentável do que os aviões, viável e lucrativa, ou a reorientação do turismo para ofertas mais locais e sustentáveis de lazer, contato com a natureza e desenvolvimento pessoal.

10. Esses modelos não devem pretender exclusividade, pois o ser humano permanece livre também no consumo, e a solução empresarial está em criar ofertas mais atraentes, como pratos sem carne que simplesmente tenham melhor sabor, de modo que soluções híbridas sejam preferíveis à busca de univocidade absoluta, diferença entre um capitalismo ético afeito ao livre mercado e as exigências moralizantes e urgentes de uma burguesia urbana autoproclamada progressista que afastam muitas pessoas, como mostraram as eleições europeias de 2024.

11. Mais radical é a proposta de uma nova ética da inteligência artificial que desenvolva sistemas voltados à mudança social positiva e ao progresso moral, em vez de modelos aparentemente neutros que abalam os sistemas sociais, capazes, por exemplo, de ajudar a compreender como pessoas de diferentes culturas pensam e vivem e o que todos têm em comum, o que exige reformar o mundo empresarial incluindo especialistas das humanidades, sobretudo da filosofia e da ética.

12. É necessária uma nova ética que não restrinja os mercados freando a inovação nem se limite a combater atores mal-intencionados e monopólios, mas que, ao lado das regulações e intervenções estatais necessárias, seja formulada e aplicada em contextos socioeconômicos reais para elevar a economia de modo que atenda às necessidades efetivas das pessoas de hoje e de sociedades futuras moralmente mais avançadas.

13. Um sufrágio verdadeiramente universal, que inclua o voto das crianças, decorre da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da legitimidade governamental fundada no voto geral e igual, o que exige superar a visão paternalista das crianças como seres ainda não plenamente racionais e recorrer às humanidades, à psicologia, à ciência política, à neurociência e aos estudos culturais para propostas concretas, das quais podem surgir modelos de negócio que considerem a influência da economia sobre o consumo e o ambiente social das crianças.

Um livro democrático

1. Preservar a democracia liberal e aperfeiçoá-la por meio de um capitalismo ético exige uma argumentação acessível à maioria dos cidadãos, que evite o jargão filosófico e técnico, explique seus conceitos e torne o raciocínio o mais transparente possível, de modo que não seja necessário diploma universitário nem formação em filosofia para acompanhá-la.

2. O Novo Iluminismo inclui a ideia de um espaço público em que cada um possa levar seu conhecimento ao centro da autodeterminação política, o que requer um novo tipo de filosofia social, política e economicamente engajada, que se expresse com a máxima clareza, único caminho para melhorar coletivamente o pensamento e, espera-se, também a ação.