0 Introdução

GABRIEL, Markus. Moralischer Fortschritt in dunklen Zeiten: Universale Werte für das 21. Jahrhundert. Berlin: Ullstein Verlag, 2020. / Ética para tempos sombrios: Valores universais para o século XXI. Tradução: Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2022.

1. Os valores de liberdade, igualdade e solidariedade, tidos por autoevidentes desde a queda do muro em 1989 e concretizados na economia social de mercado, parecem ter saído dos trilhos, num processo de ressurreição da história acompanhado de confusão moral e de uma crise de valores que contamina a democracia.

2. Países como Estados Unidos, Polônia, Hungria e Turquia afastam-se cada vez mais da compreensão do Estado de direito como sistema de valores moralmente fundamentado, enquanto na Alemanha o crescimento do terrorismo de extrema-direita sinaliza uma sociedade cindida entre forças liberais progressistas e grupos nacional-fundamentalistas racistas ou xenófobos.

3. A pandemia de Covid-19 acentuou a crise de valores, mas também gerou uma nova solidariedade ao levar a política a sobrepor a proteção da vida à lógica neoliberal do mercado, algo que nem as crises climáticas mais fatais haviam conseguido provocar.

4. A crise tornou evidente a necessidade de um novo modelo de sociedade assentado em base mais estável do que a globalização puramente econômica, que desmoronou diante do vírus e talvez tenha gerado mais custos do que ganhos desde 1990, inclusive pelos danos de uma lógica de mercado desenfreada e de uma digitalização que desestabiliza os ideais liberais.

5. Toda crise traz, ao lado dos riscos, a chance de aprimorar as relações sociais, e a da Covid-19, ao funcionar como espelho de quem somos, abre espaço para uma transformação humana positiva orientada pela intelecção moral.

6. Identificar modelos de pensamento insustentáveis e propor sua superação é tarefa da filosofia, que, no entanto, depende da cooperação com as demais ciências e de uma colaboração confiante entre ciência, política, economia e sociedade civil para elaborar uma visão do bem sustentável, na expressão de Brian Leiter.

7. Uma sociedade esclarecida exige abandonar a ideia de que a convivência humana é regida fundamentalmente pela competição e pela disputa distributiva contidas apenas por controle estatal, visando antes à autonomia de seus membros e a um espírito de confiança global, isto é, a mais solidariedade.

8. O acúmulo de crises no início de 2020 expôs as fraquezas de uma ordem mundial organizada quase exclusivamente pela globalização econômica, mostrando que solidariedade e cooperação não funcionam quando só os mercados, movidos por competição, lucro e nacionalismo, têm voz.

9. A disseminação das mídias sociais na última década evidenciou que a história não conduz automaticamente ao avanço moral e jurídico, e a visão de um futuro ameaçado pelo fim da democracia, por pandemias, pela crise climática e pela inteligência artificial impõe a pergunta urgente sobre o que se deve fazer.

10. Antes de julgar a pertinência dessa impressão, é necessário esclarecer os conceitos, pois não se pode falar de algo sem definir o que se entende por ele.

11. Fatos morais são aquilo que os seres humanos devem fazer ou deixar de fazer, constituindo reivindicações universais que estabelecem critérios de avaliação da conduta, indicam o que se deve a si mesmo, aos outros seres vivos e ao ambiente compartilhado e dividem a ação intencional em boa, má e moralmente neutra.

12. O bem, o neutro e o mal são valores éticos de validade universal, que indicam tanto o que se deve fazer quanto o que se deve evitar, cabendo à ética distinguir o agir moralmente carregado do neutro para reconhecer os espaços de ação não regulados de modo unívoco.

13. Muitas ações cotidianas são moralmente neutras, e o reconhecimento de que práticas antes condenadas, como a relação entre pessoas do mesmo gênero, pertencem a essa esfera constitui progresso moral.

14. Fatos morais exprimem-se como exigências, recomendações e proibições, ao contrário dos fatos não morais descobertos pelas ciências, que não impõem por si mesmos nenhuma reivindicação direta sobre como agir.

15. O modo eticamente defensável de tratar, por exemplo, pessoas com Alzheimer depende de fatos não morais sobre a doença, mas não se deduz deles, e o progresso moral só é possível quando se reconhece essa dependência sem dedução imediata.

16. As questões morais não se limitam ao âmbito próximo no espaço e no tempo, pois na Modernidade as ações atingem todos os seres humanos presentes e futuros, bem como outros seres vivos e o ambiente, de modo que a ética trata de valores universais que ultrapassam as pequenas comunidades cotidianas.

17. As queixas sobre o abalo dos valores do Esclarecimento e da liberdade democrática costumam omitir o que são valores e o que significa uma crise, esclarecimentos conceituais que a filosofia realiza há milênios e que sempre impulsionaram o Esclarecimento.

18. Valores morais, distintos dos econômicos, não são subjetivos no sentido de meras valorações de indivíduos ou grupos, mas critérios pelos quais se julgam as representações de valores, que podem ser corretas ou incorretas conforme os fatos morais.

19. O bem e o mal, polos extremos da reflexão moral, são conhecidos sobretudo por exemplos, desde santos e heróis que atestam a existência de uma bússola moral até o mal radical das ditaduras totalitárias, do Holocausto e de criminosos de guerra atuais como Assad.

20. O bem é universal e moralmente ordenado e o mal é universal e moralmente proibido, independentemente de grupo, época, cultura, gênero, classe ou raça, e ambos se manifestam no pensar e no agir cotidianos de cada pessoa.

21. Democracia, Estado de direito, divisão de poderes e ética só existem porque a humanidade sempre se perguntou como aprimorar-se moral e juridicamente, o que torna urgente, na atual crise, um novo Esclarecimento.

22. Existem balizas morais do comportamento humano que abrangem todas as culturas, valem universalmente independentemente de reconhecimento majoritário e, por isso, são objetivas, já que na ética há tanta verdade quanto em outras esferas e os fatos importam mais do que as opiniões.

23. Diante do caos perigoso do presente, impõe-se desenvolver uma caixa de ferramentas filosófica para resolver problemas morais e reafirmar que a tarefa da humanidade é possibilitar o progresso moral pela cooperação, pois a desigualdade crescente e o isolamento nacional diante do sofrimento alheio são moralmente abjetos e insustentáveis num planeta compartilhado do qual a pandemia surge como chamado de despertar.

24. Desde a crise financeira de 2008 vive-se uma profunda crise de valores, marcada pelo avanço de líderes autoritários como Trump, Xi Jinping, Bolsonaro, Erdoğan, Orbán e Kaczyński, pelo Brexit, pelo radicalismo de direita na Alemanha, pela desconfiança diante da ciência climática e pela ameaça que a inteligência artificial e a robótica representam para o trabalho e até para a humanidade.

25. Além da mudança climática, constitui risco existencial a computadorização do mundo da vida, impulsionada pelas guerras mundiais e culminada na digitalização, em que smartphones, mídias sociais, buscadores e sistemas de mobilidade registram movimentos e padrões de pensamento.

26. A digitalização ameaça a existência humana porque toda a arquitetura de condução emprega inteligência artificial capaz de penetrar nos processos de pensamento e superá-los, como os programas de xadrez e o AlphaGo da DeepMind superaram os melhores jogadores humanos.

27. Nas redes sociais, inteligências artificiais selecionam conteúdos para capturar tempo e atenção, numa espécie de xadrez social contra um adversário superior que bombardeia os usuários com notícias, séries e fake news até, possivelmente, anular sua capacidade de pensar por conta própria.

28. O retrocesso da democracia liberal e do ser humano analógico ameaça o ideal moderno de que o progresso científico-tecnológico só é bem-sucedido se acompanhado pelo progresso moral, sem o qual a infraestrutura de condução do comportamento se converte em distopia semelhante às de Huxley, Orwell e Black Mirror.

29. Os tempos obscuros atuais caracterizam-se pelo encobrimento, em parte sistemático, da luz do conhecimento moral por fake news, manipulação política, propaganda e ideologias.

30. Contra os tempos obscuros vale o Esclarecimento, que pressupõe a razão e a intelecção moral e parte da ideia de que, na maioria das vezes, sabe-se o que uma situação exige moralmente, sendo raros os dilemas éticos em que fazer um bem implica necessariamente deixar de fazer outro.

31. Nos casos dilemáticos, intelecções morais claras obtidas em outras situações são necessárias para preservar a orientação moral, pois, se o acesso a elas se desalinha, tudo se torna sombrio.

32. Os mais pobres do mundo, inclusive os amontoados em campos de refugiados, sentem com mais força os tempos obscuros, expostos à Covid-19 e a outras doenças, e os prósperos partilham uma responsabilidade por isso que reprimem no cotidiano do consumo.

33. O obscurecimento moral atinge também as sociedades formadas no cânone de valores do Estado democrático de direito, pois a pandemia revelou fraquezas nos sistemas de saúde e foi usada por líderes nacionalistas e por Estados inteiros, inclusive a Alemanha e a China, como instrumento de autopromoção e de disputa geopolítica sob o estado de exceção.

34. A admiração pelas medidas chinesas e o avanço do capitalismo de vigilância durante o isolamento social, com a fusão entre trabalho e lar no home office, são processos inquietantes que promovem uma nova mudança estrutural da esfera pública ao ligar o último refúgio da privacidade à rede de produção de dados e mercadorias.

35. Tais medidas extremas reforçam a crise de valores da democracia liberal, apenas adiada pela solidariedade inicial da pandemia, e exigem uma vacina de pensamento contra o populismo de direita que aguarda do outro lado da crise.

36. A Modernidade inaugurada pela Revolução Francesa assenta-se na utopia do Esclarecimento, segundo a qual as instituições e cada cidadão devem tornar-se instrumentos do progresso moral, utopia que pareceu próxima mas escapou diante das reações nacionalistas, do terror revolucionário e do domínio napoleônico.

37. A humanidade avançou em relação aos séculos XVIII e XIX, mas aprendeu a que abismos conduz o progresso científico-tecnológico sem progresso moral correspondente, como mostram as armas de destruição em massa e a catástrofe climática derivada do crescimento econômico desenfreado.

38. Somente o progresso moral, com o reconhecimento de que apenas uma cooperação global para além do egoísmo nacional pode deter a aceleração rumo ao abismo, permite enfrentar os perigos de novas guerras nacionalistas e da crise ecológica.

39. O progresso moral consiste em conhecer melhor o que se deve fazer ou evitar, descobrindo fatos morais em parte ocultos, o que depende da constituição da realidade, já que questões como emissões, doenças, justiça distributiva, violência, assédio e eutanásia só podem ser respondidas diante dos fatos.

40. A constituição dos fatos não morais deve ser determinada pela pesquisa cooperativa das ciências técnicas, naturais e humanas, numa colaboração em que a filosofia integra esse conhecimento num retrato do ser humano e os cientistas, por sua vez, consideram o estado da pesquisa filosófica, sem o que o ideal do Esclarecimento fracassa.

41. Para decidir o que fazer diante de perigos que afetam a todos, é preciso considerar toda especialidade capaz de esclarecer os fatos não morais, como os riscos ambientais do consumo e das cadeias de produção ou os parâmetros necessários para planejar a energia eólica sem destruir florestas, em benefício das gerações presentes e futuras.

42. Essa exigência foi abalada por arbitrariedades pós-modernas que negam a existência de verdade objetiva e de fatos, reduzindo tudo a opiniões politicamente motivadas e transformando universidades, sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido, em arenas de conflitos identitários.

43. Bruno Latour sustenta há décadas que não há fatos, mas apenas questões de preocupação, chegando a afirmar que Ramsés II não poderia ter morrido de tuberculose e a defender a proteção ambiental com base num parlamento das coisas, em vez de nos conhecimentos científicos.

44. Essa forma de política identitária é absurda por negar os fatos, pois, se fosse correta, bastaria parar de pesquisar um vírus para eliminá-lo, já que ele só existiria ao ser descoberto ou inventado.

45. Sem considerar a realidade não há resposta sensata para questões morais urgentes, assim como na vida pessoal quem foge dos fatos afunda em crises, e a recusa pós-moderna da verdade de nada serve, como se vê nos discursos do presidente estadunidense, que trata a verdade como mera expressão de pertencimento a grupos.

46. A política identitária pós-moderna é tão destrutiva quanto uma digitalização selvagem que flerta com substituir o Estado de bem-estar e a democracia por um modelo de governo chinês baseado na automatização impiedosa.

47. A Modernidade, enquanto ideal esclarecido que gerou o Estado democrático de direito, está sob ataque de todos os lados, e contra essa erosão, ligada às arbitrariedades pós-modernas, impõe-se um novo Esclarecimento denominado novo realismo moral.

48. A humanidade globalmente conectada trabalha em sua própria extinção por meio de cadeias de produção de bens muitas vezes sem sentido, movidas pela cobiça de lucro, num consumo contraditório que renova carros, aparelhos e roupas sem necessidade e lamenta o plástico nos mares enquanto compra brinquedos de plástico com cenas marítimas.

49. O comportamento de consumo é inteiramente contraditório, como mostra a defesa da digitalização para reduzir viagens sem considerar seu impacto ecológico, ou um congresso ministerial sobre os perigos das mídias sociais transmitido orgulhosamente pelo YouTube.

50. Essas contradições cotidianas não são inofensivas, pois o progresso moral necessário para orientar os avanços científicos potencialmente perigosos começa no dia a dia, já que nem a ciência, que produziu tanto água potável quanto bombas atômicas, nem a prosperidade econômica garantem o agir moralmente correto.

51. Cada pessoa é convocada a todo instante a fazer o bem para reduzir o mal, pois o agir responsável não ocorre apenas entre os influentes da política, da mídia e da economia, mas em cada indivíduo.

52. A figura fictícia de Antje Kleinhaus, moradora progressista de Prenzlauer Berg que apadrinha uma criança africana e combate a extrema-direita, mas deixa de convidar a amiguinha de origem turca da filha para o aniversário sob o pretexto de respeitar sua cultura, ilustra uma hipocrisia cotidiana.

53. Essa hipocrisia revela que todos, mesmo os aparentemente inocentes e progressistas, carregam preconceitos potencialmente perigosos, como o de quem se retrai diante de alguém com aparência de terrorista islâmico ou de quem acredita saber como é um alemão típico.

54. Todos são poluidores do meio ambiente, sobretudo os alemães, cuja história inclui a invenção do automóvel a combustão por Daimler e Benz, o que faz de Baden-Württemberg berço tanto do partido Os Verdes quanto da forma de mobilidade que tornou necessária a política ecológica.

55. Superar essas contradições exige, além de grandes soluções políticas globais, começar pelos próprios preconceitos e ações, pois o progresso moral só é possível quando se reconhece que o mal não está apenas lá fora, nos outros a quem se atribui a culpa pelos tempos obscuros.

56. O extremismo político e o terrorismo na Alemanha, com o assassinato de Walter Lübcke e o atentado de Hanau, resultam em parte do sentimentalismo pós-factual, em que narrativas identitárias e mensagens emocionais das redes sociais valem mais do que razões racionalmente comunicáveis e fatos verificáveis.

57. É hora de retomar a ideia central do Esclarecimento de que o uso comum da razão permite descobrir o que se deve fazer ou evitar, atualizando-o para imunizá-lo contra doutrinas que negam soluções morais universais e justas e as reduzem ao direito do mais forte, as quais devem ser criticadas e refutadas de modo compreensível a todos.

58. O novo Esclarecimento aspira a um coimunismo, na fórmula de Peter Sloterdijk, que reajuste a cada época o cânone de valores de liberdade, igualdade e solidariedade e avalie os perigos que conduzem a razão ao declínio, já que, como sugere Stanley Cavell, nada é mais humano do que o desejo de negar a própria humanidade.

59. Razões comunicáveis e compartilháveis são o fundamento moral da convivência bem-sucedida e, embora não convençam extremistas de direita, negacionistas climáticos ou antivacinas, uma sociedade cujas instituições buscam a verdade e a igualdade moral dificulta a expansão do mal que floresce na era pós-factual das mídias sociais, onde bordões e sentimentos se impõem sobre argumentos.

60. A intolerância radical que busca minar o Estado democrático de direito por todos os meios, inclusive a violência, não deve ser tolerada, e a questão sobre a existência de fatos morais e de progresso moral em tempos obscuros, bem como sobre uma ordem de valores universais para o século XXI, dirige-se a quem se dispõe a examiná-la racionalmente, sendo o crescente desinteresse por ela parte do próprio problema.