0 Filosofia

GABRIEL, Markus. Warum es die Welt nicht gibt. Berlin: Ullstein Verlag, 2013.

Pensar a Filosofia de Novo

1. As grandes perguntas sobre o sentido da vida, do universo e de tudo o mais conduzem à questão de saber se somos apenas um agregado de partículas elementares ou se pensamentos, desejos e esperanças possuem uma realidade própria, e até onde se estende nosso conhecimento.

2. O primeiro princípio de uma nova filosofia afirma que o mundo não existe, o que não significa que nada exista, mas sim que tudo existe, de planetas e sonhos a unicórnios no lado oculto da lua, exceto uma única coisa: o mundo.

3. O segundo princípio é o novo realismo, postura filosófica que designa, antes de tudo, a era posterior à chamada pós-modernidade, anunciada em junho de 2011 durante um almoço em Nápoles com Maurizio Ferraris.

4. A pós-modernidade tentou romper radicalmente com a tradição após o fracasso das grandes promessas da humanidade, mas, ao querer libertar-nos da ilusão de um sentido da vida, acabou fabricando novas ilusões, sobretudo a de que a humanidade sofre desde sempre da alucinação coletiva chamada metafísica.

Aparência e Ser

1. A metafísica é a tentativa de elaborar uma teoria do mundo como tal, descrevendo como as coisas realmente são independentemente de como nos aparecem, o que a leva a inventar o próprio mundo como totalidade daquilo que é efetivamente o caso, eliminando dele tudo o que é acrescentado pelo ser humano no ato de conhecer.

2. O pós-modernismo constituiu a tentativa mais radical de abolir a metafísica ao sustentar que as coisas só existem na medida em que nos aparecem, enquanto versões mais moderadas, como a de Richard Rorty, admitiam algo por trás das aparências, mas propunham trocar a busca da Verdade e da Realidade últimas pelo aumento da solidariedade humana.

3. O pós-modernismo, contudo, foi apenas mais uma variação da metafísica, pois se apoiou num construtivismo generalizado, segundo o qual não há fatos em si e todos os fatos são construídos por nossos discursos e métodos, tradição cuja fonte principal é Kant, para quem jamais conhecemos o mundo tal como ele é em si.

4. O exemplo das cores ilustra a metafísica contemporânea que concebe o mundo em si como incolor e composto apenas de partículas elementares, ao passo que Kant vai ainda mais longe ao considerar que até essa imagem de partículas no espaço-tempo é apenas o modo como o mundo nos aparece, sem que jamais possamos saber como ele realmente é.

5. A imagem de Kleist dos óculos verdes mostra que, se todos víssemos através deles, jamais poderíamos decidir se os objetos são de fato verdes ou se a cor é acrescentada pelos olhos, assim como o entendimento nunca pode decidir se aquilo que chama de verdade é realmente verdade.

6. O construtivismo acredita nos óculos verdes kantianos e o pós-modernismo acrescentou que usamos muitos óculos ao mesmo tempo, como ciência, política, linguagem e convenções sociais, reduzindo a existência humana a um jogo de ilusões semelhante a um filme de arte francês de sedução e manipulação, clichê ironizado no cinema contemporâneo.

7. A existência e o conhecimento humanos não são uma alucinação coletiva nem estamos presos a sistemas conceituais atrás dos quais se esconderia o mundo real, pois reconhecemos o mundo como ele é em si, e, embora possamos nos enganar em certas situações, não estamos sempre ou quase sempre enganados.

Novo Realismo

1. No cenário em que Astrid vê o Vesúvio de Sorrento enquanto outros o veem de Nápoles, a metafísica sustenta que existe apenas um objeto real, o vulcão, indiferente a quem o observa.

2. O construtivismo, ao contrário, admite nesse mesmo cenário três objetos, cada um correspondente a uma perspectiva construída, sem nenhum objeto em si que possa ser conhecido.

3. O novo realismo reconhece pelo menos quatro objetos nesse cenário: o próprio Vesúvio e o Vesúvio visto a partir de cada uma das três perspectivas, a de Sorrento e as duas de Nápoles.

4. Essa opção é a melhor porque tanto a localização geográfica do vulcão quanto o modo como ele aparece de cada lugar, e até os sentimentos de quem o contempla, são fatos com igual direito, de modo que pensamentos sobre fatos são apenas mais fatos e a lua não é mais real do que as crenças que temos sobre ela.

5. Metafísica e construtivismo fracassam por simplificar unilateralmente a realidade, a primeira reduzindo-a a um mundo sem espectadores e o segundo, narcisisticamente, a um mundo de espectadores, quando o mundo conhecido é sempre um mundo com espectadores, onde fatos indiferentes a nós coexistem com nossos interesses, percepções e sentimentos.

6. É preciso explicar como pode haver espectadores num mundo onde eles não existem em todo tempo e lugar, tarefa de uma nova ontologia, entendida como doutrina do ser e do sentido da existência, que não pode ser confiada aos físicos, pois, se só existisse o que as ciências naturais investigam, não existiriam o Estado alemão, o futuro, os números ou os sonhos.

A Pluralidade de Mundos

1. A afirmação de que o mundo não existe não nega a existência do universo, com suas galáxias e buracos negros, mas sustenta que o universo não é o todo e que, a rigor, é algo bastante provinciano.

2. O universo é o domínio de objetos experimentalmente acessível às ciências naturais, enquanto o mundo, se for realmente tudo, deve incluir também governos, sonhos, possibilidades não realizadas, obras de arte e os próprios pensamentos sobre o mundo, dos quais não se pode escapar para observá-lo de fora.

3. Como governos, sonhos e pensamentos não podem ser identificados ao domínio de objetos das ciências naturais, já que nem a física nem a biologia absorveram a sociologia ou o direito e a Mona Lisa não é analisada em laboratório químico, o mundo deveria ser concebido como o domínio de todos os domínios, abrangendo tanto o que ocorre sem nós quanto o que ocorre apenas conosco.

4. Esse ser totalmente abrangente, o mundo, não existe nem pode existir, e a destruição dessa ilusão obstinada da humanidade serve para conquistar um conhecimento positivo: tudo existe, exceto o mundo.

5. A experiência cotidiana de um jantar num restaurante mostra que não há um domínio capaz de englobar todos os outros, pois ali coexistem os grupos de clientes, os funcionários, os cozinheiros, os insetos, as bactérias e processos como a digestão e as flutuações hormonais, alguns ligados entre si e outros sem qualquer relação, como a aranha despercebida nas vigas do teto.

6. No restaurante existem muitos domínios de objetos, pequenos mundos isolados que coexistem sem terreno comum, e esses mundos não são meras perspectivas sobre um único mundo, mas existem realmente sem pertencer a nenhum mundo maior.

7. É falso, e a rigor impossível, que tudo esteja conectado, pois muitas coisas se ligam a muitas outras, mas a impressão de habitar sempre o mesmo mundo resulta de nos considerarmos suficientemente importantes, enquanto na própria vida as conexões se deslocam constantemente à medida que mudamos nossa autoimagem e nos adaptamos a situações novas.

8. Do mesmo modo, o mundo como um todo existe tão pouco quanto uma conexão que englobe todas as conexões, já que não há regra nem fórmula universal capaz de descrever tudo, não porque ainda não tenha sido encontrada, mas porque não pode existir de modo algum.

Menos que Nada

1. Os metafísicos afirmam haver uma regra que tudo abrange, e os mais ousados chegam a declarar que finalmente a encontraram, razão pela qual a história do pensamento ocidental, de Tales de Mileto a Karl Marx e Stephen Hawking, é uma sucessão de exploradores de uma suposta fórmula do mundo.

2. O construtivismo, ao contrário, sustenta que essa regra não pode ser conhecida e que, ao tentarmos chegar a um acordo sobre qual ilusão deve valer, ficamos enredados em lutas de poder ou em ações comunicativas.

3. O novo realismo procura responder de modo consistente e sério se tal regra poderia em princípio existir, resposta que não é mais uma construção, mas exige, como toda resposta a uma pergunta séria e comum, verificar qual é a situação, pois seria absurdo responder à pergunta sobre a manteiga na geladeira dizendo que manteiga e geladeira são apenas construções humanas.

4. Para entender por que o mundo não existe é preciso compreender o que significa existir, e se existir é ser encontrado no mundo, então o próprio mundo não existe, porque não se encontra no mundo, assim como o mundo pensado não é idêntico ao mundo em que se pensa, sendo o pensamento sobre o mundo apenas um pequeno evento ao lado de inúmeros outros, como chuvas, dores de dente e a República Federal da Alemanha.

5. Ao pensar o mundo, apreende-se sempre algo diferente do que se pretende apreender, e o todo permanece inalcançável não por um defeito da capacidade de conhecer nem por ser infinito, já que o infinito pode ser parcialmente abarcado pelo cálculo ou pela teoria dos conjuntos, mas porque o mundo, em princípio, não pode existir por não se encontrar no mundo.

6. Por um lado, existe menos do que se esperaria, pois o mundo não existe nem pode existir, o que tem consequências contra a cosmovisão científica em sua versão midiática e sociopolítica difundida, já que nenhuma imagem do mundo é possível e toda cosmovisão, seja fundada em Deus ou na ciência, é igualmente equivocada por apoiar-se num mundo total que decidiria as grandes questões por trás de nós.

7. Por outro lado, existe muito mais do que se esperaria, a saber, tudo exceto o mundo, inclusive unicórnios de uniforme policial no lado oculto da lua, elfos e bruxas, que existem em pensamentos e contos de fadas, embora não no universo ou em Hamburgo, de modo que a questão nunca é simplesmente se algo existe, mas onde existe, sendo o mundo a única exceção, impossível até de imaginar e, por assim dizer, menos que nada.

8. O propósito é apresentar os traços principais de uma nova ontologia realista, recorrendo a outras teorias apenas quando úteis como pano de fundo, sem constituir uma introdução geral à filosofia ou uma história da epistemologia, mas um esboço de nova filosofia inteligível a qualquer leitor interessado, sem pressupostos nem necessidade de atravessar clássicos quase incompreensíveis.

9. Como toda filosofia, o percurso começa pelo começo, com os conceitos mais importantes definidos da forma mais clara possível, destacados em maiúsculas e reunidos num glossário, sem monstruosidades filosóficas pretensiosas como a síntese transcendental da apercepção.

10. Seguindo o ideal de Wittgenstein de que tudo o que pode ser dito pode ser dito com clareza, a filosofia deve ser não uma ciência esotérica de elite, mas em grande medida um assunto público, que oferece um caminho original pelo labirinto das maiores questões filosóficas: de onde viemos, onde nos encontramos e o que tudo isso significa.

11. A esperança de dizer algo realmente novo sobre essas questões pode parecer ingênua, mas as próprias questões são ingênuas e muitas vezes surgem nas crianças, como as duas primeiras dúvidas filosóficas nascidas no caminho de volta da escola primária, sobre a lanterna vista duplicada através de uma gota de chuva e sobre o fato de a palavra agora designar situações diferentes, das quais brotou a ideia de que o mundo não existe, que exigiu vinte anos para ser distinguida da ideia de que tudo é ilusão ou sonho.

12. Anos de ensino universitário e de debates com pesquisadores do mundo inteiro sobre epistemologia e ceticismo filosófico, nos quais quase tudo foi posto em dúvida, sobretudo as próprias convicções, tornaram claro que a tarefa da filosofia é recomeçar sempre de novo desde o início.