GABORIAU, Florent. La nouvelle initiation philosophique. 4 volumes. Paris: Casterman, 1962–1965. Phénoménologie de l'existence. Gravitations II. (1963)
CAPÍTULO VIII O TEMPO EM SI
1. Abordagens fenomenológicas.
1. A presença do tempo em nossas preocupações: noite, manhã, a idade que temos, que horas são, a vida que vai passando (“semana da exatidão”, omnes laedent ultima necat, sicut umbra dies tui, etc.).
2. Aparentemente, o tempo é paradoxal: é um “ponto preciso” e, ao mesmo tempo, “fugaz”. Ele nos escapa ao mesmo tempo em que se “revela” ou quando o captamos. “Ao mesmo tempo” expressa justamente esse paradoxo. Datado (revelado) e impossível de recuperar ou reencontrar. O tempo “passa” e nós passamos. Ele se vai e, no entanto, permanece (enquanto nós partimos). Fator a ser levado em conta em toda atividade. Medido por um horologium (relógio) e, portanto, relacionado ao quantum, o tempo mede a vida e marca o ritmo da existência: serve de moldura para a história (cosmogênese, biogênese, etc.).
3. Aspecto subjetivo: a duração depende do interesse (portanto, do “esse”, inter-esse), depende do vivenciado. O bem-estar, assim como o mal-estar, perturba a percepção do tempo. Seu afastamento faz com que ele se desvaneça.
Caráter objetivo e inexorável do tempo: ele marca o ritmo imperturbavelmente, enquanto nós gostaríamos de parar ou acelerar as horas. Indiferente aos nossos sentimentos, como um cálculo matemático.
4. É possível conciliar o tempo subjetivo e o tempo objetivo? Em que medida racional existe um tempo aparentemente tão contraditório? Que “significado” atribuir a ele?
5. Dificuldade específica desta reflexão: o tempo, se não tomarmos cuidado, deixa-se facilmente minimizar; ele se hipertrofia, se lhe prestarmos atenção. O tempo “pensado”, refletido, levado em consideração precisa, portanto, de uma espécie de contrapeso que corrija esse paradoxo e se recuse a se deixar impressionar. Entre uma dispersão que o dissipa e uma concentração que o exagera, a sabedoria consiste em se esforçar para encontrar uma medida equilibrada do peso do tempo.
2. Análise dos níveis.
1. As coisas vão embora: mobilidade que o tempo acompanha. Ele se incorpora às mutações: o próprio tempo muda. Nesse plano, ele não é nada além de movimento.
2. Um ritmo fixo, invariável ou regular como uma roda, domina as mutações do nosso mundo. Ciclo dos astros, relativamente a salvo de nossas turbulências: termo de comparação no qual confiar para medir, “moderar” e datar as nossas. O cálculo é um pensamento (putare) comparativo. Fazemos a contagem de nossas variações levando em conta as revoluções celestes relativamente regulares (absolutamente incorruptíveis, pensavam os Antigos).
3. Mas, do ponto de vista da própria existência, qual é a hipótese, a “razão de ser”, o significado desse tempo assim contado por referência aos astros?
a) À primeira vista, o tempo se esconde, não se distingue das coisas com as quais se entrelaça, e das quais apenas expõe o movimento, mas formando um todo com elas.
Um número aplicado ao movimento, a cronometria, parece pertencer ao pensamento, do qual seria uma emanação sem outro alcance além do [da razão] prática.
b) Ritmo, número de uma mutação natural: submete-se o físico à regra de uma medida matemática. Mas o que resta, então, do tempo real, tal como é vivenciado fisicamente, além desse cálculo?
c) Por trás das aparências (fenomenológicas) e dos cálculos (matemáticos), o que existe no tempo? Que “razão” de ser ele tem, afinal, se não for apenas aparência ou falsa impressão?
O que existe, de fato e no presente, é apenas o instante: o momento em que se percebe como existente aquilo que passa (distinto do que já aconteceu ou do que está por vir; distinto tanto do passado quanto do futuro). De toda a extensão abstrata, espalhada no quantum e, por isso, infinitamente divisível, permanece sempre apenas um “ponto” que não está mais fora, mas dentro da extensão; que se encontra nela, mas se distingue dela.
Esse “ponto” temporal é o de um fenômeno “em vias de” ser: o evento é aquilo que traz consigo a existência do tempo. O tempo está ligado ao ato que se desenrola.
Ora, sempre está acontecendo alguma coisa; como o devir não cessa, o “tempo” está sempre presente, dando a impressão de que continua. O que realmente continua é a existência dos seres-em-gênese, é o ens mobile. Daí o caráter físico, natural, do tempo; e a imaginação que tende a solidificá-lo (a transformá-lo em objeto). Como pensar nisso?
3. De onde vem o tempo.
Devemos o tempo a algo que existe fora de nós? Ou devemos buscar seu princípio — e, portanto, sua origem — no interior do homem?
1. Sem um ser capaz de numerar, não poderia haver o numerável.
Sem vida intelectiva, portanto, não há medida, não há “tempo”.
2. Não se poderia, no entanto, pensar que o número e o tempo existiriam, mesmo que não houvesse um ser pensante, assim como o mundo sensível existe, mesmo que não haja ninguém para ter a sensação dele?
3. Mas uma coisa é a sensação, outra coisa é a “contagem ». Ora, o tempo pressupõe, para ser percebido como tal, uma totalização mental homogeneizadora. Pressupõe um olhar, um ponto de vista do qual se domina, para abrangê-la de uma só vez, uma certa extensão, a ponto de nela discernir — ao dividi-la — o antes e o depois de um movimento em ato (de ser e de passar). Um “instante” isolado não constituiria o “tempo”, assim como uma andorinha não constitui a primavera!
4. De um certo ponto de vista — físico —, o tempo existe assim que ocorre uma mutação. Ele não é paralelo ao cosmos, mas está inserido nesse cosmos; está em sua natureza evolutiva. O cosmos está impregnado disso. Pode, portanto, haver, incorporados ao seu devir, o numerável e o numerado, sem que ninguém faça a soma ou mantenha a contagem. Mas, nesse caso, o tempo — mais exatamente, o mundo temporal — seria, por assim dizer, sem história.
5. No entanto, o tempo só existe quando percebido. Para ser declarado “temporal”, o mundo deve ser apreendido de uma maneira específica, diferente do “sensível”. A criança, por exemplo, tem sensações desse mundo muito antes de tomar consciência do tempo. O princípio do tempo, o significado do tempo, sua “razão de ser” como tal, está em uma apreensão original que pressupõe mais do que a coisa sensível para ser sentida.
Fora de uma psique capaz de tomar consciência específica disso, na verdade só existe esse “ponto” de contato que constitui o devir existente. Tangente existencial que confere ao ciclo sua realidade, o tempo é esse contato por onde a corrente passa, como a energia no trólebus, ao longo da linha por onde ele se desloca; ele entra em contato com o solo.
O tempo não é essa extensão em que se desdobra; ele só existe, como tal, em um ato indivisível. Por meio de uma operação ordenadora, a inteleção passa a apreendê-lo de tal forma que o capta juntamente com a extensão. Ela o compreende assim: apreende “ao mesmo tempo” que o presente atualmente dado (datado) o antes e o depois que calcula e supõe (sub-putare), no âmbito de uma mesma evolução sucessiva, ou seja, de uma “mesma” “alteração ”. Tal é a cronologia com o que ela pressupõe de logos, ou seja, de razão de ser. Seu princípio: uma concepção em que se leva em conta e se presta contas — de uma forma categoricamente irredutível às outras categorias — das coisas em devir.
4. Significado do “tempo”.
1. É preciso ter cuidado com uma tendência que consiste em hipostasiar o tempo; uma exageração bem natural, mas que a filosofia não endossa. O tempo não passa de um coeficiente de nossas gêneses. Teria ele um “outro” sentido além daquele da matéria em evolução? Mas a matéria é outra questão. Não sabemos nada sobre “o que ela é” antes de nos questionarmos a respeito.
O fato de ser “temporal” não confere, de imediato, a cada ser em devir o mesmo destino. E é, portanto, por meio de um processo retórico que se evoca, de maneira geral, o “sentido do tempo”. Seria preciso examinar cada coisa temporal e distingui-la; ou falar do “sentido do mundo”.
O sentido do tempo é sinônimo de: para onde vamos? Mas esse “nós” é o homem concreto nas massas humanas. Como saber para onde ele vai, quando não sabemos “o que ele é”? E como saber se existe uma “natureza humana”, ou qual é essa natureza, enquanto não nos questionarmos sobre a questão fundamental: quid? O quando depende disso. Quero dizer que só nos tornamos em função do que somos: e isso o tempo todo (portanto, independentemente do tempo em que nos encontramos).
A questão do “sentido do tempo” está, portanto, subordinada à constituição de uma antropologia e de uma ontologia que ampliariam o problema.
2. Certamente, os fatos estão dispostos — na extensão do devir cósmico — segundo uma certa ordem. Dizer que essa ordem não é reversível é prestar homenagem à compreensão, pelo intelecto, de um sentido que não é intercambiável. A leitura dessa ordem é, de fato, uma obra do intelecto que mede e percebe a maneira como o tempo se relaciona.
Mas, aos próprios olhos desse intelecto, o tempo não é essa relação, nem esse sentido; ele permanece um “indício”, um fenômeno original: não é um constituinte da realidade, mas afeta seu devir, sem prejudicar o sentido geral do que está em curso.
Resta que se possa imaginar o sentido do tempo, em um prolongamento de seu ser na duração (na horizontal, se assim se quiser, ou seguindo as letras do alfabeto até o ômega ou X, Y, Z).
É possível conceber o sentido do tempo: mas, então, em uma superação de seu ser que se daria ao mesmo tempo que aquilo de que ele é, momentaneamente, o indício genético.
Ora, a análise científica — física ou matemática — do fenômeno do tempo não poderia nos esclarecer sobre esse sentido, de um ponto de vista decisivo. Precisamos aguardá-lo de outra pesquisa: não no sentido imaginado da horizontal (seguindo a linha do devir), mas no significado pensado da existência vertical, sempre “atual” hoje e amanhã. … O significado autêntico do “tempo” é verdadeiro “o tempo todo”, mas não se extrai exclusivamente da análise do tempo. Esta apenas prepara o caminho, dissolvendo os Absolutos, reduzindo as Personificações, etc., mas deverá se conjugar a outras análises (notadamente, a do ato).
A sabedoria consiste em recusar-se às imaginações espacializantes, que tomam emprestada a expressão das condições de Y. Particularmente nas línguas ocidentais, onde o tempo é sobreposto ao “verbo”. As formas da linguagem — onde se traduz a própria ação — refletem, então, as circunstâncias do tempo, em vez do estado dessa ação e do evento.
Há, assim, um pré-passado e um pós-futuro; um passado do futuro e um antes do passado, etc., sem que esses pontos de referência da expressão revelem “nada” da existência, enquanto tal, do tempo, que permanece ato. É preciso “tomar nota” disso como convém e refrear os fantasmas, geradores de sofismas.
Em resumo, existem seres-em-gênese. Sua própria mutação pressupõe a extensão, para ir e vir (quantum?), e ela sustenta o tempo desse ir e vir (quando?). O quantum está, assim, mediatamente na base do tempo, que exige a quantidade para existir, mas sem se confundir com ela. Pois o tempo não “é” nada além do fato de o movimento (se) “passar” em um instante. O tempo é, a cada momento, a realização assintótica do movimento. Ens imperfectum, a caminho da conclusão, mas de fato em andamento. Pois no próprio instante — atualmente — a roda do devir toca a existência.