Sigmund Freud (1856-1939)
J. Russ, N. Baraquin, J. Laffitte. Dictionnaire des philosophes.
Sigmund Freud foi o médico psiquiatra austríaco que fundou a psicanálise como método terapêutico, investigativo e disciplina psicológica.
A psicanálise constitui ao mesmo tempo um tratamento puramente psíquico das doenças mentais, um procedimento de investigação das formações de pensamento inconscientes e uma nova disciplina no campo da psicologia.
Freud conferiu ao inconsciente — conjunto de fatos psíquicos que escapam à consciência — o estatuto de hipótese científica, sem vínculo com concepções filosóficas.
O psiquismo foi por ele definido em suas relações obscuras com o instinto.
A trajetória biográfica de Freud foi marcada por origens judaicas, estrutura familiar edipiana e exílio forçado pelo nazismo.
Nascido em Freiberg, na Morávia, Freud viveu em Viena de 1859 a 1938, descrevendo a própria vida como a de um “conquistador” em terras novas.
As origens judaicas — seus pais eram negociantes de lã — foram por ele consideradas um dos dois fatos biográficos marcantes, por terem favorecido um espírito crítico livre de preconceitos e o hábito de enfrentar maiorias hostis.
O outro fato marcante foi a estrutura “edipiana” de sua família: Freud era o primeiro filho do segundo casamento de um pai idoso com uma mulher tão jovem quanto o filho mais velho do primeiro casamento.
Formado médico em 1881, trabalhou como interno hospitalar e publicou estudos sobre os efeitos da cocaína e sobre as afasias (1891).
Voltou-se ao estudo da histeria sob influência de J. Breuer, que lhe apresentou o caso de Anna O. — a jovem Bertha Pappenheim — em novembro de 1882.
Realizou dois estágios decisivos: em Paris (1885–1886), no serviço do psiquiatra francês J.-M. Charcot na Salpêtrière, onde a hipnose era usada para criar e suprimir sintomas histéricos; e em Nancy (1889), junto a H. Bernheim, praticante da sugestão sob hipnose.
Após a morte do pai, Freud atravessou grave crise pessoal e empreendeu, próximo aos 40 anos, sua autoanálise, que resultou na teoria do sonho, exposta em 1900 na obra Die Traumdeutung — seu primeiro grande livro a lhe render reconhecimento.
O meio vienense opusera resistência hostil à “teoria psicossexual”, mas Freud reuniu cedo um grupo de discípulos fervorosos: A. Adler, P. Federn, W. Stekel, C. G. Jung e O. Rank — com quem manteve relações apaixonadas e conflituosas.
O círculo vienense tornou-se ponto de partida de um movimento psicanalítico que se internacionalizou rapidamente: em 1909 Freud proferiu conferências na Clark University; em 1920 foi criada a Associação Psicanalítica Internacional.
Uma crise eclodiu no movimento com as dissidências de Adler em 1911 e de Jung em 1912, centradas sobretudo na interpretação da libido, analisada por Freud em Para uma história do movimento psicanalítico (1914).
A vida de Freud, pai de família, era a de um médico que praticava a psicanálise em seu domicílio, mas sua aventura intelectual foi um combate em duas frentes: pelo reconhecimento de sua “porção de verdade” e contra interpretações errôneas — desvios irracionalistas (Jung) ou reduções a uma psicologia adaptadora e normalizante.
A psicanálise, terapêutica das neuroses pela transferência
A psicanálise nasceu da observação de que certos conteúdos psíquicos ocultos à consciência estão na origem das doenças mentais e podem ser acessados por vias não hipnóticas.
A hipótese do inconsciente foi formulada a partir de dois fenômenos: os sucessos inexplicáveis da hipnose no tratamento de doenças mentais — como se os histéricos soubessem sem saber algo sobre as raízes de sua doença — e o caráter benéfico da rememoração de lembranças enterradas.
Partindo da tese de que “os histéricos sofrem essencialmente de reminiscências”, Freud substituiu a hipnose, considerada aleatória, pelas associações livres — deriva verbal destinada a favorecer o surgimento de lembranças ligadas a eventos patogênicos.
No curso da cura, Freud observou a constância da transferência — projeção sobre o médico de sentimentos perturbadores originados na infância do paciente —, à qual atribuiu papel decisivo na cura.
A novidade da hipótese freudiana reside no caráter puramente psíquico da origem do distúrbio mental.
As neuroses — afecções mentais sem lesões reconhecidas, ricas em fatos de consciência bizarros ligados a comportamentos inexplicáveis — tornaram-se o terreno privilegiado da cura psicanalítica, cujos sintomas desaparecem quando o inconsciente retorna à consciência.
O complexo de Édipo — sexualidade infantil e sublimação
A teoria da etiologia sexual das neuroses evoluiu do pressuposto de um trauma real para a noção de complexo de Édipo como fantasma constitutivo da personalidade.
Freud imaginou inicialmente um trauma em torno de uma “cena originária” — agressão sexual ou “sedução precoce” por um adulto, provavelmente o pai — que o neurótico teria realmente sofrido na infância.
Sua própria análise levou-o a abandonar a ideia do trauma real e a elaborar o complexo de Édipo, transformando a sedução originária em fantasma — representação imaginária compensatória, expressão disfarçada de um desejo recalcado.
A atribuição da sedução ao pai revelou-se máscara do desejo incestuoso da própria criança.
Um complexo é um “conjunto organizado de representações carregadas de afeto”, ligado à situação edipiana — conflito profundo e constitutivo da personalidade que deve ser superado para que o desenvolvimento seja normal.
Desejos sexuais precoces dirigem a criança ao progenitor do sexo oposto, tornando-a ciumenta do outro e expondo-a ao interdito social do incesto e do parricídio — a falta de Édipo.
Todas as frustrações ulteriores seriam vividas como “repetição” da frustração original, mais ou menos bem assimiladas conforme o complexo tenha sido mais ou menos resolvido.
A socialização impõe a necessidade de “sublimar” os desejos — transformá-los em sentimentos superiores, não sexuais e socialmente reconhecidos.
Freud interpretou todos os fatos de civilização pela sublimação, atribuindo-lhe papel decisivo na evolução da criança e na liquidação das formas normalmente “perversas” da sexualidade infantil.
O recalque — operação pela qual o sujeito busca repelir ou manter no inconsciente representações ligadas a uma pulsão — se traduz por sinais diversos de resistência: palavras menos sinceras, interrupção da cura etc.
O inconsciente, produto do recalque — seus sintomas na vida normal: sonhos, atos falhos, lapsos, chistes
Os conteúdos recalcados se manifestam tanto por sintomas patológicos quanto por bizarrices da vida cotidiana, expressões disfarçadas de desejos inconscientes.
Os sintomas neuróticos resultam de um compromisso com o recalcado, construindo para ele uma forma de expressão disfarçada que negocia com a censura.
Na vida normal, o inconsciente revela seu dinamismo por manifestações aparentemente sem sentido: lapsos, atos falhos, fantasmas e, sobretudo, a atividade onírica — “O sonho é a via régia para o inconsciente.”
O sonho é a satisfação alucinatória de um desejo, tornada possível durante o sono, que reduz sem suprimir as potências de recalque.
O conteúdo manifesto do sonho — seu cenário, o relato que dele fazemos — deve ser distinguido de seu conteúdo latente — as ideias e desejos ocultos que o motivaram.
A interpretação do sonho consiste em decodificar, como num rébus, o conteúdo latente original pela análise do conteúdo manifesto, cujos elementos formam um compromisso entre as exigências do desejo e as da censura.
Esse compromisso opera-se no sono por deslocamentos (de uma representação proibida para outra lícita), condensações (uma representação aglomerando várias) e simbolizações (uma representação permitida velando a proibida).
O conteúdo manifesto, produto das astúcias do desejo, apresenta-se como absurdo.
A natureza do psiquismo — as duas tópicas freudianas
A descrição do aparelho psíquico passou por dois modelos sucessivos, o segundo corrigindo as insuficiências do primeiro.
Na primeira tópica, anterior a 1920 e exposta em Metapsicologia, Freud descreve o aparelho psíquico como a combinação de um consciente (percepção, sensação, memória), um pré-consciente (representações que podem passar à consciência ou permanecer inconscientes) e um inconsciente que a cura deve “transformar em consciente”.
Entre as instâncias, a censura — interiorização dos interditos sociais — recalca as representações litigiosas.
O equilíbrio entre os diferentes tipos de representações é regido pelo princípio do prazer — toda atividade psíquica visa ao prazer e evita o desprazer — e pelo princípio de realidade — essa atividade busca satisfação conforme as condições impostas pelo mundo exterior.
Freud observou que existem mecanismos inconscientes pelos quais o sujeito “defende” a representação que faz de seu Eu — mecanismos de identificação e mecanismos de defesa —, o que impede identificar o inconsciente com o recalcado.
Daí uma segunda tópica: a partir de 1920, Freud deixa de tratar o inconsciente como instância separada equivalente ao recalcado e passa a empregá-lo como adjetivo para qualificar o Eu e o Supereu.
O aparelho psíquico passa a ser constituído por três instâncias cujos conflitos produzem os complexos e seus sintomas: o Id, polo pulsional da personalidade — conjunto das necessidades biológicas (fome e libido) que buscam satisfação, obedecendo apenas ao princípio do prazer; o Eu, que tem por tarefa conter o Id e adaptá-lo à vida social, aceitando o princípio de realidade e levando em conta o Supereu; e o Supereu ou “ideal do Eu”, interiorização em grande parte inconsciente das exigências morais e sociais (interditos parentais).
“O Eu está sujeito a uma tripla servidão: o mundo exterior, a libido do Id e a severidade do Supereu.”
O Eu é sede da consciência e engloba a maior parte do pré-consciente, mas é apenas parcialmente consciente: polo defensivo da personalidade, contém os mecanismos de defesa inconscientes que a cura deve abater.
O papel das pulsões — impulsos de caráter irreprimível que tendem o organismo para um objetivo — é ampliado: as instâncias emergem progressivamente a partir de um sistema de pulsões originárias enraizadas na organização biológica.
Tudo o que é consciente foi antes inconsciente.
Ao lado das pulsões sexuais e de autoconservação — instintos de vida —, Freud reconhece pulsões ou instintos de morte, que tendem à destruição da unidade vital e à redução completa das tensões, opostos a Eros (libido).
A pulsão entre o somático e o psíquico — a “teoria da libido”
A libido foi concebida como energia das pulsões sexuais, conceito-limite entre o psíquico e o somático, dotado de história e passível de intervenção terapêutica.
Freud explicou o funcionamento do psiquismo em termos de investimentos de energia desde o início, concebendo a libido como energia constituída pelo conjunto das pulsões de ordem sexual.
Ao contrário do instinto, a pulsão não obedece a um determinismo biológico estrito: sua fonte é um estado de tensão orgânica a ser suprimido, mas nem seu objeto nem seu modo de satisfação são predeterminados — dependem da história pessoal do sujeito.
A pulsão possui uma dimensão simbólica: “apoia-se” em diferentes órgãos em ligação com representações variadas susceptíveis de mudanças, possuindo assim uma história que a cura pode inflectir.
Ao lado das pulsões sexuais, Freud coloca as “pulsões de autoconservação do Eu” — primeiras pulsões vitais elementares, essencialmente as funções de nutrição —, que forneceriam às pulsões sexuais uma fonte orgânica e um objeto.
As neuroses decorrem de disfunções da sexualidade: quantidade de libido anormal e difícil de satisfazer, e fixação da libido bloqueada em certas etapas da evolução da função sexual.
A neurose resulta de um desequilíbrio entre a sexualidade e as exigências do Eu; a cura deve desbloquear a fixação libidinal, tornando possível um compromisso superior e, assim, a inutilidade dos sintomas.
A libido obedeceria a uma evolução cujas etapas normais a expõem a fixações características das diferentes formas de doença.
Inicialmente investida no Eu, a libido encerra o indivíduo numa fase autoerótica — o narcisismo primário da criança que ainda ignora que o mundo exterior pode ser fonte de satisfação; depois investe o mundo exterior e se separa do Eu, tornando o indivíduo autônomo e capaz de amor objetal.
Se essa circulação é bloqueada e a libido retorna a investir o Eu (narcisismo secundário), surgem perturbações do equilíbrio psíquico.
Freud distingue três grandes etapas da sexualidade: na primeira infância, os estágios oral (investimento narcísico na boca), anal (investimento objetal e narcísico nas funções de excreção, 2–3 anos) e fálico (zonas genitais, 4–5 anos); o período de latência, em que os desejos são recalcados pela necessidade de socialização; e o estágio genital, em que a libido é reinvestida em condutas sexuais ligadas aos órgãos genitais do adulto.
“A criança é um perverso polimórfico”: passa por uma gama de fixações libidinais em objetos não genitais que constituirão as diversas formas de perversão no adulto (fetichismo, autoerotismo etc.).
Freud, crendo no isomorfismo entre a evolução do indivíduo, da sociedade e da espécie, buscava no “homem primitivo” o narcisismo infantil e supunha nos fundamentos da civilização os mesmos conflitos que o indivíduo deve superar.
A teoria freudiana renovou profundamente as concepções do sujeito e do psiquismo, mas enfrenta hoje a oposição da comunidade científica.
Segundo K. Popper, o caráter “irrefutável” de suas interpretações é o indício de que ela se situa “fora da ciência”.
Sua fraqueza é escapar ao critério de “falseabilidade”: não poder ser refutada por ao menos um fato da experiência.
É seu “poder de interpretação infinito” que a torna vulnerável.