FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité, I-IV: La volonté de savoir. Paris: Gallimard, 1976-2018.
Resenha de Frédéric Gros
Uma história das problematizações da experiência
1. A história da sexualidade anunciada em meados dos anos 1970 pretendia reencontrar as raízes cristãs do sujeito desejante convocado pelas psicologias e psicanálises modernas, mas, para fazer surgir como acontecimento histórico o sujeito que mediatiza a relação com seu sexo pela escuta, busca e enunciação do discurso de seu desejo, foi preciso remontar aquém da experiência cristã da carne aos textos gregos, onde aparece uma experiência da sexualidade estruturada não por uma hermenêutica do desejo, mas por um domínio dos prazeres, deslocamento dos anos 1980 que não era apenas cronológico, mas buscava também formular um novo pensamento do sujeito como prática de subjetivação.
2. Essa história da sexualidade não é uma história dos comportamentos, de como se praticou o sexo, nem das representações, de como se pensou o sexo, mas das modalidades de experiência constitutivas de um sujeito ético, e por isso privilegia, em vez dos arquivos das práticas concretas ou das teorias filosóficas do prazer, da alma e do corpo, a literatura menor dos pequenos tratados de existência, ensaios de boa conduta e artes de viver, onde se propõem estilos de vida e se coloca o problema das condutas sexuais, e muito menos uma história dos códigos que restringiriam uma sexualidade selvagem, mera história negativa das proibições que oporia uma idade de ouro grega à repressão cristã, quando, do ponto de vista das obrigações e restrições, paganismo e cristianismo se confundem nos temas recorrentes da medicina grega a São Francisco de Sales, a inquietude com o perigo do ato sexual e o esgotamento do dispêndio, a exaltação da fidelidade conjugal exemplificada pelo elefante, a estranheza diante do invertido efeminado e a glorificação da abstinência como acesso à verdade, temas que recobrem os domínios da dietética, da econômica, da erótica e da relação com a verdade, mas que na cultura antiga não correspondem a interditos sociais ou religiosos nem a um código do permitido e do proibido, pois são prescrições dirigidas a homens livres, a quem se reconhece o direito imprescritível de uma sexualidade ativa, num espaço de tolerância em que a exigência de restrição assume a forma de uma estilização, como a fidelidade recomendada não por obrigação, mas como signo de uma vida bela e bem ordenada, segundo os cânones de uma estética da existência, de modo que o problema é compreender como esses pontos de problematização, o ato sexual, o adultério, a homossexualidade e a abstinência, se constituíram sob a forma de códigos e interditos na experiência histórica singular do cristianismo.