3 Intelecto como graça

FINCH, Henry Le Roy; ANDIC, Martin. Simone Weil and the intellect of grace. New York: Continuum, 1999.

Capítulo 3: O Intelecto como Graça

O Reino da Verdade

1. Numa família que chamava de gênio o irmão André, dotado de notáveis aptidões matemáticas antes dos nove anos, Simone Weil, três anos mais nova e muito próxima dele, viveu a crise da adolescência como uma interrogação sobre a própria inteligência, episódio decisivo para todo o seu futuro.

2. Aos quatorze anos, o desespero sem fundo diante dos dons excepcionais do irmão, comparáveis aos de Pascal, não vinha da falta de êxitos visíveis, mas da ideia de estar excluída do reino transcendente onde habita a verdade e ao qual só os verdadeiramente grandes têm acesso, sem o qual preferia morrer.

3. A palavra verdade adquire aí o peso especial que conservaria até o fim, e surge também o padrão, repetido inúmeras vezes, do desespero mais sombrio cedendo lugar a novos patamares de compreensão.

4. Após meses de trevas interiores veio a convicção eterna de que qualquer ser humano, mesmo quase desprovido de faculdades naturais, pode penetrar no reino da verdade reservado ao gênio se desejar a verdade e concentrar perpetuamente nela toda a sua atenção, tornando-se assim também um gênio, ainda que invisível por falta de talento.

5. Vinda de uma francesa criada num lar agnóstico e irreligioso, nem sequer nominalmente judeu, a expressão convicção eterna impressiona, e mais ainda a antecipação precoce dos parâmetros, o gênio sem talento, dentro dos quais se travariam as lutas e agonias de sua breve vida.

6. Tudo o que se seguiu, com uma coerência de tirar o fôlego, é como um comentário a esse texto, e vinte anos depois, perto de um fim terrível causado por uma inanição espiritualmente imposta, compreensível talvez apenas à luz dos cátaros, ela enxergou sem evasivas, na dupla luz do desprendimento intelectual e da identificação com o sofrimento alheio, qual havia sido o seu próprio papel.

7. Hoje não basta ser santo, sendo necessária uma santidade nova e sem precedentes, exigida pelo momento presente, pois o mundo precisa de santos que tenham gênio assim como uma cidade assolada pela peste precisa de médicos.

8. A vida de Simone Weil seguiu três trilhas distintas mas interiormente unidas, a de estudiosa, professora e escritora, a de militante social e crítica do marxismo e a de trabalhadora manual em fábricas e campos, recusando em corpo e mente as distinções entre puro e aplicado, teórico e prático, abstrato e concreto, e vendo, como Wittgenstein e Tolstói, na espiritualidade do trabalho o fator ausente sem o qual não há verdadeira civilização, ponto de encontro do econômico, do cultural, do psicológico e do religioso.

9. O segredo de sua vitalidade intelectual, de sua obra vasta e sem escritos menores e de sua autoridade encontra-se nos primeiros estudos filosóficos com Alain no Liceu Henri IV entre 1925 e 1928, cujos trabalhos já revelam o frescor e a precisão de seu gênio, os modos de pensar herdados do mestre sobre imaginação, percepção, vontade, ação, indivíduo e sociedade e a veneração por Platão, pela matemática grega, por Kant, Espinosa e Descartes.

10. Nos Fragmentos sobre a Liberdade, de 1926, aparecem as pistas decisivas sobre um pensar que nascia continuamente nela como dom e não como esforço da vontade, tão ligado à ausência de si que pensamento e liberdade se tornam quase intercambiáveis, sendo o pensador não o ego cartesiano, mas a própria fonte inspiradora que se manifesta quando nenhum ego se interpõe, o que permite descrevê-la, em termos intelectuais e cristãos, como xamânica e carismática.

11. Deus está acima de todas as determinações por não se limitar a uma só ideia, sendo a própria liberdade, e chamá-lo de minha liberdade tem a vantagem de libertar de todo Deus objeto, pois então ele é e existe cada vez que a liberdade se manifesta em ideias e movimentos, isto é, cada vez que se pensa.

12. Nenhum valor mais alto poderia ser atribuído ao pensamento e à liberdade, situados além da lógica e da lei, do ego e da vontade, do eros e do mito, no lugar acessível apenas ao gênio e à santidade, onde nada pertence a ninguém e onde nada é objetivável, controlável ou possuível.

13. A liberdade é a fonte da verdade, e o desprendimento superlativo de todo passado e todo futuro abre o que Blake chamou de Fonte Intelectual da Humanidade e Gênio Poético Universal, identificado com o Cristo do Novo Testamento, dons concedidos apenas a quem não os destina a fins mundanos, assim como o pão de cada dia do Pai-Nosso deve ser entendido como supersubstancial, já que a liberdade é libertação do apego ao mundo, e é o jogo do ego individual e coletivo que bloqueia a relação com a Verdade.

14. Atenta e ouvinte como o poeta, mas dotada de intelecto, Simone Weil escreve palavras que não agarram, não persuadem nem exprimem opinião ou ponto de vista, mas manifestam o desprendimento da liberdade e uma abertura real, impessoal, honesta e incorruptível.

15. Contra a objeção existencialista de que toda verdade é verdade de alguém, essa verdade não tem dono nem vem dos sentidos, da mente ou do inconsciente, pois, nascida no vazio da liberdade, sem compromissos ocultos nem apegos sociais, econômicos ou psicológicos, não é de ninguém, ou seja, é de Deus, e suas palavras dispensam defesa, livres de toda ideologia, esperança, medo ou desejo e alheias a qualquer comunidade, nação, igreja, credo ou indivíduo.

16. Essa verdade está muito longe do que hoje se chama pensamento, resolução de problemas ou rearranjo de opiniões para sustentar conclusões prévias, quando não cálculo técnico, venda, apologética ou propaganda, e respira outro ar por não se importar com o resultado, numa espécie de temeridade divina de quem caminha na corda bamba sustentada pelo oposto da gravidade.

17. A palavra verdade resume tudo aquilo que se prefere não olhar, quase tudo, opondo-se a toda fraqueza, hipocrisia, covardia, interesse próprio e autoengano, sendo o ingrediente mais duro, custoso e perigoso da vida humana, do qual o Louco e a Criança são apenas imagens preliminares.

18. O idiota da aldeia está tão perto da verdade quanto a criança prodígio, ambos separados dela apenas por um muro, mas o único acesso à verdade passa pela própria aniquilação e por uma longa permanência num estado de humilhação extrema e total.

19. No último ano de vida, numa carta ao velho amigo Maurice Schumann, exprime-se o mesmo amor maravilhosamente impessoal pela Verdade.

20. A verdade só vem de fora e sempre vem de Deus, e a vida nunca significou nada senão como limiar para a revelação da verdade.

21. A esse amor junta-se então um sentimento que antecipa a morte iminente e até as condições sombrias e enigmáticas que a cercariam.

22. Uma devastação crescente na inteligência e no centro do coração nasce da incapacidade de pensar com verdade, ao mesmo tempo, a aflição dos homens, a perfeição de Deus e o laço entre ambas, verdade que, se um dia for concedida, só será revelada na aflição física em uma de suas formas extremas atuais, único caminho pelo qual Deus conduzirá a ela quem está fora da verdade e não pode ser levado até lá por nenhum meio humano.

23. Embora isso permaneça obscuro para quem não tem experiência comparável, é difícil não ver na incapacidade de comer no fim da vida, no sanatório de Ashford, a provação final extrema anunciada.

24. Apesar dessa morte extraordinária e quase incompreensível, o melhor epitáfio de Simone Weil poderiam ser as últimas palavras do jovem padre do Diário de um Pároco de Aldeia, de Bernanos, autor que ela amava e com quem se correspondeu: tudo é graça.

O Mundo da Necessidade

1. Não se vive no reino da verdade, mas no mundo da necessidade, designação do mundo natural e do mundo humano que, em sua treva e ignorância, se assemelha a ele sem a obediência que enobrece a natureza, mundo da natureza indiferente, das vastas extensões frias do espaço e do tempo, da perda, da doença e da morte, necessidade que é a substância do mundo mas só é sentida sob a forma de golpes.

2. Neste mundo experimentam-se, na maior parte das vezes, não a verdade, o amor e a justiça, mas apenas suas aparências.

3. O mundo é o reino da necessidade, ao qual pertence a aparência da justiça, enquanto a justiça real não é deste mundo.

4. A vida humana está lançada num terceiro mundo, o das ilusões, do poder, do prestígio e do privilégio, sistema de mentiras sociais repleto de pretensões vaidosas, cujos governantes usam as armas da necessidade, a força, a morte e a escravização, para manter seus sistemas ilusórios de autoimportância, restando apenas vislumbres esparsos da verdade em meio às fantasias da imaginação humana.

5. Ver com clareza toda essa mentira, corrupção e busca de poder sem jamais se ajoelhar diante delas é a marca dos autênticos guias espirituais, Homero, Sófocles, Platão e Jesus, que se recusaram à idolatria da brutalidade e da força.

6. Nesse mundo imaginário da idolatria não há reino platônico das ideias, mas apenas a necessidade natural, com sua gravidade e força, enquanto as ilusões do ego coletivo e individual têm só aparência de realidade, e somente pela graça, como através de um abismo infinito, vestígios da Verdade e do Bem alcançam a escuridão humana.

7. Distinguem-se assim três reinos ou dimensões, a ilusão humana, o mundo natural e a verdade sobrenatural, isto é, existência, necessidade e impossibilidade.

8. A existência, ou realidade de sombra, abrange a ilusão, o imaginário, o prestígio, o poder social, o ouro, o orgulho, a mentira, a guerra, a ideologia, a aparência de justiça, a fama e a opinião.

9. A necessidade, ou realidade sólida, abrange a matéria, o espaço e o tempo, a gravidade, a causalidade, a força, a aflição, o nascimento, a alimentação, a doença, a morte, a perda e a destruição.

10. A impossibilidade, ou realidade manifesta apenas ao amor pela graça, abrange a transcendência, o amor divino, o amor anônimo ao próximo, a ordem, a beleza, a verdade, a humildade, a amizade, o paradoxo, a atenção, a aflição como meio de graça e os estudos escolares como desenvolvimento da atenção.

11. O reino da existência tem caráter de sonho, como na Caverna de Platão, regido pela imaginação na vida social e na guerra, como reconheceu Napoleão, e sua irrealidade se ilustra numa caixa de velhas medalhas pelas quais homens lutaram e morreram, hoje brinquedo infantil para uma tarde chuvosa, e nem mesmo a necessidade desperta desses sonhos de glória, mas somente o sobrenatural, humanamente impossível.

12. É preciso tocar a impossibilidade para sair do estado de sonho.

13. No reino da necessidade natural depara-se com o que não é o próprio eu, obstáculos e dificuldades contra os quais nada se pode fazer, que no mundo social se tornam força e mal, e o essencial para qualquer civilização, como entenderam os gregos e não os romanos nem o Antigo Testamento, é não unir Deus à força e ao poder.

14. A incapacidade de fazer essa distinção caracteriza os sofistas combatidos por Sócrates e Platão e os governantes de toda a história, servidores da Grande Fera platônica da opinião pública que precisa ser bajulada por poder despedaçá-los a qualquer momento, e que, crendo apenas no poder, ignoram a sabedoria sutil e orientadora do Bem.

15. O rebanho impõe seus valores em todas as sociedades sem exceção, havendo duas morais, a social e a sobrenatural, esta acessível apenas aos iluminados pela graça, de modo que a sabedoria de Platão nada mais é que uma orientação da alma para a graça.

16. A matemática e a ciência sublimam a necessidade para revelar a ordem e a beleza sobrenaturais do mundo, como viram os gregos, enquanto a ciência moderna enxerga a necessidade apenas em termos de utilidade, poder coletivo humano e analogia com o trabalho.

17. A ciência clássica conseguiu subsumir o estudo de todo fenômeno natural na noção de energia, derivada diretamente da de trabalho, e nada é mais estranho ao bem do que essa ciência, que faz do trabalho escravo o próprio princípio de sua representação do mundo e não encontra lugar para o bem nem como termo de contraste.

18. O êxito da metáfora do trabalho escravo na física prova apenas que ela teve êxito do mesmo modo que nos assuntos humanos, a um alto custo de humanidade, e que ciência e sociedade se refletem mutuamente.

19. Apesar de suas diferenças, a ciência grega e a moderna reconheciam a necessidade experimentada pelo homem comum, ao passo que a teoria quântica a abandonou em favor de uma noção ininteligível de probabilidade desligada de todo sentido concreto, e uma ciência sem necessidade logo perderá sentido e verdade e deixará de atrair estudantes, pois uma coisa é renunciar a representar o mundo e outra é renunciar a dar-lhe sentido.

20. A pergunta sobre se a verdade, indefensável pelo poder, precisa da metafísica para defendê-la repousa numa confusão entre o metafísico, que pretende apossar-se do mundo por um conhecimento que agarra e consome, e o sobrenatural, que se revela como dom e inspiração, assim como o Ser resume a metafísica e o Espírito resume o sobrenatural, de modo que a Terceira Idade de Joaquim de Fiore começa com o fim da metafísica.

21. Como a filosofia do último Wittgenstein e do último Heidegger, a de Simone Weil parte de significados dados, que não precisam ser construídos, explicados ou justificados, sejam eles dados pela linguagem, pela história e pelo pensamento poético ou pela Verdade, pelo Amor e pelo Bem manifestos no mundo, ganhando metáforas e analogias maior importância na formação de paradigmas e modos de pensar e de olhar.

O Declínio da Perspectiva

1. Junto ao modelo do trabalho mecânico, o mundo moderno foi dominado pela ideia de perspectiva, metáfora de origem grega plenamente realizada no Renascimento com as novas geometrias e a óptica, ideia integradora criadora de realidade que levou cientistas e artistas, ao representar pela primeira vez três dimensões, a imaginar que controlavam o mundo e o viam como realmente é.

2. A Geometria de Descartes, de 1637, abriu caminho para equações algébricas capazes de representar todas as trajetórias possíveis dos corpos no plano e de estender-se a qualquer número de dimensões, reduzindo todo problema geométrico ao conhecimento do comprimento de certas retas, base dos sistemas de coordenadas.

3. Combinados com o cálculo de Newton e Leibniz, que trata do infinitamente pequeno e da divisibilidade infinita do contínuo, os sistemas de coordenadas forneceram a base da nova ciência e de um novo mundo objetivo.

4. As quantidades materiais mensuráveis assumiram o estatuto metafísico do que realmente existe, substituindo as formas intelectuais medievais como verdadeiro Ser contemplado pelo olho da mente.

5. O primeiro sinal da ruptura dessa suposta realidade, antes mesmo que Einstein abandonasse as coordenadas cartesianas, foi o abandono da perspectiva nas artes, com o passo ousado do retorno à planura e a percepção de que duas dimensões são mais reais que três, como mostraram as maçãs de Cézanne, tão sólidas quanto as de Giotto ou mais, inaugurando uma nova época na arte e na cultura.

6. Na filosofia, nem mesmo um inovador como Nietzsche rompeu o domínio da perspectiva, prevendo que o fim da metafísica produziria um caos de relativismo e niilismo moral pela multiplicação indefinida de perspectivas sem critério de verdade, análogo ao caos atonal temido por músicos conservadores das décadas de 1920 e 1930.

7. Simone Weil percebeu o significado do retorno à geometria plana grega e de suas analogias em todos os domínios.

8. O ponto de vista fixo é a raiz da injustiça.

9. A geometria plana é um exercício de pensamento sem ponto de vista, no qual tudo está num único plano.

10. Em toda esfera, dispor o assunto num único plano pela inteligência dedutiva, eliminando qualquer ponto de vista, é uma purificação indispensável do pensamento.

11. É preciso, porém, tomar vários cortes, como num desenho mecânico, pois um único corte conduz ao erro.

12. Os conflitos entre concepções de justiça nascidas de pontos de vista diferentes exprimem politicamente o fracasso do perspectivismo, para o qual as múltiplas perspectivas e sua composição num mesmo quadro são apenas um começo, sendo o abandono total da perspectiva o passo mais drástico.

13. Quando a mente se submete a uma perspectiva, perde-se o sentido da realidade, e a posição de indiferença é aquela que está fora de qualquer ponto de vista.

14. Entendida a graça como justiça sobrenatural que supera a perspectiva, essa justiça é uma operação análoga à superação da perspectiva, sem centro algum no mundo, mas apenas fora dele.

15. É impossível que a totalidade da verdade não esteja presente em todo tempo e lugar, disponível a quem a deseje.

16. O beco sem saída do relativismo e do caos previsto por Nietzsche com o fim da metafísica foi evitado com mais êxito pelo último Wittgenstein, pelo último Heidegger e por Simone Weil, que, sem ancestrais imediatos, alcançaram um aperspectivismo pós-moderno não antecipado por nenhum filósofo do século XIX.

Aprender a Pensar de um Novo Modo

1. Einstein afirmou que é preciso aprender a pensar de um novo modo ou perecer, sem dizer qual, e após as catástrofes do século surge de fato uma nova maneira de pensar, visível sobretudo em filósofos e artistas como Wittgenstein e Simone Weil, notavelmente semelhantes apesar das grandes diferenças de temas.

2. Amplia-se o consenso sobre aquilo que precisa ser abandonado.

3. O pensamento ideológico, sistemas de causalidade mítica como os de Freud, Jung, Marx e Lênin, carece do desprendimento da verdadeira ciência e da honestidade das religiões, constituindo sistemas de crença disfarçados que servem a preconceitos estabelecidos, embora suas percepções descritivas, devidamente qualificadas, tenham valor.

4. O pensamento metafísico e sua variante recente, a antimetafísica de Nietzsche e Derrida, devem ser abandonados juntos, pois a antimetafísica faz a mesma pretensão absoluta de modo negativo e não se pode negar aquilo que se declara sem sentido.

5. O fundacionismo e o representacionismo, pilares gêmeos da tradição, o fundamento absoluto e a imagem absoluta, indicam ortodoxia doutrinária e foram mostrados ilusórios justamente pela lógica e pela matemática modernas.

6. O perspectivismo, ao afirmar que pensar é adotar uma perspectiva, gerou o problema epistemológico insolúvel de unir o sujeito privado ao objeto distante que ele enfrenta.

7. A palavra-chave do novo modo de pensar é descrição, despida de toda pretensão de mapeamento lógico completo, uma descrição tão desprendida, penetrante e evidente que tem caráter de revelação, um ver no qual o ordinário se torna translúcido e o próprio pensamento se torna um olhar, como em Simone Weil e Wittgenstein.

8. Esse ver implica metáforas e analogias que transformam as estruturas de sentido, pois a filosofia já não se ocupa do conhecimento, mas do significado e da compreensão, uma vez que o conhecimento por si não traz compreensão e a cada dia se sabe mais e se compreende menos.

9. Os fatores que desintegram a civilização ganharam a supremacia neste século, talvez irreversivelmente, e com toda probabilidade humana ela não sobreviverá, deixando um dia simplesmente de funcionar, razão pela qual vale a pena compreender como isso ocorreu e inventariar falhas e erros para não sucumbir inteiramente às escuras e para que os que vierem depois possam aprender.

10. Com o Renascimento perdeu-se o sentido do que está além da vontade humana, e a extensão aparentemente ilimitada do conhecimento científico e do poder levou à perda das proporções humanas, à fragmentação da cultura e à tecnologia fora de controle, adoecendo a cultura de irrealidade pela mídia de massa e pela manipulação política, de modo que a hybris renascentista foi alcançada por sua nêmesis.

11. A civilização só será revivida e reconstruída sobre uma humildade renovada, a única virtude sobrenatural, e somente reencontrando-a nas fontes originais dessa civilização será possível sobreviver e passar ao novo mundo da era pós-tecnológica.