FERRARIS, Maurizio. Postverità et altri enigmi. Bologna: Società editrice il Mulino, 2017.
Sim, estás certo. Tudo o que dizes está correto. Mas onde estão os fatos?
Goebbels, após uma conversa com Hitler, Diários, 28 de março de 1945
Prólogo
Trombetas de Trump
1. Na epígrafe, extraída dos Diários de Goebbels após um colóquio com Hitler em 28 de março de 1945, a concessão de que tudo o que se diz é correto vem acompanhada da pergunta sobre onde estão os fatos.
2. Entre a afirmação de Chomsky, em 20 de maio de 2015, de que o New York Times é pura propaganda e o tuíte de Trump, em 17 de fevereiro de 2017, de que as fake news, com o New York Times à frente, são inimigas do povo americano, há uma diferença essencial, pois Chomsky age como Sócrates ao enunciar um princípio iluminista e idealista, segundo o qual a ciência garante uma verdade libertadora e desinteressada e faz do cientista o guardião da verdade capaz de julgar as mentiras da imprensa burguesa submetida ao capital e ao imperialismo.
3. Trump, ao contrário, exprime uma parte de seu país concebida como portadora de uma verdade que nada tem a ver com objetividade, mas com a solidariedade de um povo contra as maquinações de uma elite que vende como verdade os interesses dos grandes poderes, donde a exigência de uma verdade alternativa, de uma pós-verdade difundida por fontes como as Real News de Lara Trump, trombetas da verdade de Trump que são apenas a primeira linha de um concerto de milhares de tuítes e posts, cada um convicto de ter razão e de manifestar em sua indignação algo sacrossanto, no qual reaparecem velhos fantasmas filosóficos, a bela alma, a lei do coração, o delírio da presunção e sobretudo a tautologia vazia do Eu igual a Eu.
4. A pós-verdade é um fenômeno relevante o bastante para merecer um livro, e apesar da tentação de dizer que sempre houve mentiras e enganos, que a mentira é ingrediente indispensável da política e da vida e que basta prestar atenção ao que se lê como ao que se come, trata-se de um conceito novo e importante, cuja emergência, não decretada por ninguém, define algumas características essenciais da opinião pública contemporânea.
5. A pós-verdade é um objeto social real, como a recessão ou a mais-valia, que incide sobre assuntos de interesse público, manifesta-se na web e herda a opinião pública no sentido de Habermas, apoia-se em traços meta-históricos da humanidade, mais inclinada à estupidez que à inteligência, e tem sua originalidade na forma atual da fraqueza humana, a de quem já não crê no além ou na bruxaria mas difunde por meios de potência infinita a convicção de que vacinas causam autismo, constituindo um fenômeno teórico nascido do encontro entre uma corrente filosófica, uma época histórica e uma inovação tecnológica, que permite captar a essência da época assim como o capitalismo captou a do século XIX e os meios de comunicação a do século XX.
6. O livro divide-se em três dissertações de ritmo e estilo distintos, história das ideias, ontologia social e epistemologia, à maneira de A genealogia da moral de Nietzsche, bisavô da pós-verdade com quem se aprende, entre outras coisas, que não convém repetir em 2017 o que se escreveu em 1887, e seu título imita A verdade e outros enigmas de Michael Dummett, pois a pós-verdade oferece um caminho privilegiado para esclarecer alguns enigmas, a começar pelo que se entende por verdade.
7. A primeira dissertação sustenta a conjunção entre pós-moderno e pós-verdade, mostrando que o primeiro é o antecedente ideológico da segunda e que nele confluem os temas da revolução conservadora que, desde o romantismo, se propuseram como alternativas à ciência e à racionalidade, sem pretender que a ciência tenha sempre razão ou que a racionalidade tenha uma única forma, mas afirmando que a exaltação do irracional, do falso e da vontade de potência não melhora a condição humana.
8. A tese teórica central é que a pós-verdade é a inflação, a difusão e a liberalização do pós-moderno para além das salas de aula e das bibliotecas, cujo resultado é o absolutismo da razão do mais forte, fenômeno cujo único equivalente possível é o marxismo, embora este fosse um corpus mais homogêneo e sustentado por poderosos aparelhos estatais, já que Kellyanne Conway, assessora de Trump e inventora da verdade alternativa, não precisou de nenhuma escola de pós-modernismo, bastando-lhe frequentar universidades onde se ensinava que a verdade é uma antiga metáfora, que o meio conta mais que a mensagem e que a democracia exige sustentar simultaneamente que os ameríndios chegaram da Ásia pelo estreito de Bering e que surgiram das vísceras da terra.
9. O pós-moderno é um movimento filosófico importante, provavelmente o mais influente da segunda metade do século XX, como a filosofia analítica o foi na primeira, e conta com grandes personalidades capazes de se autocorrigir, como Rorty e Foucault, e com intérpretes menores que acrescentam pouco, tiram muito, perseveram no erro e geram uma escolástica, ao passo que os grandes fornecem instrumentos que vão muito além das contingências históricas.
10. É o caso de Derrida, que não foi apenas o pensador da desconstrução e a origem de uma turba estereotipada de imitadores, mas também o pensador da onipresença da escrita no mundo social e da verdade como algo que não se recebe passivamente, mas se faz, sem o qual faltaria algo da parte destrutiva do livro e nada se poderia conceber da parte construtiva.
11. A segunda dissertação analisa a passagem do capital à documedialidade, neologismo que designa o meio técnico que tornou possível a pós-verdade, a união entre a força normativa dos documentos e a penetração dos meios de comunicação da era da internet, num contexto em que tradicionalmente difundir uma doutrina exigia proselitismo, escolas custosas, pessoal dedicado, hábitos, hierarquias, escritórios políticos, estruturas de propaganda e sobretudo muita coerção.
12. Há vinte anos, com eficácia e potência crescentes, nada disso é necessário, pois com um celular na mão qualquer um pode difundir urbi et orbi suas opiniões, como outrora o controle remoto permitia afirmar os próprios gostos, mas com um sentimento de onipotência maior, de modo que as opiniões tendem a confirmar a intuição de fundo garantida filosoficamente pelo pós-modernismo, a de que a razão do mais forte é sempre a melhor, como mostram a soltura de O. J. Simpson graças a um bom advogado e a pretensão de que a posse de Trump teve o maior público da história americana.
13. A revolução documedial ainda não foi devidamente avaliada, como mostra a tendência de grande parte da crítica social a localizar a origem de todos os males em entidades ocultas e quase mitológicas como o capital, sem considerar que talvez se refira a uma era há muito encerrada e que seja preciso atualizar as categorias fundamentais de leitura da realidade social.
14. É preciso reconhecer, em primeiro lugar, que nos últimos dois séculos as sociedades tecnologicamente avançadas não assistiram a um desdobramento uniforme do capitalismo, interpretado como triunfo ou como crise, mas à sucessão de três formas de organização técnica e social, o capital, a medialidade, que designa o sistema dos meios de comunicação do século passado, e atualmente a documedialidade.
15. É preciso, em segundo lugar, notar que todas as categorias do capital foram substituídas, pois as mercadorias de Marx deram lugar aos documentos, possíveis veículos da pós-verdade, o trabalho remunerado a uma mobilização não remunerada que produz gratuitamente mensagens verdadeiras, pós-verdadeiras e sobretudo irrelevantes, a subsistência ao desejo de reconhecimento, apresentado não como alienação mas como afirmação da própria personalidade, e as massas e suas rebeliões a um plâncton disperso no oceano da internet, composto de pequenas tribos ou indivíduos isolados, cada um portador de suas convicções e sobretudo da convicção fundamental, que esvazia a noção de classe, de que um vale um.
16. A terceira dissertação propõe um remédio contra a pós-verdade concebido não como retorno à ordem, como se tivesse havido alguma ordem que não fosse necessariamente perversa, mas como teoria progressiva da verdade, partindo da insuficiência tanto da teoria hermenêutica, a hipoverdade, que trata a verdade como resultado de esquemas conceituais mais ou menos arbitrários, quanto da analítica, a hiperverdade, que identifica verdade e realidade, de modo que seria verdade que a neve é branca mesmo sem nenhum ser humano para constatá-lo.
17. Os defeitos da hipoverdade já se mostraram, e os da hiperverdade, menos evidentes, consistem em que, ao pensar a verdade como independente dos processos de descoberta, verificação e justificação, ela não dá conta dos processos que conduzem à pós-verdade nem oferece soluções e alternativas, sendo o limite comum de ambas conceber a verdade como relação de dois termos, epistemologia e ontologia, pois para os hermeneutas o que se sabe ou se crê saber equivale ao que existe e para os analíticos o que existe é o que se sabe.
18. A alternativa é a mesoverdade, não como caminho intermediário entre hipo e hiperverdade, mas como perspectiva que valoriza o meio tecnológico que relaciona ontologia e epistemologia, numa relação de três termos que inclui a tecnologia, obra humana que, garantindo a passagem da ontologia à epistemologia, permite obter proposições verdadeiras, isto é, fazer a verdade.
19. Nenhuma teoria da verdade, por melhor que seja, impedirá alguém de mentir se assim o desejar ou julgar oportuno, liberdade grande e talvez a única característica específica do ser humano, à qual nada se acrescenta e da qual algo se retira ao afirmar que a mentira é inevitável porque a verdade não passaria de uma antiga mentira.
20. Uma primeira exposição dessas teses apareceu em A verdade sobre a pós-verdade, no suplemento literário Robinson do jornal La Repubblica, em 30 de abril de 2017, num debate em que se defendia a validade do conceito contra Alessandro Baricco, que a negava, idealizado e acolhido por Valentina Desalvo, responsável pelo suplemento.
21. Versões preliminares do livro foram debatidas em dois encontros organizados em Paris no âmbito da iniciativa de pesquisa Documédialité do Collège d'études mondiales, no Collège des Bernardins, em 9 de março de 2017, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em 24 de maio de 2017, graças a Olivier Bouin, Sara Guindani e ao padre Frédéric Louzeau e com a participação de nomes como Paul Boghossian, Jocelyn Benoist, Pascal Engel, Diego Marconi, Julian Nida-Rümelin, John Searle e Bernard Stiegler.
22. Outras apresentações das teses principais ocorreram, além do Laboratório de Ontologia da Universidade de Turim, em conferências e seminários do primeiro semestre de 2017 em instituições como a Boston University, a Indiana University, a Universidade de Freiburg, o Data & Society Research Institute de Nova York, a Beijing Normal University, a Université Laval e o Conservatoire national des arts et métiers de Paris, com agradecimentos aos anfitriões e interlocutores desses encontros.
23. Agradecimento especial vai a Tiziana Andina, Elisabetta Brizio, Stefano Caputo, Angela Condello, Jacopo Domenicucci, Anna Donise, Giacomo Ferraris, Elisabetta Scarpa e Enrico Terrone, que leram o manuscrito com paciência e gentileza e ofereceram sugestões, críticas e melhorias.