FERRARIS, Maurizio. Documentalità: perché è necessario lasciar tracce. Roma: GLF editori Laterza, 2014.
Casamentos e anos na prisão
Neste livro, falo sobre objetos sociais, ou seja, coisas como dinheiro e obras de arte, casamentos, divórcios e guarda compartilhada, anos na prisão e financiamentos imobiliários, o preço do petróleo e códigos tributários, o Tribunal de Nuremberg e a Academia de Ciências de Estocolmo, e ainda as crises econômicas, os projetos de pesquisa, as aulas, as formaturas, os estudantes, os monsenhores, as contratações, as eleições, as revoluções, as demissões, os sindicatos, os parlamentos, as sociedades anônimas, os restaurantes, os jogos, os advogados, as guerras, as missões humanitárias, os impostos, os fins de semana, os cavaleiros medievais e os cavaleiros da República.
Ora, não é preciso recorrer à filosofia para perceber que esses objetos lotam nosso mundo muito mais do que as pedras, as árvores e os cocos, e que são os mais importantes para nós, já que deles depende, em grande parte, nossa felicidade ou infelicidade. No entanto, nem sempre prestamos atenção a isso, e muito menos nos perguntamos do que são feitos, percebendo isso apenas quando perdemos a carteira ou o bilhete de trem, o passaporte ou o cartão de crédito, e começamos a procurar, a pagar, a ligar, a escrever e-mails, a ficar na fila em escritórios de todos os tipos. Só então compreendemos (mas, nesse caso, já é tarde demais) que os objetos sociais são feitos de inscrições, em papel, em algum suporte magnético, talvez até mesmo apenas (por exemplo, nas promessas que fazemos uns aos outros todos os dias) na cabeça das pessoas.
É por isso que intitulei essa teoria do mundo social de “documentalidade”: a ontologia dos objetos sociais é composta de rastros, registros e documentos, e se manifesta naqueles pedacinhos de papel que se acumulam em nossos bolsos, naqueles outros pedaços de papel ou plástico que guardamos com mais cuidado na carteira e, ainda, na massa de registros que entopem computadores e arquivos, celulares e bancos.
Apresentei versões parciais da teoria em Documentality Or Why Nothing Social Exists Beyond the Text, em Cultures. Conflict - Analysis - Dialogue, sob a coordenação de Ch. Kanzian e E. Runggaldier, “Anais do 29º Simpósio Internacional Ludwig Wittgenstein em Kirchberg, Áustria”, Nova Série 3, Publicações da Sociedade Austríaca Ludwig Wittgenstein 2007, pp. 385-401; Ontologia da obra de arte e do documento, em Ontologie Regionali, sob a coordenação de A. Bottani e R. Davies, Mimesis, Milão 2007, pp. 141-163; Documentalidade: ontologia do mundo social, em «Ethics and Politics», IX, 2007, 2, pp. 240-329; Ciências sociais, em História da ontologia, sob a coordenação de M. Ferraris, Bompiani, Milão 2008, pp. 475-489. Cf. também os anais do colóquio organizado no âmbito das atividades do Centro Interuniversitário de Ontologia Teórica e Aplicada, Documentalidade. A ontologia dos objetos sociais, «Rivista di Estetica», n.s., XXXVI, 2007, 3, sob a coordenação de D. Tagliafico.</http:>