Adeus Kant!

FERRARIS, Maurizio. Goodbye Kant! Cosa resta oggi della Critica della ragion pura. Milano: RCS Libri, 2012.


De Königsberg a Kaliningrado

Entre as muitas cidades que mudaram de nome após a Segunda Guerra Mundial, está também Königsberg, onde Kant nasceu e viveu. Naquela época, ficava na Prússia; hoje é um enclave russo entre a Polônia e a Lituânia, e chama-se Kaliningrado. A mudança do alemão para o russo, após 1945, parece ser o inverso da mudança do russo para o alemão de Leningrado/São Petersburgo, após 1989. E sugere, por meio de uma viagem no tempo em vez de no espaço, quanta água já passou por baixo das pontes, tanto na história (o que parece óbvio) quanto na filosofia (o que, muitas vezes, é menos óbvio).

Inspirado no bicentenário da morte de Kant, este breve texto tem como objetivo expor sua revolução — a revolução copernicana — com a mesma ironia afetuosa reservada à revolução soviética em Goodbye Lenin! Também em Kant, assim como na RDA recriada no filme de Wolfgang Becker, encontramos pepinos em vinagre e velhos carros Trabant misturados com o ideal de um mundo mais sólido e menos injusto, e com a aspiração a uma fundação total do conhecimento e da moral.

O espírito é, portanto, totalmente diferente daquele que animou, há cento e cinquenta anos, o livro de Franz Příhonský (1788-1859), um discípulo do filósofo austríaco Bernhard Bolzano (1781-1848), intitulado programaticamente Novo Anti-Kant (que, aliás, como se entende já pelo título, nem sequer era o primeiro). O meu, em suma, não é um “Novíssimo Anti-Kant”. Não se trata de mutilar um monumento, mas sim, se possível, de tirar um pouco da ferrugem para devolvê-lo à atualidade. Acredito, de fato, que fazer um inventário dos Trabants e dos pepinos espalhados pela Crítica da Razão Pura constitui uma maneira não de dizer o que está vivo e o que está morto na revolução copernicana (quem se atreveria a uma pretensão tão grande?), mas de apresentar, sob outro ponto de vista — talvez mais cordial —, um clássico da filosofia que o tempo e o sucesso acabaram por embalsamar.