HUMANISMO, NEOPLATONISMO E HERMETISMO DURANTE O RENASCIMENTO
ELIADE, Mircea. Historia de las creencias y las ideas religiosas (3 vols). Barcelona: Paidós, 1999.
A prioridade conferida por Cosimo de Medici à tradução do Corpus hermeticum por Marsilio Ficino, em detrimento da obra de Platão, estabeleceu a preeminência da figura de Hermes Trismegisto no pensamento renascentista.
Ficino interrompeu a tradução dos Diálogos platônicos em 1460 para verter os tratados herméticos ao latim, concluindo a tarefa em 1463.
A publicação desses textos permitiu o triunfo do neoplatonismo em Florença e disseminou o interesse pelo hermetismo por toda a Europa.
Humanistas como Petrarca e Lorenzo Valla já haviam sinalizado uma nova orientação religiosa ao rejeitar a escolástica em favor de um retorno aos Padres da Igreja.
A valorização do Homo triumphans, segundo Charles Trinkaus, encontra raízes na tradição patrística mais do que em uma origem puramente pagã.
O neoplatonismo de Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Egidio di Viterbo elevou a exaltação da condição humana a uma dimensão teológica onde o homem atua como um deus sobre a terra.
A soberania humana sobre o mundo é interpretada como um mandato divino para a realização da história e da civilização através da ação.
Essa apoteose do homem nutriu-se progressivamente de um neoplatonismo paracristão e das doutrinas herméticas.
A convicção na ortodoxia do hermetismo e da magia fundamentava-se na autoridade do apologista Lactâncio, que identificava Hermes Trismegisto como um sábio inspirado por Deus.
Ficino reafirmou a harmonia entre a magia hermética e o cristianismo, enquanto Pico della Mirandola sustentou que a Magia e a Cabala confirmavam a divindade de Cristo.
A crença em uma prisca theologia estabeleceu uma linhagem de teólogos antigos que incluía Zoroastro, Moisés, Hermes, Davi, Orfeu, Pitágoras e Platão.
O entusiasmo pela busca de uma revelação primeva e universal expressava a insatisfação com o caráter provincial do cristianismo ocidental e com as limitações da escolástica medieval.
Pico della Mirandola dedicou-se ao estudo do hebraico para acessar a Cabala, considerada por ele uma revelação explicativa anterior ao Antigo Testamento.
O Papa Alexandre VI sancionou a iconografia egípcia e hermética nos afrescos do Vaticano, sinalizando a abertura às tradições da Pérsia e do Egito antigo.
A busca por uma fonte única das revelações da Ásia e do Egito antecipou, em estrutura, o interesse oitocentista pelo sânscrito e pelos Vedas.
A recepção da astronomia heliocêntrica de Copernicus por Giordano Bruno foi mediada por uma interpretação religiosa e mágica que via no diagrama celeste um hieróglifo de mistérios divinos.
Bruno profetizou o retorno iminente da religião mágica egípcia conforme descrita no tratado Asclepios.
A superioridade reivindicada por Bruno sobre Copernicus residia na capacidade de transcender a análise matemática em favor de uma compreensão esotérica da estrutura do universo.
A identificação do hermetismo com a religião egípcia antiga gerou clivagens entre os autores do século dezesseis, levando alguns a dissociar a doutrina filosófica da magia considerada herética.
Lefèvre d’Étaples introduziu o hermetismo na França separando o corpo principal do Corpus hermeticum do tratado Asclepios.
Symphorien Champier tentou preservar a autoridade de Hermes atribuindo as passagens mágicas do Asclepios a Apuleio.
Philippe de Mornay utilizou o monoteísmo hermético como fundamento para a concórdia religiosa e para a superação dos horrores das guerras civis.
O hermetismo operou como uma força irênica entre católicos e protestantes ao propor uma revelação compartilhada por toda a humanidade e centrada na dignidade do homem como microcosmo.
J. Dagens destaca que a influência hermética favoreceu tendências pacifistas em ambas as confissões cristãs.
A doutrina do microcosmo estabelece o homem como o ponto de síntese e comunicação entre a região celestial e o mundo sublunar.
A retomada da correspondência entre macrocosmo e microcosmo por Paracelso e seus discípulos integrou o estudo da natureza à busca pelo conhecimento de Deus.
A magia naturalis representou uma nova tentativa de aproximação entre o domínio da natureza e a religião no século dezesseis.
A investigação científica da natureza passou a ser concebida como um desdobramento da própria busca teológica.