A primeira parte do díptico apresenta um conjunto de mitos, ritos e símbolos próprios dos ofícios de mineiro, metalurgista e ferreiro, com o objetivo de compreender o comportamento do homem das sociedades arcaicas em relação à Matéria e de acompanhar as aventuras espirituais decorrentes da descoberta de seu poder de modificar o modo de ser das substâncias.
O estudo toma como ponto de partida as relações do homem arcaico com as substâncias minerais, especialmente seu comportamento ritual.
A experiência demiúrgica do oleiro primordial, embora mais antiga, não deixou vestígios mitológicos suficientes para ser estudada.
A obra não se propõe a ser uma história cultural exaustiva da metalurgia, o que demandaria milhares de páginas e esbarraria em lacunas consideráveis no conhecimento, como as mitologias africanas, indonésias e siberianas e a própria história da difusão das técnicas.
A abordagem privilegia a compreensão do universo mental próprio dos complexos metalúrgicos, partindo da sacralidade das substâncias minerais, que participam da sacralidade da Terra-Mãe, onde os minérios “crescem” como embriões.
A metalurgia adquire um caráter obstétrico, com o mineiro e o metalurgista intervindo no crescimento dos minérios.
A intervenção humana acelera o ritmo da natureza e substitui a obra do Tempo.
A colaboração com a Natureza para acelerar seus processos e mudar as modalidades da matéria é identificada como uma das fontes da ideologia alquímica, havendo um elemento comum entre o fundidor, o ferreiro e o alquimista: todos reivindicam uma experiência mágico-religiosa exclusiva em seu trato com a substância, cujo segredo se transmite por ritos iniciáticos, e todos trabalham sobre uma Matéria viva e sacra, visando sua transformação, aperfeiçoamento ou transmutação.
Apesar de não haver uma continuidade perfeita, os universos mentais compartilham a noção de intervenção no tempo das substâncias minerais.
O ponto de contato entre o artesão metalurgista e o alquimista reside nessa intervenção.
O segundo volet do díptico aborda a ideologia e as técnicas da alquimia, com ênfase nas alquimias chinesa e indiana, por serem menos conhecidas e por apresentarem mais claramente seu caráter de técnica simultaneamente experimental e “mística”.
A alquimia não foi originalmente uma ciência empírica ou uma química embriónica.
A química nasceu da decomposição da ideologia alquímica, após a perda da sacralidade das substâncias.
Do ponto de vista da história do espírito, há uma solução de continuidade entre a alquimia, que se propunha como ciência sacra, e a química, que se constituiu sobre a dessacralização da matéria, análoga à diferença qualitativa entre um drama ritual, que engajava a experiência religiosa e a salvação da comunidade, e o drama profano, que visa emoções estéticas e a perfeição formal.
As operações alquímicas não eram meramente simbólicas, mas materiais e laboratoriais, embora visassem um fim distinto da química: a transmutação da Matéria (Pedra Filosofal) e da vida humana (Elixir da Longa Vida), e não a análise da estrutura da matéria.
O simbolismo dos processos alquímicos, como demonstrado por C. G. Jung, reatualiza-se no inconsciente moderno.
A função soteriológica parece ser constitutiva da alquimia.
A originalidade da alquimia não deve ser medida por sua contribuição para o surgimento da química, pois da perspectiva alquímica a química representou uma decadência, a secularização de uma ciência sagrada; para compreender um fenômeno cultural estranho à ideologia moderna, é necessário descobrir seu “centro” e instalar-se nele para acessar seus valores.
Um complexo de inferioridade da cultura europeia leva à suspeita de obscurantismo quando se apresentam em termos honoráveis as culturas arcaicas, complexo este historicamente compreensível devido ao esforço sem precedentes do espírito científico nos últimos dois séculos e à fé no progresso como via de acesso à verdade e à dignidade humana.
O triunfo da ciência gerou uma visão de superioridade cultural.
Pesquisas orientalistas e etnológicas revelaram a validade de sistemas metafísicos, morais e econômicos de outras culturas.
A cultura europeia, tendo se comprometido heroicamente com a via científica e industrial, tornou-se ciumenta de seus valores e suspeita de qualquer validação de criações culturais exóticas, pois o reconhecimento da grandeza destas poderia gerar dúvidas sobre os sacrifícios exigidos pela via escolhida.
A possibilidade de outras culturas não serem inferiores ameaça a justificativa dos esforços e sacrifícios da civilização ocidental.
O complexo de inferioridade está sendo superado pelo curso da história.
É de se esperar que, assim como as civilizações extra-europeias passaram a ser estudadas em seu próprio campo de visão, certos momentos da história espiritual europeia mais próximos das culturas tradicionais, como a alquimia, deixem de ser julgados com os partis pris dos séculos XVIII e XIX.
A alquimia é uma criação do espírito pré-científico.
Apresentá-la como etapa rudimentar da química é um erro de perspectiva historiográfica.
A valorização dos textos alquímicos deve considerar seu próprio universo teórico, e não a escala de valores da ciência experimental.