1 Ego sum

MARION, Jean-Luc. Ripensare il cartesianesimo di Descartes: Lezioni milanesi per la Cattedra Rotelli. Milano: edigita, 2025.

O EGO SUM CARTESIANO E O QUE ELE NÃO É

1. O tema do ego sum é o ponto de partida mais adequado para estabelecer as diferenças entre a filosofia de Descartes e a tradição do cartesianismo, pois as põe visivelmente em relevo.

2. A fórmula ego cogito, ergo sum, presente com variações no Discurso do Método e nos Princípios da Filosofia, não aparece nas Meditações, o texto cartesiano mais importante, onde se lê que o enunciado eu sou, eu existo é necessariamente verdadeiro todas as vezes que é pronunciado ou concebido pela mente.

3. A fórmula ego sum, ego existo carece não só do ergo dedutivo, mas também do próprio cogito, ausência notada por poucos dos que escreveram sobre o tema nas Meditações, os quais, ainda assim, continuaram a associar a obra de 1641 à fórmula ego cogito, ergo sum.

4. Convém explicar por que o argumento do ego cogito é teoricamente mais forte na versão que não pronuncia o termo cogito e se limita a afirmar ego sum, ego existo.

5. Dizer eu penso enquanto se pensa transformaria o pensar num pensado, num cogitatum exposto à dúvida, ao passo que o ego cogito não é algo pensado, mas o próprio ato de pensar, condição de pensabilidade de toda outra realidade, que por isso não pode ser posto em dúvida, de modo que só se pode afirmar com certeza eu penso, eu sou.

6. À objeção sobre como se sabe que se pensa responde-se que, tomado como ato em sentido autêntico, como energeia ou pensamento em ato, o cogito é indubitável, pois o ato coincide sem resíduo com o que afirma, razão pela qual é mais simples tematizar a existência do ego cogito abandonando o termo cogito justamente para fazê-lo sobressair.

7. Muitas discussões sobre o cartesianismo partem da fórmula ego cogito, ergo sum, que não contém o núcleo do argumento cartesiano, e nem os maiores comentadores, como Kant, Nietzsche, Husserl e Heidegger, perceberam essa evidência textual.

8. As objeções mais insistentes dos grandes pensadores ao ego cogito referem-se ao papel da substância, ao significado da noção de sujeito e ao valor da representação, além de uma quarta, relativa à causa, que fica fora desta análise.

9. As objeções relativas à substância, ao sujeito e à representação devem ser examinadas, removidas e destruídas.

1. O EGO COGITO E A SUBSTANTIA

1. A objeção mais conhecida, formulada por Kant na Crítica da Razão Pura, atribui a Descartes a interpretação do eu penso como substância permanente, quando o pensamento muda continuamente e não permite nenhuma experiência de permanência, o que tornaria impossível associar a substancialidade ao exercício cogitativo do ego.

2. Hobbes já havia antecipado essa objeção nas Terceiras Objeções, afirmando que o ego só poderia pensar-se como substância se seu pensamento fosse material, já que só a matéria permanece idêntica a si.

3. A objeção kantiana é pertinente, mas o próprio Descartes tinha consciência dela, pois na Segunda Meditação afirma existir apenas enquanto e durante o tempo em que pensa, sem poder afirmar a permanência de seu ser e sem certeza de sua existência antes de conhecer Deus, de modo que ler o ego como substância permanente introduz em Descartes uma hipótese que ele próprio excluíra, como compreendeu Schelling ao dizer que o sum incluído no cogito significa apenas existo enquanto pensante.

4. Husserl, nas Meditações Cartesianas, retoma a objeção kantiana, exaltando primeiro a genialidade de Descartes para acusá-lo em seguida de ter substancializado o ego cogito.

5. Descartes teria feito uma virada quase imperceptível, mas fatídica, ao converter o ego numa substantia cogitans e num animus humano separado, primeiro elo de uma cadeia causal, tornando-se pai do realismo transcendental, que é contraditório.

6. Heidegger relança uma objeção análoga em Ser e Tempo, o que, dado o peso dessas objeções e de seus autores, exige uma resposta a partir da própria filosofia cartesiana.

7. Uma verificação nas Meditações mostra que o termo substância aparece pela primeira vez na Terceira Meditação, e não na Segunda, onde se enuncia ego sum, ego existo, de modo que nesta não há referência à substância e menos ainda ao ego como substância.

8. Os termos causa e substância surgem na Terceira Meditação por um desvio do argumento, quando Descartes abandona a descrição do ego para seguir outra via que demonstre a existência de Deus, o que mostra que o ego, autossuficiente, não precisa ser definido substancialmente.

9. A resposta mais forte à objeção da substancialidade é que Descartes nunca descreveu o ego como substância ao tematizar sua natureza, e tinha boas razões para isso, de modo que as objeções de Kant, Nietzsche, Husserl e Heidegger são filologicamente incorretas e alheias aos textos.

10. Nas Respostas às Objeções e nos Princípios Descartes fala de substantia cogitans e extensa, mas no quadro de uma hierarquia que começa ou termina em Deus, substância infinita, em relação à qual o ego aparece como substância pensante finita, distinta da substância extensa, o que exige distinguir cronologicamente a ordem das razões e reconhecer que o cogito, por si, não precisa das noções de causa e substância, necessárias apenas na passagem do finito ao infinito.

11. A primeira razão para não qualificar o ego substancialmente é que a pergunta cartesiana não é o que sou, que admite uma substância como resposta, mas quem sou, como mostra a Segunda Meditação ao confessar não compreender ainda suficientemente quem é esse eu que necessariamente já é.

12. Heidegger retoma em Ser e Tempo a pergunta pelo quem e não pelo quê a respeito do Dasein, mas estranhamente contra Descartes, acusando-o de deixar indeterminado o modo de ser do ego, quando Descartes o colocara justamente em termos de quis e não de quid, legitimando a recusa da substância, sempre dubitável, em favor do ego como actus cogitandi, cujo simples quem é indubitável, o que aproxima ainda mais o ego cartesiano do Dasein, ambos constituídos por um ato que os põe em identidade consigo.

13. A segunda razão é a dificuldade de definir o ego segundo o quê com os termos tradicionais, mens, animus, intellectus, ratio, que nada acrescentam ao ato de pensamento, de modo que a ausência de definição do ego é mais inteligível que uma definição pela terminologia da tradição.

14. Nietzsche também criticou o suposto substancialismo cartesiano, afirmando que o conceito de substância é consequência do conceito de sujeito e não o inverso, problema já presente em Leibniz, que, para restaurar a substância em todos os seres, concluiu que eles devem ser pensados por analogia com o ego, do qual derivam.

15. O próprio Descartes tinha consciência desse problema ao chamar o ego de substância no fim da Terceira Meditação, apenas por ser a substância mais conhecida e experimentável, que torna inteligível a noção de substância, pois, fiel à tradição medieval, a substância só é conhecida por seus atributos, e o privilégio do ego é ser um ato de pensamento em relação imediata com a substância que produz, de modo que toda substância é obtida e explicada a partir do ego, e não o contrário.

16. Por essas razões Descartes resiste às objeções de Kant, Husserl, Heidegger e Nietzsche, e a crítica da substancialização do ego exemplifica o que R. A. Watson chama de história de sombra da filosofia, um shadow boxing em que intérpretes golpeiam o reflexo e a caricatura de um grande filósofo na ausência dele.

2. O EGO COGITO E O SUJEITO

1. É um preconceito difundido que Descartes teria estabelecido o sujeito como primeiro princípio, centrado sua filosofia na oposição sujeito-objeto e se tornado pai da subjetividade moderna e teórico do sujeito metafísico.

2. A noção de sujeito tem em Descartes quase sempre o sentido do hypokeimenon aristotélico, substrato de acidentes ou atributos, ou de sujeição, caso em que sujeito e objeto coincidem paradoxalmente, como mostra a Quarta Regra das Regras para a Direção do Espírito.

3. Nas duas versões da Quarta Regra sobre a Mathesis universalis, que mede quantitativamente qualquer domínio, como a geometria aplicada à astronomia ou a aritmética à música, à maneira da matemática aplicada atual à economia ou à medicina, Descartes fala primeiro em abstrair de qualquer sujeito e depois de qualquer objeto, empregando os termos como equivalentes, de modo que o subjectum, substrato das qualidades mensuráveis, está sempre do lado do objeto e nunca do pensamento subjetivo.

4. Na Oitava Regra, porém, Descartes afirma que é fácil considerar todas as coisas do universo desde que submetidas ao exame da mente.

5. Abraçar pelo pensamento todas as coisas do universo não é obra imensa, desde que se reconheça como cada uma está sujeita ao exame da mente.

6. Toda coisa deve estar sujeita ao pensamento, e essa sujeição coincide exatamente com o estatuto de objeto do pensamento.

7. Descartes nunca fala do sujeito do pensamento, pois o sujeito é no máximo o objeto submetido a ele, de modo que fazer dele um pensador do sujeito não tem sentido, já que o conceito de sujeito idêntico ao pensamento é introduzido por Kant e não admite aplicação retroativa.

3. O EGO SUM CARTESIANO E A REPRESENTAÇÃO

1. Uma das objeções mais duras e um dos mal-entendidos mais graves consiste em interpretar o cogito e a cogitatio cartesianos como consciência representativa.

2. Heidegger, o principal intérprete de Descartes como filósofo da representação, afirma que ele usa percipere para cogitare no sentido de apoderar-se de algo pondo-o diante de si, retomando a ideia de Nietzsche de que pensar é um meio de designar e ordenar o acontecer para torná-lo manejável.

3. Representar corresponde em alemão a vor-stellen, pôr diante, e para Heidegger a definição cartesiana da verdade como certeza afirma o primado de um conhecimento representativo ligado à segurança e à apropriação, tornando a repraesentatio cartesiana análoga ao vor-stellen.

4. Para Heidegger não há representação sem o ato que põe diante a coisa nem Vorstellung independente do olhar de um ego, de modo que a representação e o argumento do ego cogito estão intimamente ligados, como declara em suas lições sobre Nietzsche.

5. O fundamento da verdade é o representar no sentido do ego cogito, isto é, do cogito me cogitare, pois a objetividade se funda na subjetividade do representar que se representa, sendo o representar a essência do ser.

6. O ego estaria implicado na representação porque não há representação senão por um ego oposto ao que deve ser conhecido, de modo que o cogito seria sempre um cogito me cogitare, um pensar de pensar pressuposto por todo pensamento como condição de possibilidade.

7. A interpretação heideggeriana, brilhante, tem fraquezas, pois inverte uma objeção kantiana que Kant não dirigira a Descartes e atinge mais Kant que Descartes, já que o cogito me cogitare que atribui a este corresponde à apercepção transcendental kantiana, a representação eu penso que deve poder acompanhar todas as outras e à qual todo pensado está submetido.

8. A fórmula atribuída por Heidegger não é estranha ao corpus cartesiano, pois nas Sétimas Objeções o jesuíta Bourdin a propusera como objeção, exigindo um ato reflexo para sustentar todo ato direto, e Descartes respondeu que esse ato reflexivo não é necessário.

9. Não é preciso uma ciência reflexa ou adquirida por demonstração, e menos ainda uma ciência da ciência reflexa que se reproduza ao infinito, bastando o conhecimento interno que sempre precede o reflexo e que, a respeito do pensamento e da existência, é inato em todos os homens.

10. Não é por reflexão ou duplicação do ego cogito que se pensam as coisas, segundo Descartes.

11. É paradoxal que a brilhante objeção de Heidegger tenha sido formulada quase explicitamente por um jesuíta medíocre e hoje esquecido e refutada por Descartes, que assim respondeu antecipadamente a Heidegger e mostrou consciência da formulação que se tornaria canônica a partir de Kant, de modo que se pode dizer, com Jean Beaufret, que Descartes de certo modo leu Husserl, já que evitou traduzir o ego cogito em reflexão duplicada e forma representativa.

12. Essa conclusão pode ser reforçada por um último argumento, de alcance fenomenológico, apenas esboçado aqui e retomado posteriormente.

13. A relação do ego com seu pensamento não é representativa nem reflexiva, mas envolve uma consciência de estatuto especial, a do sentir, pois a cogitatio cartesiana nunca é pura, mas sempre afetada por um de seus modos, a dúvida na Primeira Meditação, que conduz ao intelecto, a vontade na Quarta, a imaginação na Quinta e o sentido na Sexta, onde todos os modos são empregados para alcançar o mesmo grau de certeza, sem hierarquia rígida entre eles.

14. Sob o nome de pensamento compreende-se tudo o que está em nós de modo que dele temos consciência imediata, de modo que todas as operações da vontade, do intelecto, da imaginação e dos sentidos são pensamentos.

15. Descartes pode assim afirmar, nos Princípios e em cartas, que o pensamento tem uma conotação sensível e pode ser manejado, como na carta a Silhon em que a mente vê, sente e manuseia a verdade do penso, logo existo, e que sentir é aqui o mesmo que pensar.

16. Descartes não diz apenas que sentir é um modo do pensamento, mas que a experiência do pensamento é um sentir, que o pensamento se sente, equivocidade que se aplica às coisas materiais e imateriais e tem precedente em Aristóteles, para quem o nous apreende tanto os princípios mais altos da ciência quanto os dados sensíveis.

17. Descartes resiste às objeções ao ego cogito também porque seus críticos raramente o leram com atenção, já que Kant provavelmente nunca o leu diretamente e dependia de Hume, Locke, Leibniz ou Malebranche, e Hegel parece ter lido apenas a tradução latina do Discurso, o apêndice geométrico das Segundas Respostas e a primeira parte dos Princípios, de modo que hoje se conhecem os textos cartesianos mais a fundo que eles.

18. Outra razão é que Descartes não foi compreendido em sua época, como mostram Espinosa, que substituiu o ego sum, ego existo por homo cogitat, e Malebranche, para quem tudo se conhece à luz do Verbo divino exceto a própria alma, de modo que se formaram leituras estereotipadas que sobrevivem até hoje.

19. As objeções dos grandes filósofos não devem ser simplesmente desqualificadas, pois eles têm sempre razão quanto à questão e à doutrina que querem instituir, só errando ao ultrapassar seus limites, e mesmo sem atingir o essencial do argumento cartesiano suas objeções têm legitimidade e permitem aprofundá-lo.

20. Mostrada a distância entre o ego cogito cartesiano e as interpretações da tradição, cabe reler a formulação da Segunda Meditação para alcançar uma compreensão mais fecunda.

21. Ego sum, ego existo é um enunciado performativo realizado pelo próprio ego, com identidade estrutural entre o que é dito e quem o diz, verdadeiro todas as vezes que é proferido.

22. Poucas linhas antes, porém, a Segunda Meditação apresentava não um monólogo, mas um diálogo.

23. Talvez haja um Deus, qualquer que seja seu nome, que põe em mim esses pensamentos, embora eu mesmo possa ser seu autor, ou um enganador sumamente poderoso e astuto que me engana sempre, mas, se me engana, sem dúvida eu existo, e por mais que me engane nunca fará que eu seja nada enquanto pensar ser algo.

24. Quem existe, pensa e tem ideias pode ser enganado por Deus ou pelo criador de sua origem, e o engano pode atingir tanto o eu quanto as ideias recebidas, a ponto de o próprio eu, para escapar ao enganador, esforçar-se por considerar falsas todas as ideias.

25. Céu, ar, terra, cores, figuras e sons serão considerados ilusões de sonhos, e o eu será considerado sem mãos, olhos, carne, sangue ou sentidos, permanecendo obstinadamente nessa meditação para, ainda que não possa conhecer nada de verdadeiro, ao menos não assentir ao falso e impedir que o enganador, por mais poderoso e astuto, o ludibrie.

26. Para perceber essas ideias é preciso necessariamente ser, e mesmo que fossem falsas e um enganador enganasse além de toda dúvida, o eu existiria enquanto enganado, de modo que o ego cogito emerge num diálogo a várias vozes, a do enganador e a do eu enganado que engana o enganador e a si mesmo, e quem quer que engane o ego atesta sua existência justamente enquanto enganado.

27. Só depois de propor o argumento em forma dialógica Descartes chega a uma conclusão análoga e mais simples, suprimindo a alteridade com que o ego dialoga.

28. O enunciado eu sou, eu existo é necessariamente verdadeiro todas as vezes que é pronunciado ou concebido pela mente.

29. A mesma certeza de si pode ser alcançada de dois modos, dialogicamente, pois todo enganador precisa de alguém a enganar e atesta sua existência, ou performativamente, por um ato linguístico monológico, sendo a interpretação performativa mera simplificação da descoberta analítica do cogito, que tem natureza interlocutória e dirigida a um outro.

30. O mal-entendido radical do argumento do ego cogito decorre de se ter considerado apenas sua formulação final, puramente egológica, e nem sequer como enunciado performativo, mas como silogismo mal formulado, responsabilidade em parte do próprio Descartes, que deveria ter insistido na forma originariamente dialógica do argumento, que exclui todo silogismo e todo solipsismo, já que a existência do ego se funda na relação com um outro desconhecido, de existência apenas possível, um interlocutor anônimo que atesta sua certeza.

31. O argumento cartesiano aproxima-se assim de uma tradição espiritualista do diálogo originário entre o indivíduo e o outro, entendido como Deus, que vai das Confissões de Agostinho ao Myself and my Creator de Newman, afinidade raramente percebida e talvez a razão mais oculta das distorções sofridas pelo argumento do cogito.

32. Só se chega ao espírito autêntico do cartesianismo destruindo a casca das interpretações que o sufocam, como se abre um coco para alcançar a polpa, o que significa filosofar com o martelo, sempre uma boa maneira de fazer filosofia.