Jacques Derrida é reconhecido como um dos filósofos mais influentes do século XX, nascido na Argélia colonial francesa em 1930 e formado na École Normale Supérieure de Paris.
A trajetória inicial de Derrida concentrou-se na fenomenologia, com uma tese inacabada sobre
Husserl e publicações em revistas francesas como Critique e Tel Quel ao longo dos anos 1960.
Em 1967, Derrida afirmou-se definitivamente no cenário filosófico com a publicação simultânea de três obras — A Voz e o Fenômeno, A Escritura e a Diferença e Da Gramatologia — que consolidaram sua abordagem singular da escrita.
A tradução dessas obras para o inglês nos anos 1970 projetou Derrida internacionalmente, levando-o a dividir sua atuação entre instituições francesas e universidades norte-americanas como Yale e UC Irvine.
A desconstrução tornou-se um fenômeno cultural de alcance amplo, influenciando disciplinas acadêmicas das mais diversas e penetrando no imaginário popular por meio de filmes, canções e até estilos arquitetônicos.
Após os anos 1960, Derrida expandiu suas investigações para arte, política, psicanálise, teologia e tecnologia, com uma virada ética e política cada vez mais marcada a partir dos anos 1980.
A gramatologia designa literalmente a ciência da escrita — seu objeto, origem e diferença em relação à fala — e Derrida situa sua própria investigação no interior de uma revolução mais ampla do pensamento moderno que recorre à escrita como modelo explicativo em campos como a linguística, a psicanálise e a cibernética.
O título Da Gramatologia encerra uma ambiguidade essencial: a obra não é uma defesa da gramatologia, mas uma interrogação sobre as condições de possibilidade de uma ciência da escrita — e Derrida chega a sugerir que tal ciência talvez seja, em sentido estrito, impossível.
A gramatologia revela um conjunto mais amplo de pressupostos filosóficos denominado metafísica da presença — a tradição ocidental inteira, de Platão ao presente, entendida como busca de um fundamento último identificado com a noção de presença plena e pura.
Tudo o que se experimenta como plenamente presente — a voz, o pensamento, o instante — é, para Derrida, atravessado por diferenças e adiamentos infinitesimais; a presença não é um dado, mas um efeito produzido por uma série de diferenças anteriores, e a desconstrução consiste em evidenciar a instabilidade das oposições e hierarquias que sustentam essa lógica.
Da Gramatologia analisa a oposição metafísica central entre fala e escrita sob o nome de logocentrismo — a tentativa filosófica de fundar o logos, entendido como razão e presença, por meio da fala, à qual a escrita é subordinada como mera mediação ou corrupção.
A hierarquia logocêntrica entre fala e escrita é questionada pela tese de que toda linguagem — falada ou escrita — partilha aquela condição de mediação atribuída apenas à escrita; a escrita originária ou arque-escrita torna-se a base de uma filosofia inteiramente nova da linguagem.
A marginalização da escrita no pensamento ocidental não é um acidente, mas o sintoma privilegiado de um preconceito metafísico mais amplo em favor de um sentido fixo e presente — e a desconstrução não pode superar a metafísica de fora, pois não existe linguagem ou pensamento alheios a essa tradição; resta habitá-la e evidenciar sua instabilidade de dentro.