Paixão significa sofrimento, coisa sofrida, preponderância do destino sobre a pessoa livre e responsável.
Amar o amor mais que o objeto do amor, amar a paixão por si mesma, é amar e buscar o sofrimento.
Amor-paixão: desejo daquilo que nos fere e nos aniquila por seu triunfo.
Segredo que o Ocidente nunca tolerou confessar, e que não cessou de recalcar e preservar.
Persistência trágica desse segredo convida a julgamento pessimista sobre o futuro da Europa.
Incidência: ligação entre paixão, gosto da morte e modo de conhecer
Ligação ou cumplicidade entre paixão, gosto da morte que ela dissimula e certo modo de conhecer que define nossa psique ocidental.
Por que o homem ocidental quer sofrer paixão que o fere e que toda sua razão condena?
Por que quer esse amor cujo brilho só pode ser seu suicídio?
Porque se conhece e experimenta sob ameaças vitais, no sofrimento e no limiar da morte.
Terceiro ato do drama de Wagner descreve catástrofe essencial de nosso gênio sádico: gosto recalcado da morte, gosto de se conhecer no limite, gosto da colisão reveladora, raiz inarrancável do instinto de guerra em nós.
Sucesso do romance como revelação de preferência íntima pela infelicidade
Sucesso prodigioso do romance revela em nós, queiramos ou não, preferência íntima pela infelicidade.
Infelicidade pode ser deliciosa tristeza e spleen da decadência, sofrimento transfigurador, ou desafio do espírito ao mundo.
Buscamos o que pode nos exaltar até nos fazer aceder, malgrado nós, à verdadeira vida dos poetas.
Mas essa vida verdadeira é a vida impossível; céu de nuvens exaltadas, crepúsculo empurprado de heroísmo anuncia a Noite, não o Dia.
Verdadeira vida está alhures, diz Rimbaud; é apenas um dos nomes da Morte, único nome pelo qual ousamos chamá-la enquanto fingimos rejeitá-la.
Preferência pelo amor impossível e ligação entre sofrimento e conhecimento
Por que preferimos, a qualquer outro relato, o de um amor impossível?
Porque amamos a queimadura e a consciência daquilo que queima em nós.
Ligação profunda entre sofrimento e saber; cumplicidade entre consciência e morte (Hegel fundou explicação geral de nosso espírito e História nisso).
Definiria o romântico ocidental como homem para quem dor, especialmente dor amorosa, é meio privilegiado de conhecimento.
Busca do amor mais sensível e necessidade do obstáculo
Maioria busca simplesmente amor mais sensível, mas ainda assim amor cujo obstáculo retarda realização feliz.
Assim, quer se deseje amor mais consciente, quer simplesmente amor mais intenso, deseja-se secretamente o obstáculo; cria-se-o ou imagina-se-o se necessário.
Isso explica boa parte de nossa psicologia: sem obstáculos ao amor, não há romance.
O que se ama é o romance, isto é, consciência, intensidade, variações e retardamentos da paixão, seu crescendo até a catástrofe, não sua rápida labareda.
Caráter da literatura ocidental: felicidade sob ameaça
Literatura ocidental comove com felicidade dos amantes apenas pela expectativa da infelicidade que os espreita.
Necessária ameaça da vida e realidades hostis que os afastam para um além.
Nostalgia, lembrança, não a presença, comovem; presença é inexprimível, instante de graça (dueto de Don Juan e Zerlina) ou idílio de cartão postal.
A grande descoberta dos poetas europeus
Amor feliz não tem história na literatura ocidental; amor não recíproco não é considerado verdadeiro amor.
Grande achado dos poetas europeus, que os distingue na literatura mundial, expressando obsessão do europeu: conhecer através da dor.
Segredo do mito de Tristão: amor-paixão ao mesmo tempo partilhado e combatido, ansioso por felicidade que rejeita, engrandecido por sua catástrofe.
Amor recíproco infeliz.
Fórmula do mito: reciprocidade enganosa e duplo narcisismo
Amor recíproco no sentido de que se amam mutuamente, ou estão persuadidos disso; são um para o outro de fidelidade exemplar.
Mas infelicidade reside em que amor que os domina não é amor do outro em sua realidade concreta.
Amam-se mutuamente, mas cada um ama o outro a partir de si, não do outro.
Infelicidade nasce de falsa reciprocidade, máscara de duplo narcisismo.
Em certos momentos, excesso de paixão deixa transparecer espécie de ódio pelo amado.
Wagner viu isso antes de Freud e psicólogos modernos.
Citação de Isolda: Eleito por mim, perdido por mim!
Canção do marinheiro do mastro prediz destino inevitável.
Duplo infortúnio e exaltação pela aproximação da morte
Duplo infortúnio da paixão que foge do real e da Norma do Dia; infortúnio essencial do amor: o que se deseja ainda não se tem (a Morte), e perde-se o que se tinha (gozo da vida).
Perda não é sentida como empobrecimento, mas como viver mais perigosamente, mais magnificamente.
Aproximação da morte é aguilhão da sensualidade; agrava o desejo no pleno sentido, por vezes até desejo de matar o outro, suicidar-se ou naufragar juntos.
Citação de Isolda convocando ventos, desejando romper navio e engolir destroços.
Encontro final apenas na destruição
Atraídos pela morte para longe da vida que os empurra, presas voluptuosas de forças contraditórias que os precipitam no mesmo vertigem.
Amantes só poderão se reencontrar no instante que os priva para sempre de toda esperança humana, de todo amor possível, no seio do obstáculo absoluto e de suprema exaltação que se destrói por seu cumprimento.