DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la philosophie. Paris: Presses Universitaires de France, 1962. / Nietzsche e a filosofia. Tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Cordeiro. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976. / Nietzsche e a filosofia. Tradução de Thomaz Tadeu. São Paulo: n-1 edições, 2018.
1) Reação e ressentimento
No estado normal ou de saúde, as forças reativas sempre limitam a ação, retardando-a em função de outra ação cujo efeito sofremos, enquanto as forças ativas fazem a criação explodir num instante escolhido, formando-se assim uma resposta; o tipo ativo não exclui as forças reativas, mas exprime um rapport em que estas são elas próprias agidas, sendo o mestre chamado de reagente precisamente porque age suas reações.
Não basta uma reação para constituir um ressentimento, pois este designa um tipo em que as forças reativas triunfam sobre as ativas ao deixarem de ser agidas, e o próprio termo indica que a reação deixa de ser agida para se tornar algo apenas sentido, restando saber como as forças reativas conseguem esse triunfo e como, inversamente, elas são normalmente agidas.
2) Princípio do ressentimento
Freud distingue dois sistemas do aparelho psíquico — um que recebe excitações sem retê-las e outro que transforma a excitação momentânea em traços duráveis —, correspondendo essa hipótese tópica à distinção entre consciência e inconsciente, sendo a consciência formada como uma casca sempre renovável na fronteira entre o dentro e o fora, distinta do sistema inconsciente que guarda os traços indeléveis.
Nietzsche distingue igualmente dois sistemas de forças reativas: um inconsciente, digestivo e ruminante, que investe indefinidamente o traço recebido, e outro ligado à consciência, capaz de reagir à excitação presente em vez de à sua marca, sendo necessário que uma faculdade ativa supraconsciente — a faculdade de esquecimento, força plástica e regeneradora, e não mera inércia — separe esses dois sistemas e renove constantemente a frescura da consciência.
Sendo essa faculdade de esquecimento sujeita a falhas funcionais, sua deficiência faz com que o traço tome o lugar da excitação e a reação tome o lugar da ação, permitindo às forças reativas triunfarem sobre as ativas sem jamais formarem uma força maior, mas apenas impedindo umas às outras de serem agidas; assim se define o ressentimento como a reação que ao mesmo tempo se torna sensível e deixa de ser agida, fórmula que caracteriza a doença em geral.
3) Tipologia do ressentimento
O primeiro aspecto do ressentimento é topológico, consistindo no deslocamento das forças reativas e na invasão da consciência pelos traços mnésicos, sendo o homem do ressentimento como um cão que só reage a rastros, incapaz de investir outra coisa além do traço da excitação, revelando-se aí uma prodigiosa memória, sintoma principal desse tipo biológico, psíquico, histórico e social ao mesmo tempo.
O ressentimento não se explica pela quantidade de excitação recebida comparada à força do sujeito, mas por um rapport interno entre forças de natureza diferente que compõem um tipo: por isso o homem do ressentimento sente qualquer objeto como uma ofensa proporcional ao efeito que sofre, tornando a própria beleza ou bondade um ultraje, pois torna o objeto responsável por sua impotência típica de investir algo além do traço, sendo sua memória, como uma digestão interminável, intrinsecamente venenosa e depreciativa.
4) Características do ressentimento
A expressão “espírito de vingança” não designa uma mera intenção não realizada, mas confere à vingança um meio concreto de inverter o rapport normal entre forças ativas e reativas, sendo o próprio ressentimento já uma revolta e já o triunfo dessa revolta — o triunfo do fraco enquanto fraco, a vitória dos escravos enquanto escravos, definindo-se o tipo do mestre pela faculdade de esquecer e o tipo do escravo pela memória prodigiosa e pelo ressentimento.
A incapacidade de admirar, respeitar ou amar caracteriza o homem do ressentimento, cuja memória odiosa disfarça sua depreciação até nos lembretes mais ternos, sendo sua malevolência mais marcante que sua maldade, incapaz de tomar a sério suas próprias desgraças sem atribuir a culpa a alguém, ao contrário do respeito aristocrático que não consegue levar a sério seus próprios infortúnios.
A “passividade” no ressentimento não significa não-ativo, mas não-agido: o homem do ressentimento não sabe amar, mas quer ser amado, alimentado e acalentado, sendo o homem do benefício e do lucro, o que fez triunfar no mundo um sistema econômico e teológico inteiro fundado na utilidade, escondendo sob a moral do desinteresse as exigências recriminatórias de um terceiro passivo.
A imputação de culpas e a acusação perpétua substituem a agressividade, pois considerando o benefício um direito, o homem do ressentimento explode em censuras amargas sempre que sua expectativa é frustrada, resumindo-se sua fórmula fundamental em “tu és mau, logo eu sou bom”, precisamente o inverso da fórmula do mestre “eu sou bom, logo tu és mau”.
5) Ele é bom? Ele é mau?
Aplicando o método de dramatização a essas duas fórmulas opostas, percebe-se que quem diz “eu sou bom” não se compara a ninguém nem espera ser chamado de bom, mas se nomeia assim na própria medida em que age, afirma e goza, qualificando bom a atividade e a afirmação mesmas, uma certeza interna que não se busca, encontra ou perde, sendo essa a distinção aristocrática que glorifica a si mesma sem depender de comparação.
No “eu sou bom, logo tu és mau” dos mestres, o “logo” introduz apenas uma conclusão negativa e acessória a partir de premissas plenamente positivas, reforçando a afirmação; já no “tu és mau, logo eu sou bom” do escravo, o negativo passa para as premissas e o positivo se torna mera conclusão aparente, exigindo duas negações para produzir uma aparência de afirmação — esse estranho silogismo escravo sendo a matriz da dialética como ideologia do ressentimento, e é dessa inversão que nascem o bem e o mal como valores morais opostos ao bom e ao mau éticos originais.
6) O paralogismo
O paralogismo do ressentimento assenta-se na ficção de uma força separada daquilo que ela pode, como no silogismo do cordeiro que supõe que a ave de rapina poderia reter seus efeitos se quisesse, tornando culpado quem age e meritório quem se abstém, mesmo que essa abstenção não corresponda a nenhuma força real que o fraco “teria” e não exerceria.
** Esse paralogismo se desenvolve em três momentos que permitem às forças reativas adquirirem seu poder contagioso:
No momento da causalidade, desdobra-se a força ao transformar sua manifestação num efeito atribuído a uma causa distinta e separada, como quando se diz que o relâmpago brilha.
No momento da substância, projeta-se essa força desdobrada num sujeito neutro e livre, fictício, que poderia tanto manifestar a força quanto não — o sujeito gramatical denunciado por
Nietzsche em toda metafísica da substância.
No momento da determinação recíproca, moraliza-se essa força neutralizada, tornando o sujeito culpado por exercer a atividade que tem e meritório por não exercer a que “não tem”, substituindo a diferença original entre forças qualificadas (bom e mau) pela oposição moral entre forças substancializadas (bem e mal).
7) Desenvolvimento do ressentimento: o sacerdote judaico
O ressentimento, como a má consciência mais adiante, possui dois momentos — um topológico, estado bruto de psicologia animal, e outro tipológico, em que a matéria ganha forma —, sendo necessário identificar quem opera essa passagem, quem é o “artista” capaz de dirigir a projeção, conduzir a acusação e efetuar a inversão dos valores: esse artista é o sacerdote, e mais particularmente o sacerdote judaico, mestre em dialética que forja as premissas negativas e concebe o amor cristão como coroamento venenoso de um ódio incrível.
O sacerdote é cúmplice das forças reativas sem se confundir com elas, pois persegue um fim próprio — sua vontade de potência é o niilismo —, sendo o niilismo que conduz as forças reativas ao triunfo tanto quanto necessita delas; ao investigar a constituição histórica do sacerdote no povo judaico,
Nietzsche elabora ali a primeira psicologia do sacerdote, jamais aderindo ao antissemitismo ou ao pangermanismo que desprezava e odiava, interessando-lhe exclusivamente o problema tipológico da constituição desse tipo.
8) Má consciência e interioridade
Qualquer que seja a razão pela qual uma força ativa é falseada e separada daquilo que pode, ela se volta para dentro e se retorna contra si mesma — essa interiorização é a origem da má consciência, que assim toma o relevo do ressentimento ao levar o próprio acusado a reconhecer sua culpa, sendo a introjeção da força ativa consequência direta da projeção reativa anterior, e não seu contrário.
Separada daquilo que pode, a força ativa não se evapora, mas passa a produzir dor: em vez de gozar de si mesma, ela se faz sofrer por prazer de fazer sofrer, resultando numa multiplicação e auto-fecundação da dor — essa fabricação interior de sofrimento por introjeção da força constitui a primeira definição, ainda bruta, da má consciência.
9) O problema da dor
À medida que a força intériorizada fabrica cada vez mais dor, essa própria dor passa a ser interiorizada e espiritualizada, inventando-se um sentido íntimo para ela: torna-se consequência de um pecado e mecanismo de salvação, sendo essa transformação da dor em sentimento de culpa e castigo o segundo aspecto, tipológico, da má consciência.
O sentido ativo da dor, próprio dos mestres, é sempre externo: a dor só tem sentido enquanto agrada a alguém que a inflige ou contempla, sendo por isso que os gregos imaginavam deuses que se comprazem no espetáculo do mal, e a crueldade constituía o prazer preferido da humanidade primitiva; contrastando com isso, a má consciência inventa um sentido interno para a dor, curando-a ao infeccionar ainda mais a ferida, tornando-a consequência de uma falta e meio de salvação.
10) Desenvolvimento da má consciência: o sacerdote cristão
É novamente o sacerdote — desta vez em sua encarnação cristã — quem preside à interiorização da dor, mudando a direção do ressentimento: se antes o homem reativo dizia “a culpa é tua”, agora deve encontrar em si mesmo a causa de seu sofrimento, interpretando-o como castigo por um pecado cometido, sendo essa invenção da noção de pecado o golpe de mestre que torna a dor puramente íntima.
O cristianismo é ao mesmo tempo a conclusão do judaísmo — herdando e completando toda sua carga de ressentimento — e uma inovação que muda sua direção ao introduzir a má consciência, sem que essa mudança se oponha à direção anterior: trata-se apenas de uma sedução suplementar pela qual o ressentimento, ao dizer “a culpa é minha”, atinge o cume de seu poder contagioso, pois seu objetivo continua sendo que toda a vida se torne reativa e doente.
11) A cultura vista do ponto de vista pré-histórico
A cultura significa adestramento e seleção, sendo aquilo a que se obedece sempre histórico e arbitrário, mas o fato de se obedecer a algo, seja o que for, revela um princípio genérico que ultrapassa povos e classes — a atividade da espécie humana sobre si mesma durante seu longuíssimo trabalho pré-histórico, cujo objetivo é tornar as forças reativas aptas a serem agidas, dotando a consciência de uma nova memória voltada não para o passado, mas para o futuro: a faculdade de prometer.
Essa atividade cultural jamais recuou diante da violência, empregando a dor como moeda de troca exata equivalente ao dano causado, fundando assim o rapport credor-devedor como o mais primitivo entre os homens, anterior a qualquer organização social, sendo esse mecanismo do castigo — a equação dano causado igual dor sofrida — o meio pelo qual a cultura busca produzir seu fim: o homem livre, ativo e capaz de prometer.
12) A cultura vista do ponto de vista pós-histórico
A justiça não tem origem na vingança ou no ressentimento, pois exige um terceiro termo irredutível a esses sentimentos — o prazer ativo de infligir ou contemplar a dor —, sendo a justiça precisamente a última esfera conquistada pelo espírito de justiça, e o homem ativo, mesmo agressivo, estando cem vezes mais próximo dela do que o homem reativo.
O castigo tampouco produz remorso ou sentimento de culpa, tendendo antes a endurecer e a retardar o desenvolvimento desse sentimento, opondo-se ponto a ponto ao estado de má consciência: o produto final da atividade cultural não é o homem responsável ou moral, mas o indivíduo soberano e super-moral, aquele que pode prometer justamente porque não responde mais perante nenhum tribunal, sendo a responsabilidade-dívida apenas um meio que deve desaparecer no produto da própria cultura, numa espécie de autodestruição da justiça.
13) A cultura vista do ponto de vista histórico
Apesar de sua essência ir da pré-história à pós-história, a cultura na história sofre uma dinamização em que forças reativas — raças, povos, classes, Igrejas e Estados — se apropriam da atividade genérica e a desnaturam, formando “rebanhos” que usam os procedimentos de adestramento e seleção não para produzir o indivíduo soberano, mas o animal gregário, dócil e domesticado, invertendo completamente o sentido original da seleção e da hierarquia.
Essa degenerescência histórica da cultura, ilustrada pelo símbolo obscuro do cão de fogo em Zaratustra, mostra o homem domesticado e a atividade genérica deformada colocando-se a serviço da Igreja e do Estado, permanecendo em aberto o estatuto exato dessa dupla dimensão da cultura, mas sendo já possível explicar por que a atividade genérica cai necessariamente na história: ao tornar as forças reativas aptas a servir, o próprio adestramento permite que elas se coloquem a serviço de outras forças reativas, formando associações fictícias que usurpam a atividade genérica.
14) Má consciência, responsabilidade, culpabilidade
Ao se aproveitarem do adestramento genérico, as forças reativas interrompem sua linhagem original e projetam a relação credor-devedor em nova direção: a dívida deixa de ser ativa e liberadora para se tornar dívida inesgotável para com a divindade, a sociedade ou o Estado, transformando-se a responsabilidade-dívida em responsabilidade-culpabilidade através da interiorização da dor, culminando no golpe de gênio cristão de fazer o próprio Deus se sacrificar para pagar as dívidas do homem.
Assim se explica como o ressentimento muda de direção sem perder sua virulência: as forças reativas formam rebanhos organizados pela habilidade do sacerdote, a dívida se projeta na associação reativa tornando-se sentimento de culpa perante Deus, e o sacerdote não apenas envenena o rebanho, mas o organiza, tornando vivável a culpabilidade injetada ao nos fazer participar de uma aparente atividade e justiça, sem que o ressentimento perca sua sede de vingança.
15) O ideal ascético e a essência da religião
Existem religiões e divindades ativas e afirmativas, como Dionísio, e mesmo o Cristo enquanto tipo pessoal carecia notavelmente de ressentimento e má consciência, distinguindo-se do cristianismo como tipo coletivo; mas a religião possui tantos sentidos quantas forças capazes de dela se apoderarem, atingindo seu grau superior apenas quando conquistada por forças de sua própria natureza — sendo justamente nesse grau superior que ressentimento e má consciência se revelam como sua verdadeira essência, tendo sido são Paulo, e não o Cristo, o verdadeiro inventor do cristianismo.
Além do ressentimento e da má consciência, o ideal ascético representa o terceiro estágio: primeiro designa o complexo que cruza e reforça ambos, depois o conjunto de meios que tornam a doença vivável e a organizam, e por fim, em seu sentido mais profundo, exprime a própria vontade que faz triunfar as forças reativas — a vontade de nada, que necessita das forças reativas tanto quanto estas necessitam dela, formando juntas a afinidade fundamental entre niilismo e vida reativa.
16) Triunfo das forças reativas
A tipologia nietzschiana mobiliza toda uma psicologia das “profundezas” que mereceria ser confrontada com o conjunto da obra freudiana, mas não se deve atribuir aos conceitos de
Nietzsche um significado exclusivamente psicológico, pois um tipo é também realidade biológica, sociológica, histórica e política, sendo através dessa tipologia que
Nietzsche desenvolve uma filosofia genealógica — a filosofia da vontade de potência — destinada a substituir a velha metafísica e a crítica transcendental, sem que a vontade de potência ou a genealogia devam jamais ser reduzidas a uma simples gênese psicológica.