O SABOR

Approches de l’Inde

Dir. Jacques Masui

Mas qual é o conteúdo dessa «sugestão», o que ressoa nessa «ressonância» que é o sentido mesmo do poema? Em outras palavras, o que é, em sua essência, a poesia? Depois de ter refutado um certo número de definições propostas por outros autores 1), Viçvanâtha diz: «A poesia é uma palavra cuja essência é sabor» 2). E explica o que é o «sabor» (rasa): «Uma emoção fundamental, como o amor, manifestada pela representação de suas causas ocasionais, de seus acompanhamentos sensíveis e de seus efeitos, torna-se sabor para aqueles que têm uma consciência.» O Sabor não é, portanto, a emoção bruta, ligada à vida pessoal; é dela uma representação «sobrenatural» (lokottara), é um momento de consciência provocado pelos meios da arte e colorido por um sentimento. Ousaria dizer: uma emoção objetiva? Seria uma noção bem estranha à nossa mentalidade, mas se nos lembrarmos dos momentos de emoção estética intensa que vivemos, nos virá um certo «gosto»: e veem como se impõe essa imagem gustativa. O Sabor é essencialmente uma cognição, «brilhando de sua própria evidência», portanto imediata. É «alegria consciente (ânandacinmaya)… mesmo na representação de objetos dolorosos», pois não está ligada ao «mundo» ordinário; é dele uma recriação em outro plano. É animada pela «admiração sobrenatural». É «irmã gêmea da gustação do sagrado». «Aquele que é capaz de percebê-la a saboreia, não como uma coisa separada, mas como sua própria essência.» É «simples, como o sabor de um prato complexo 3)». Só pode ser apreendida pelos homens «capazes de julgar» 4), tendo um «poder de representação» e exige um ato de «comunhão» 5). Não é um objeto existindo antes de ser percebido, «como uma jarra que se vem iluminar com uma lâmpada»; existe na medida em que é saboreado. Não é um «efeito» mecânico dos meios artísticos, que apenas a «manifestam». Não está submetida ao nosso tempo (o tri-kâla: passado, presente, futuro). Não é, portanto, «deste mundo». «Só se conhece comendo-a.»

É esse Sabor que o «poder de sugestão» da linguagem tem por função manifestar 6).

A noção de rasa está no centro da estética hindu. Não comentarei as citações que precedem. A ilusão de tê-las compreendido me impediria de trabalhar para compreendê-las, e esse esforço para compreender sempre um pouco mais tem sido para mim dos mais fecundos.

*PS: Approches de l'Inde - Tradition et incidences, dir. Jacques Masui, Cahiers du Sud, 1949*

1)
Definições incompletas, porque apenas enumeram caracteres exteriores da poesia (ver adiante: virtudes, ornamentos) ou indicam condições necessárias mas não suficientes (como a «harmonia das palavras e dos sentidos», Mammata, Bhamaha); mas não dizem o que é sugerido. O rei Bhoja e o autor do Vyaktiviveka definem também a essência da poesia como sendo o rasa, e essa doutrina é certamente a mais rica de sentido.
2)
Vâkyam rasâtmàkan kâvyam, Sâhitya-darpana, I, 3. — Citações seguintes: ibid., III, 33 sq.
3)
A comparação entre a gustação poética e a gustação de uma preparação culinária já é desenvolvida na Sexta Leitura do Nâtya-çâstra (ver Subodh Chandra Mukerjee, The Nâtya-çâstra of Bharata, ch. VI, rasâdhyâya, tese, Paris, 1926).
4)
Pramâtri. Essa «capacidade de julgar», essa medida interior é, segundo um comentário, «o resultado dos méritos de uma existência anterior». Pode-se saborear a beleza na medida em que se preparou para ela.
5)
O Sabor não pertence pessoalmente ao poeta nem ao ouvinte; ao ator nem ao espectador; mas os une num mesmo momento de consciência.
6)
Embora o rasa seja único, distinguem-se praticamente vários «sabores», segundo o sentimento que o colora: Erótico, Cômico, Furioso, Patético, Heróico, Maravilhoso, Repugnante, Terrífico, aos quais se acrescenta frequentemente o Quietivo («apaziguamento» das emoções, vindo com o desejo da libertação e ligado ao amor religioso) e o Parental (amor materno ou paternel).